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Aldo Rebelo

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Virada de ano, hora de reflexão… E também de esforço sobre-humano para encontrar as raras migalhas de otimismo que restaram pelo caminho…

A retrospectiva? Vamos aos temas que talvez mais importem para muito além de 2015:

  • O quinto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) é claríssimo: o nível de CO2 na atmosfera é o mais alto dos últimos 800 mil anos e a interferência do homem neste fenômeno é indiscutível. Tanto que, na COP 20 (Conferência das Nações Unidas sobre o Clima) em Lima, ninguém mais perdeu tempo discutindo se o efeito estufa é ou não é reflexo do comportamento humano e da queima dos derivados do petróleo.
  • Em 2013, 22 milhões de pessoas foram vítimas de eventos extremos do clima, tais como inundações e enchentes, tsunamis, secas etc. E os países mais pobres são os mais afetados. Acredita-se que em meados deste século os refugiados do clima poderão ser 200 milhões.
  • A humanidade está provocando a sexta extinção em massa no planeta. Das entre 5 e 9 milhões de espécies estimadas de animais, de 11 a  58 mil estão desaparecendo anualmente, um ritmo mil vezes superior ao “natural”. 67% das poucas espécies de invertebrados monitoradas apresentaram um declínio de quase 50% em suas populações. 13% das espécies de aves estão seriamente ameaçadas de extinção. Esgotamos ou colocamos em risco ¾ das zonas pesqueiras. 30% dos corais já desapareceram. No ritmo atual, toda a reserva de peixes está ameaçada.
  • A comunidade científica internacional já discute o advento de uma nova era geológica, o ANTROPOCENO, que marca o início do impacto evidente da atividade humana sobre o planeta.
  • A “eficientíssima” agroindústria, o plantio de irrigação, o consumo extremo e as mudanças climáticas vêm esgotando perigosamente as reservas não renováveis de água potável em todo o mundo. Vários rios outrora grandiosos (como o Jordão e o Colorado) estão virando riachos e muitos deles não deságuam mais no mar em grande parte do ano. Até a Índia corre risco de sofrer falta de água nas próximas décadas.

 

Enquanto isso, na ainda jurássica Terra Brasilis…

  • O desmatamento na Amazônia brasileira em outubro de 2014 foi de 244 km² (cerca de 24 mil campos de futebol), um aumento de 467% com relação a outubro de 2013, segundo a ONG Instituto Imazon. O sistema de alerta da Imazon realiza suas medições em colaboração com o aplicativo Google Earth. Em contrapartida, os dados “oficiais” das autoridades ambientais brasileiras indicaram – logo antes do início da COP 20 – que o desmatamento da Amazônia brasileira caiu 18% no período 2013-2014 (ou 4.848 km²). Dados ligeiramente discrepantes, não?
  • São Paulo passa pela mais grave crise hídrica em 80 anos. O governador reeleito Geraldo Alckmin foi omisso e inconsequente ao repelir as advertências dos técnicos sobre um sistema que já operava no limite há tempos, ao minimizar a gravidade da situação e ao atribuir unicamente a “São Pedro” a responsabilidade pela crise (“É uma situação excepcional.”). Sua motivação foi puramente eleitoreira. Prova disso é que o novo gestor da Sabesp acaba de declarar que o Estado precisa estar “preparado para o pior”. Enquanto isso, as reservas do Sistema Cantareira não param de cair…
  • O governo federal, depois de reeleito em meio a uma das mais sujas campanhas eleitorais da “era democrática”, hoje está submerso em uma terrível maré negra com o “derramamento” dos escândalos do Petrolão. Comprova-se a cada dia que as inimagináveis quantidades de dinheiro desviadas pela corrupção se alastraram por quase toda a fauna política brasileira e em grande parte das maiores corporações do país.
  • Pra piorar, na calada da virada do ano, nossa presidente Dilma Rousseff, que no mínimo tem sido complacente com os carnífices desse desastre político, anunciou várias medidas “neoliberais” para ajuste das contas públicas que recentemente rechaçou como candidata (incluindo a flexibilização de direitos dos trabalhadores) e acaba de nomear o pior ministério das últimas décadas (reflexo de uma distribuição de cargos para alegrar partidos). Apenas como exemplo, temos o novo  Ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo (antigo Ministro do Esporte). Ele foi relator do atual código florestal brasileiro (ou seria “código agrário”?), um desserviço sem precedentes a alguns dos maiores patrimônios biológicos da humanidade – infelizmente abrigados neste território tupiniquim. E por quê? Esse código permite o cultivo em áreas de preservação permanentes, isenta os agricultores de multas, diminui as áreas de conservação adjacentes às margens de rios, dentre outros crimes hediondos com nossas gerações futuras. Vale lembrar também que o novo ministro, além de ser descaradamente adepto ao lobby do agronegócio, duvida do aquecimento global e não entende absolutamente nada de ciência, já tendo, inclusive, defendido a “naturalização da jaca”.

