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Prova de Autossuficiência – A Epopeia

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Obs: Não recomendamos este post a quem se incomoda com linguagem ofensiva.

O dia começou lindo. Mesmo madrugando depois da madrugada em claro… Mesmo depois de revisar cada detalhe da apresentação da minha pequena obra-prima do universo virtual…

Nasci para construir websites, aplicativos e afins. Tão mágico quanto pular de bungee jumping na Nova Zelândia, entrar na onda perfeita, ver seu time campeão no Japão ou mergulhar em Cozumel é construir um pequeno mundo colorido de funcionalidades irretocáveis. Momentos que valem uma vida, sem antes ou depois.

Vivo por essas aventuras. E, por sorte, meu trabalho é uma delas.

Provavelmente ele nunca vai me deixar rica ou assegurar minha aposentadoria, mas minha infalível “autossuficiência” dá conta do recado: conciliar loucuras nada modestas com gastos controladamente modestos. Dá até pra ser freela e dispensar o cartão de ponto e o chefe no seu cangote!

E, naquela manhã, curtia um dos meus momentos mágicos: o aplicativo que havia desenvolvido, além de belo e perfeito, estava 100% alinhado com a gerente de marketing que me contratou. Ela tinha adorado o resultado e estava aliviada pela entrega no prazo. Só faltava mostrar ao chefe dela, sujeitinho nada fácil, como advertiram alguns…

Cheguei na sala de reunião 10 minutos antes, calibrei o projetor e fiquei com a gerente e com minha autoconfiança a perder de vista. Esperamos o diretor bem mais do que 10 minutos, mas isso não abalou nossa euforia.

No entanto, bastou o dito cujo entrar na sala com sua “cara de cu” para a nossa energia vital começar a ruir… Aliás, com ele um fedor de mediocridade tomou conta do lugar…

Não me abati e, intrépida, comecei a brilhante apresentação, que ele já a partir do primeiro slide passou a interromper para fazer comentários idiotas. Isso quando não olhava qualquer outra coisa no celular…

Até que, inesperadamente e antes que pudéssemos finalizar, veio a bomba: “Ana Paula, você não entendeu o ‘espírito da coisa’. Não é nada disso!”

Poucos minutos depois, enquanto a Ana Paula desesperada e inutilmente ainda tentava entender o motivo de nosso suposto fracasso, não me contive: “Sr. Ronaldo, perdoe-me, mas seguimos o briefing à risca, cumprimos um prazo apertadíssimo, a Ana Paula lhe posicionou a cada passo e, além disso, o senhor deu OK na especificação! Fora que não está clara a nova linha que deveríamos seguir!”

O Sr. Diretor da Mediocridade se alterou ainda mais: “Não me interrompa! Estou conversando com a minha gerente. Depois alinhamos sua entrega abaixo do esperado.”

Comecei a visualizar como eu poderia facilmente acabar com aquele projeto de ser humano grotesco. Imaginei murros e chutes certeiros no estômago, no fígado e na cara e visualizei dentes destroçados e muito sangue (dele, evidentemente) voando por todo lado. Também o imaginei prostrado na sarjeta. Por alguns instantes, voltei a me sentir calma e controlada.

Porém, ele acabou extrapolando todo e qualquer limite: “Ana Paula, sabia que deveria ter passado esse projeto ao Luciano. Um olhar masculino resolveria nosso problema! E a senhora nem invente de contratar mulheres da próxima vez! Desenvolvimento de aplicativos é trabalho para homem.”

Evidentemente ele não tinha a menor ideia do demônio que havia libertado: de dócil e imaginária esmagadora de ossos, me transformei no Incrível Hulk vermelho, de TPM e em carne e osso!

Fui direto ao encontro do sujeitinho sentado na cabeceira da mesa e apontei o dedo para sua cara torta: “Agora VOCÊ foi além da conta! Simplesmente não sou obrigada a ser vítima de assédio moral e de preconceito sexual! A propósito, nem fui paga para ouvir o lamento de um imbecil como você que mal faz ideia do que é um projeto como esse ou do que é ser um gestor. E provavelmente você só chegou aonde chegou por ter lambido muito saco de outros incompetentes mais poderosos do que você! Ah… E antes que você pense em fazer algo com este aplicativo, já aviso que deixei o ambiente de teste indisponível.”

