InícioRelacionamento & CotidianoA rotina nossa de cada dia

A rotina nossa de cada dia

Uma só vida.

É o que temos. E ainda sem saber quanto tempo ela durará.

Tendo essa única certeza desde que nascemos, de que vale essa vida se não nos arriscarmos e ousarmos cada dia?  Permanecer num emprego que nos causa infelicidade, mas que garante estabilidade, dormir cedo sempre, nunca se atrasar, ir ao mesmo cinema, ao mesmo restaurante, a mesma balada; ter roupas sempre da mesma loja, tomar a mesma marca de cerveja: perda de tempo.

É como a velha e boa música de Chico Buarque:  “Todo dia ela faz tudo sempre igual/ me sacode às seis horas da manhã/ me sorri um sorriso pontual/ e me beija com a boca de hortelã”.

Fomos educados à rotina. Acordar cedo para ir à escola, não se atrasar, fazer lição de casa todos os dias, almoçar no horário, não chegar tarde em casa, etc. Gostar de rotina não é ruim. Afinal, é ela que norteia nossas vidas e dá certa diretriz ao nosso dia a dia. Caso contrário, viveríamos num caos e desfocados. A rotina é de certa forma a força motriz que nos faz obedecer às regras e nos manter sãos, sem grandes transtornos psíquicos.

Sair da rotina, às vezes pode ser doloroso. Arriscar-se numa atividade nova, atrasar-se mais que cinco minutos ou experimentar uma comida exótica,  nem sempre é fácil alcançar. Principalmente para quem tem sua vida toda cronometrada e disciplinada pelos relógios e suas regras _ acordar às seis, fazer ginástica, tomar banho e se arrumar em meia hora, tomar café lendo jornal, trabalhar incessantemente, voltar pra casa pelo mesmo caminho de sempre, assistir qualquer porcaria na televisão e dormir.

Desse modo, não nos permitimos experimentar algo novo e ousado, por mais simples que seja. Não nos damos o luxo de fazer um programa cultural em plena terça-feira, afinal, amanhã é quarta, dia de acordar cedo e trabalhar.  Não nos permitimos nos atrasar um dia sequer, como naquele dia chuvoso e frio que nos faz ficar mais uns minutinhos na cama pela manhã. Não nos permitimos acordar após o meio-dia num domingo preguiçoso. E assim, a vida vai passando, nessa disciplinada, organizada, metódica e chata rotina.

Por muito tempo fui um pouco assim: metódica e intransigente (confesso que ainda sou meio rígida com horários e rotina, mas estou tentando mudar). Reconhecer que meu mundinho é limitado e que a zona de conforto não me oferece nada mais do que conforto, já é o primeiro passo. Num encontro entre amigas, se todas chegam no horário, acho ótimo. Se, algumas chegam atrasadas, me incomodo um pouco, mas hoje já espero as atrasadas feliz, e faço disso um motivo de risadas.

Viver metodicamente é não viver, ou viver pela metade. Partindo do pressuposto que temos uma só vida, melhor não desperdiçá-la.

Otávia Fernanda
Otávia Fernanda
Paulista de 46 anos, estado civil volátil. Ex-executiva que cansou da vida escrava e resolveu ser atriz, escritora e filósofa nas horas vagas. Cursou Engenharia, Direito, Administração e tem MBA, mestrado, doutorado e o diabo a quatro, mas não recomenda a ninguém. Morou 4 anos em Londres, onde foi colunista em jornais e revistas locais. Provocadora e introspectiva, adora questionar o status quo. Escreve um pouco de tudo e pensa tudo sobre pouco.
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Sou uma eterna romântica. Acredito no amor acima de tudo. Em especial, o amor próprio.

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