 

Bem, em meio à podridão política, à minha notória descrença no país e na raça humana e à notícia de que o boto-cor-de-rosa está seriamente ameaçado de extinção, busco recuperar as forças revendo o excelente documentário HOME*. Dele resgato as últimas fagulhas de motivação para começar 2015:

“Temos muito pouco tempo para mudar.

Como este século carregará o fardo de 9 bilhões de seres humanos se nos recusarmos a assumir a responsabilidade por tudo que nós, sozinhos, fizemos?

[…]

É tarde demais para ser pessimista.

[…]

Na Coréia do Sul, as florestas haviam sido devastadas pela guerra. Graças a um programa nacional de reflorestamento, elas voltaram a cobrir 65% do país.

A Costa Rica não tem mais exército. Redireciona seus recursos à educação, ao ecoturismo e à proteção de sua floresta primária.

O Gabão é um dos principais produtores mundiais de madeira. Ele aplica o madeiramento seletivo: no máximo uma árvore por hectare.

[…]

É tarde demais para ser pessimista.

O importante não é o que se foi, mas o que permanece.

Nós todos temos o poder para mudar.

Então, o que estamos esperando?”

 

Assim…

Políticos que sobreviverem limpos e imaculados à destrutiva maré negra do Petrolão, inspirem-se nas boas experiências internacionais, tenham consciência de que este país herdou um elo importantíssimo para o equilíbrio ecológico mundial e inspirem outros povos com novos modelos de preservação. Que tal começar com o “Desmatamento ZERO” na Amazônia? Seria muita ingenuidade contar que vocês serão agraciados com visão estratégica e coragem suficientes para protagonizar a luta pela conservação do mais valioso patrimônio biológico do planeta?

 

Heróis e heroínas do dia a dia, não esperem os políticos deste país. Resistam ao pessimismo imobilizador e não desistam de transformar o “homo sapiens”, uma verdadeira usina de lixo que se reinventa a cada minuto para aumentar sua eficiência, em uma espécie capaz de conviver com outras e sem dizimar seu ambiente!

 

Quanto a mim, nada de heroico a declarar… Tentarei fazer a minha parte, inclusive indo às ruas se o gigante de junho/13 acordar enfurecido depois da letargia em 2014…

 

Enfim, como disse um certo sujeito chamado Gandhi: “Seja a mudança que você quer no mundo.” … Rumo a felizes anos novos num Planeta Terra habitável para as gerações que estão por vir!

 

* “Home” é um documentário lançado em 2009, produzido pelo jornalista, fotógrafo e ambientalista francês YannArthus-Bertrand. O filme é inteiramente composto de imagens aéreas de vários lugares da Terra. Mostra-nos a diversidade da vida no planeta e como a humanidade está ameaçando o equilíbrio ecológico. https://www.youtube.com/watch?v=jvXTCpwU_YA

**Ilustração: agradecimentos aos cartunistas Patrick Chappatte e Sid.

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