Claro que ele ficou puto elevado ao infinito: “Sua vaca FDP! Sou um diretor e exijo respeito! Você nunca mais pisará nesta empresa! E o aplicativo é nosso! Vou processá-la e exercer a multa do contrato!”

Olhei para a pobre gerente de marketing que estava aparentemente em estado de choque: “Ana Paula, avise-o para imprimir a minuta do contrato que ele ainda não aprovou e para enfiá-la no orifício dele que mais sai merda (não sei bem se o CU ou a BOCA)! Ah… E lembre-o de usar a segunda parte do pagamento para contratar um webdesigner ‘macho’ que o satisfaça!”

Entrei no meu modesto carrinho mil, compatível com o meu ainda mais modesto orçamento, e acelerei a mil: “Céus! Preciso ligar pra pobre Ana Paula!… Mas, afinal de contas, quem é aquele ser abjeto que ousa achar que uma mulher não é apta a fazer o que faço?”

A enxurrada de palavrões que jorrava daquele carro colocaria qualquer bíblia sagrada da obscenidade no chinelo. Claro que o foco principal das ofensas era o dito cujo, mas nem a minha própria estupidez foi poupada!

Até que, em aceleração raivosamente galopante (incompatível com meu modesto carrinho), encontrei um buraco desgraçado na pista local da Marginal e o pneu do carro estourou!

A poucos metros, um posto de gasolina. Um dos frentistas prontamente começou a vir em minha direção: “Moça, a senhora quer ajuda?”

Abri a porta do carro arquitetando a vingança perfeita a todos os reles representantes dos cromossomos capengas* que não acreditam na competência feminina: “Meu caro, por que vocês homens não acreditam que uma mulher consiga trocar um pneu? Assim, volte ao seu trabalho ou, se quiser, aprenda comigo como se faz!”

Incrivelmente, ele ficou ali mesmo… Atitude de alto risco só justificada pelo total desconhecimento do meu nível estratosférico de enfurecimento. A caminho do porta-malas e sob a mira do frentista, deixei de visualizar o cadáver do Ronaldo e comecei a relembrar toda a sequência de passos para a troca do pneu. Dar vexame era a última opção pra acabar aquele dia…

Mas logo esse dilema foi substituído por outro: “Cadê a porcaria do estepe?” E ainda tive de ouvir do frentista: “Moça, está bem comum roubarem o estepe…”

Nem me lembro mais o que respondi e como lidei com a situação… A última imagem que me vem à cabeça é a risadinha irônica dos outros frentistas.

E, depois de me safar da ocorrência desastrosa final daquele dia de cão, fui direto fazer mais uma tatuagem: uma tigresa prestes a matar sua vítima com uma mordida no pescoço. Ela ficou ao lado do dragão lançando chamas e da Beatrix Kiddo** em plena ação com sua espada samurai.

O dia até que acabou bem. Mas, junto com o orgulho por minha nova tattoo e por ter colocado aquele imbecil em seu devido lugar, ficou o gosto amargo de mais um prejuízo. E também a preocupação de que logo não haveria pele suficiente no corpo para comportar tamanha insuficiência.

 

* Os cromossomos Y.

** Também conhecida por “Mamba Negra”, a “Noiva” ou “Mamãe”. É um personagem fictício do filme “Kill Bill”, de Quentin Tarantino.

Ilustrações: agradecimentos a Daniel Wernëck (Quadrinho Shogum dos Mortos) e “Tatuajes para Mujer”.

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4 COMMENTS

  1. É infelizmente nos deparamos com seres assim. O poder sobe à cabeça e o respeito se perde.

  2. Você deu queixa pelo o que o ogro lhe disse?

    Não podemos deixar que a lei seja letra morta, pois não a fazemos valer.

  3. “de dócil e imaginária esmagadora de ossos, me transformei no Incrível Hulk vermelho, de TPM e em carne e osso!”…simplesmente adorei! Kkkkkkk

  4. Priscila, adorei sua pergunta! Certamente você é uma mulher de fibra. Exagerei um pouco no “ocorrido”, mas quantas vezes passamos por coisas assim e não pensamos em abrir um processo por saber que a justiça brasileira demora demais e é cara demais? Mas não podemos agir dessa forma. Afinal, ter atitude pode ajudar outras mulheres a não enfrentar a mesma situação no futuro… Não me esquecerei de sua recomendação. Forte abraço!

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