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Quando voltares, estarei mudada.

Não pelas marcas do tempo, pois elas me trouxeram charme.

Não pelos quilos que ganhei, pois eles me deixaram mais formosa.

 

Foste-te há muito tempo e a minha pele não tem mais a firmeza de outrora, mas sua maciez agora é de veludo.

Mas a principal mudança não se deu pelo tempo passado, mas por um momento exato.

 

Quando voltares,  verás que mudei no momento da despedida.

Que o adeus que deixou ferida, partiu meu coração e transformou meu ser.

 

Mas verás principalmente que a mudança se deu não pela dor provocada, mas pela descoberta de que nunca precisei de ti.

Foste-te há muito tempo e desejo que, no momento de seu retorno, o vento sussurre aos seus ouvidos pedindo que não volte nunca mais.

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Pra que voltar se não é pra ficar?

Mexer em todo aquele passado mal resolvido e vivido, por pura diversão?

Podia simplesmente sumir e me deixar achar que foi melhor assim. Mas cada vez que ressurge, é como se eu tivesse de novo o peso da decisão de estar ou não com você, mesmo que não dependa apenas de mim.

Fora o julgar, é só falar de você que todos ao meu redor só esperam que eu “tome a decisão certa”, mas dessa vez é diferente, não é? Não, mas assim eu fico a acreditar nos primeiros minutos de êxtase por te ver.

Vai passar? Não sei, mas enquanto isso for difícil pra mim, só quero que se vá, e deixe por aqui adormecido tudo que, um dia, eu sei que vai passar.

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Depois de todos esses anos há algo que ainda lhe cause estranhamento nessa vida?

No elevador, portas fechadas, dois amigos e o início do silêncio.

“Durante esses anos de vida, para além da minha profissão, já enfrentei: rostos dilacerados e hostilizados; uma insônia que se fazia viva para guardar o corpo de pesadelos; cicatrizes profundas que traduziam sobrevivência e, por diversas vezes, fui assombrada por expressões vazias de eterno luto. Em suma, me enojei demasiado pelo contato com as consequências de cínicos amores.

Não sou fã de declarações de amor, me incomoda assistir a performances baratas de dominação/submissão e pseudofelicidade. Confesso não entender a necessidade de viver uma amostra eloquente de sentimentos e estar sempre a prender-se numa corrente de gritos e mordaças. As almas, que como eu, se deixaram vagar por um aspecto singular de sentir, ora unilateral ora multi, sabem que também se ama com poucas palavras e, inclusive, na calmaria.

Em nada me oponho à gramática propriamente dita, nem às carícias faladas, nem aos apelidos ridículos, minha rixa é pontualmente reconhecida nas vezes em que surtos de posse, cenas de violação, cárcere, humilhação, traumas, flagelos, perseguição, medo e covardia são tratados todos no mesmo plano: o amor – numa cegueira que exige e cede vadios perdões. São três palavras virulentas a ratificar que um transtorno usurpe relações de benevolência.

Portanto, no que tange a mim, escolhi ser ausente àqueles afetos que estão brutalmente expostos pelos arranhões da pele e mantém lascas de pele por debaixo das unhas. Sempre que me deparo com uma possível armadilha me ponho a repetir o velho mantra da salvação…”

Uma voz a resgata de seu torpor e após vinte andares de pausa consegue responder.

Só uma coisa ainda me assusta: tenho medo das pessoas que muito se valem do “eu te amo”.

Segurando a porta do elevador o sujeito questiona:

– E o que faz quando este tipo lhe dirige tal afeição?

– Primeiro agradeço e, na sequência, sugiro que as introduza – as tais palavras – em seu próprio reto.

Ele ri, mas ela não se fez hesitante ao projetar a última fala.

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Nós éramos amigos e eu frequentava a casa dele para ouvir os desabafos de sobre uma ex-rolinho e eu acabava falando dos meus. Funcionava assim: eu ia pra balada, saía de lá e parava na casa dele, já que ele não curtia baladas. Era muito sério e focado em trabalho. Conversávamos e ia embora, quase todos os fins de semana. Tímido, o beijo só aconteceu após uns seis encontros desses. A sintonia foi total, mágica, e naquela noite acabamos nos estendendo.

Como não assumimos nada sério (e trabalhávamos juntos), os encontros eram sempre na casa dele e nossa sintonia era cada vez maior. A gente assistia TV, falava da vida, jantava ou almoçava, e claro, transávamos. Mesmo assim, eu não conseguia mais viver nessa situação. Na minha cabeça, eu imaginava: “Se estamos juntos e está gostoso, por que não assumir?” Então acabei me distanciando por não suportar esses encontros às escondidas e paramos de nos ver.

Namorei outros rapazes e era sempre assim. Quando eu estava com alguém, ele tratava de me procurar. Ficamos mais três vezes sempre do mesmo jeito: escondidos, na casa dele, e sempre muito gostoso.

Na quarta vez, ele me contou que sonhou comigo. Contou o sonho e todas as maluquices que imaginou. Também contou que a ex havia procurado por ele, mas que não tinha dado bola, afinal, ele não queria retomar o namoro. Não senti firmeza. Acabamos ficando e foi maravilhoso como todas as outras vezes, mas por algum motivo, o tempo todo durante aquela noite, eu tinha certeza de que seria a última vez. Eu beijava sua boca na certeza de que, aquela noite, seria a última. Afinal, os toques, os beijos e o jeito de falar já não eram os mesmos.

Às vezes, penso que ele poderia estar me usando, aproveitando dessa situação. Mas eu, por ser solteira, também me aproveitava. Queria curtir o momento, sem pensar no depois. Quem é que nunca se jogou sem pensar nas consequências? Mas nós, mulheres, às vezes não conseguimos separar, e acabamos nos machucando.

E aquele foi o último beijo, o último toque, a última janta, a última conchinha, a última transa, a última conversa. Eu sabia que seria a última vez.

Anita Duarte

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Quando te perdi, você estava ali
Ao alcance do meu olhar e à altura do meu abraço
Quando te perdi, ouvi o silêncio de tuas risadas e o vazio de suas chegadas
Quando te perdi, seu cheiro estava no ar, mas já não se fazia notar
Quando te perdi, seu calar me invadiu tal qual a voz que nunca se despediu
Como posso eu dizer que perdi, se na verdade nada tive de ti?

 

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Sinto esta mulher. O tato. O arrepio. A minha pele.

Prolonga-se o negro nessa cena atemporal.

São sons que coexistem.

São retratos de possibilidades não exaustivas que se tocam, se confundem e se alinham.

Enlaçam-se o real e o seu complemento.

Na utopia do desejo, já sedenta, a flor se abre…

Esvai-se. Transborda. Falece. Renasce.

É o fim, mas os sons coexistem.

O silêncio se faz, ainda que os gritos não cessem.

Não sabemos, mas na verdade estamos surdos.

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