Vivemos com medo de tudo. De perder o emprego, de ladrão, da polícia, do chefe, do governo, dos impostos e até dos nossos companheiros e, em alguns casos, do nosso próprio pai. Isso pode parecer absurdo, mas é verdade.
77% das mulheres que relatam viver em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente. Em mais de 80% dos casos, a violência foi cometida por homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo: atuais ou ex-companheiros, cônjuges, namorados ou amantes das vítimas. É o que revela o Balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR).
Fiquei assustada com a conversa que ouvi numa sala de espera de consultório. Eram duas amigas aparentemente de classe média alta:
– Ontem não consegui dormir, Dani.
– O que aconteceu, Fabi? Seu pai de novo?
– É Dani, ele de novo. Ficou a noite inteira gritando pela casa, bêbado. Queria bater na minha mãe de qualquer jeito.
– Nossa! E você?
– Bom, fiquei a noite inteira acordada escutando todo movimento da casa e pronta para acudir a minha mãe que tentava dormir com a porta trancada. Lá pelas 3h ele arrebentou a porta e bateu nela, mas o que mais doeu tenho certeza que não foram os tapas, o que mais doeu foram os insultos descabidos. Isso sim deve ter ferido a carne.
– Fabi, não sei como vocês aguentam. Vocês já o denunciaram?
– Dani, é muito difícil denunciar o próprio pai, ele pode perder o emprego. Minha mãe levantou, se maquiou e foi trabalhar como se nada tivesse acontecido. E hoje, só Deus sabe o que vai acontecer.
Preferimos não falar destes temas, pois achamos que isto não nos pertence. Mas a violência contra a mulher está em cada esquina, dentro de vários lares, no seu vizinho ou até mesmo dentro da sua casa. Você conhece ou viveu algo assim?
O companheiro da minha empregada ligou numa segunda-feira, às 7 horas, avisando que ela não viria, pois havia se machucado numa piscina…
No outro dia, ela mesma ligou dizendo que, apesar de constrangida, tinha de contar que estava toda roxa, o rosto inchado pela surra que ele lhe dera e que não queria mais trabalhar, iria voltar para sua cidade natal.
Na quarta, toda desfigurada, veio buscar seu acerto de contas. Insisti para que fizesse um B.O., que saísse da casa que é dele. Ofereci ajuda… Ela, com medo, disse que também batera nele e que, aí decerto, não teria mais razão. Ela não queria levar o assunto à delegacia da mulher, apesar de lamentar os anos de empenho em arrumar e montar a casa dele que seriam perdidos.
Na verdade, ela acabou não voltando para a cidade da sua mãe e já havia apanhado outras vezes… E ainda esperava que ele voltasse para ela…
O que faz uma mulher sujeitar-se a esta situação? Neste caso, ela parece ser bem resolvida, é valente, trabalhadora, não tem filhos, acabou bem o ensino médio, tem o apoio da família, ganha seu dinheiro, está para ganhar em seu nome uma casa do “Minha Casa Minha Vida” e tinha planos para estudar mais…
Imagino que se alguém até regularmente posta na vida passa por esta situação, o que não ocorre com milhares que não têm autonomia alguma, não trabalham ou têm subempregos e com filhos para proteger?
Só posso pensar que arraigada em nossa cultura patriarcal, muitas mulheres não veem outros caminhos que não o da submissão e subserviência, são criadas assim em todas as classes sociais, mas com predominância das mais desfavorecidas.
Sofrem humilhações, necessidades e não conseguem escapar desta violência. Com certeza, todos sabem de casos semelhantes e, mesmo querendo ajudar, essas “vítimas” não se deixam salvar.
O que faz uma mulher pensar que ama seu agressor? Que lhe deve algo? Que merece ou que precisa de um homem desta qualidade? O que nossa sociedade faz de fato para inibir esses monstros? Já ouvi tantas vezes homens dizendo que mulher gosta de apanhar. Na mesma hora pergunto se a mãe deles gostava… Aí eles respondem que a mãe deles é uma exceção.
Quantos deles se sentem no direito de até matar? Os casos são notórios e podem até não espantar… Como isso é aceitável?
Precisamos criar nossas meninas e jovens para que sejam autossuficientes, para que não se iludam com e por falsos príncipes. Precisamos ajudar a estruturar eficazes associações de proteção – ou reforçar as já existentes – com apoio financeiro, policial, jurídico e psicológico para que as salvemos.
A internet aí está e é universal, todas nós participamos. Assim, façamos campanhas, apoiemos projetos que promovam o empoderamento das mulheres… Enfim, que todas nós lutemos para melhorar o aparato de auxílio às vítimas da violência. É possível? Estou pedindo ideias, braços e, principalmente, vozes para a tarefa. Juntas, sem outros interesses que não o de ajudar (nem político, nem religioso ou ideológico). Só o de melhorar este mundo ainda tão desigual. E estupidamente violento.
- OBS: Para denunciar a violência contra a mulher, ligue 180 na Central de Atendimento à Mulher (ligação gratuita e funciona 24h por dia em todo o país). As mulheres que sofrem violência podem procurar qualquer delegacia, mas é preferível que elas se dirijam às Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), também chamadas de Delegacias da Mulher (DDM). Veja mais aqui.