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denúncia

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O companheiro da minha empregada ligou numa segunda-feira, às 7 horas, avisando que ela não viria, pois havia se machucado numa piscina…

No outro dia, ela mesma ligou dizendo que, apesar de constrangida, tinha de contar que estava toda roxa, o rosto inchado pela surra que ele lhe dera e que não queria mais trabalhar, iria voltar para sua cidade natal.

Na quarta, toda desfigurada, veio buscar seu acerto de contas. Insisti para que fizesse um B.O., que saísse da casa que é dele. Ofereci ajuda… Ela, com medo, disse que também batera nele e que, aí decerto, não teria mais razão. Ela não queria levar o assunto à delegacia da mulher, apesar de lamentar os anos de empenho em arrumar e montar a casa dele que seriam perdidos.

Na verdade, ela acabou não voltando para a cidade da sua mãe e já havia apanhado outras vezes… E ainda esperava que ele voltasse para ela…

O que faz uma mulher sujeitar-se a esta situação? Neste caso, ela parece ser bem resolvida, é valente, trabalhadora, não tem filhos, acabou bem o ensino médio, tem o apoio da família, ganha seu dinheiro, está para ganhar em seu nome uma casa do “Minha Casa Minha Vida” e tinha planos para estudar mais…

Imagino que se alguém até regularmente posta na vida passa por esta situação, o que não ocorre com milhares que não têm autonomia alguma, não trabalham ou têm subempregos e com filhos para proteger?

Só posso pensar que arraigada em nossa cultura patriarcal, muitas mulheres não veem outros caminhos que não o da submissão e subserviência, são criadas assim em todas as classes sociais, mas com predominância das mais desfavorecidas.

Sofrem humilhações, necessidades e não conseguem escapar desta violência. Com certeza, todos sabem de casos semelhantes e, mesmo querendo ajudar, essas “vítimas” não se deixam salvar.

O que faz uma mulher pensar que ama seu agressor? Que lhe deve algo? Que merece ou que precisa de um homem desta qualidade? O que nossa sociedade faz de fato para inibir esses monstros? Já ouvi tantas vezes homens dizendo que mulher gosta de apanhar. Na mesma hora pergunto se a mãe deles gostava… Aí eles respondem que a mãe deles é uma exceção.

Quantos deles se sentem no direito de até matar? Os casos são notórios e podem até não espantar… Como isso é aceitável?

Precisamos criar nossas meninas e jovens para que sejam autossuficientes, para que não se iludam com e por falsos príncipes. Precisamos ajudar a estruturar eficazes associações de proteção – ou reforçar as já existentes – com apoio financeiro, policial, jurídico e psicológico para que as salvemos.

A internet aí está e é universal, todas nós participamos. Assim, façamos campanhas, apoiemos projetos que promovam o empoderamento das mulheres… Enfim, que todas nós lutemos para melhorar o aparato de auxílio às vítimas da violência. É possível? Estou pedindo ideias, braços e, principalmente, vozes para a tarefa. Juntas, sem outros interesses que não o de ajudar (nem político, nem religioso ou ideológico). Só o de melhorar este mundo ainda tão desigual. E estupidamente violento.

  • OBS: Para denunciar a violência contra a mulher, ligue 180 na Central de Atendimento à Mulher (ligação gratuita e funciona 24h por dia em todo o país). As mulheres que sofrem violência podem procurar qualquer delegacia, mas é preferível que elas se dirijam às Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), também chamadas de Delegacias da Mulher (DDM). Veja mais aqui.

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Depois de todos esses anos há algo que ainda lhe cause estranhamento nessa vida?

No elevador, portas fechadas, dois amigos e o início do silêncio.

“Durante esses anos de vida, para além da minha profissão, já enfrentei: rostos dilacerados e hostilizados; uma insônia que se fazia viva para guardar o corpo de pesadelos; cicatrizes profundas que traduziam sobrevivência e, por diversas vezes, fui assombrada por expressões vazias de eterno luto. Em suma, me enojei demasiado pelo contato com as consequências de cínicos amores.

Não sou fã de declarações de amor, me incomoda assistir a performances baratas de dominação/submissão e pseudofelicidade. Confesso não entender a necessidade de viver uma amostra eloquente de sentimentos e estar sempre a prender-se numa corrente de gritos e mordaças. As almas, que como eu, se deixaram vagar por um aspecto singular de sentir, ora unilateral ora multi, sabem que também se ama com poucas palavras e, inclusive, na calmaria.

Em nada me oponho à gramática propriamente dita, nem às carícias faladas, nem aos apelidos ridículos, minha rixa é pontualmente reconhecida nas vezes em que surtos de posse, cenas de violação, cárcere, humilhação, traumas, flagelos, perseguição, medo e covardia são tratados todos no mesmo plano: o amor – numa cegueira que exige e cede vadios perdões. São três palavras virulentas a ratificar que um transtorno usurpe relações de benevolência.

Portanto, no que tange a mim, escolhi ser ausente àqueles afetos que estão brutalmente expostos pelos arranhões da pele e mantém lascas de pele por debaixo das unhas. Sempre que me deparo com uma possível armadilha me ponho a repetir o velho mantra da salvação…”

Uma voz a resgata de seu torpor e após vinte andares de pausa consegue responder.

Só uma coisa ainda me assusta: tenho medo das pessoas que muito se valem do “eu te amo”.

Segurando a porta do elevador o sujeito questiona:

– E o que faz quando este tipo lhe dirige tal afeição?

– Primeiro agradeço e, na sequência, sugiro que as introduza – as tais palavras – em seu próprio reto.

Ele ri, mas ela não se fez hesitante ao projetar a última fala.

Solteirando pelas redes sociais