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Portas fechadas. Quatro paredes. Luzes apagadas.

Um primeiro encontro que, provavelmente, também seria o último. Transamos, sussurramos e confessamos alguns segredos.

Ele parecia ser o sujeito mais legal do mundo!

Vesti-me, voltei para casa e, ainda delirante, repousei meu corpo cansado (e marcado) sob o sofá. Na manhã seguinte, já recobrada a lucidez, uni as peças que restaram daquela história: ele, eu, o sexo casual e dezenas de amigos em comum.

Será que ele vai contar tudo para todos?

Sim, ele vai. E a minha sensação de exposição e vergonha se transformou em ódio mortal por imaginar que a simples manifestação do meu desejo seria reproduzida de maneira vil, suja e covarde. Chorei por saber que seria humilhada com comentários indecorosos, que haveriam risos omissos e, talvez, na mente de algum abusado faria sentido tomar a liberdade de me faltar o respeito.

Chorei por saber que não sou a única mulher a passar por isso…

E, porque em pleno século 21 ainda temos nosso comportamento sexual tão questionado. Por que é permitido nos diminuírem? Por que preciso achar normal que minha intimidade seja exposta? Por que temos que essa linha demarcando a imoralidade feminina?

Por que ainda somos o lado frágil e hostilizado de uma relação de vantagem mútua?

Sequei as minhas lágrimas. Não posso me envergonhar de mim, se não encontrei dignidade nos parceiros que tive a reconheço em cada detalhe da mulher que me tornei. Desde a postura obediente de boa filha até a conduta obscena de vaca profana.

– Glória, está em casa?

– Sim, está tudo bem?

– Toma uma cerveja comigo?

– Claro!

E pelo pedido, é claro que não está bem…

 

“Amiga, estou com a autoestima arrasada. Sinto-me culpada e diminuída por ter caído em mais um golpe – o golpe da paixão. Ele é jovem, eu deveria ter suspeitado, deveria ter evitado a relação. A noite foi incrível, me entreguei num impulso adolescente. Que ridículo! Agora, fui surpreendida com um cenário de mentiras e descaso. Esperei uma ligação. Uma explicação. Uma explicação que, eu já sei, não existe. Sinto-me usada e a culpa me consome. Como saber de antemão que se está de posse de uma nota de 3 reais? Como? Ele é um ludibriador, eu deveria ter percebido, eu deveria saber. Estou arrasada, Glória. Envergonhada. Essa é a minha ressaca após a esbórnia da última noite. Caí no conto do canalha. Devo ser a única com tamanha cegueira.”

Fiquei em silêncio durante os intensos 120 minutos desse monólogo. Só me movi para pedir mais cerveja e pagar a conta.

Levei a minha amiga para sua casa e antes de partir a olhei: embriagada, sentimentalmente ferida e absorta num sono pesado. Ao observá-la lamentei, mais que tudo, a sua última frase. A verdade é que ela não é a única a acometer-se dessa cegueira. E, provavelmente, essa talvez não seja a sua última ressaca.

Ele me olha, mantenho a pose. Não é possível que eu esteja afim desse cara, o Thiago não, ele é um babaca! Foco Lana, ele está falando alguma coisa…

– Oi? – pergunto com cara de quem acabou de voltar para a Terra.

– Estou perguntando se você quer tomar um café comigo, você não parou um minuto hoje.

Droga, ele é fofo, caras fofos são meu ponto fraco!

– Não, obrigada, marquei com uma amiga daqui a 10 minutos.

Eu menti? Meu Deus, por que eu menti? Mas estou certa, não quero me decepcionar mais uma vez.

Se bem que da última vez a culpa foi minha, inventei uma desculpa das bem esfarrapadas para não sair mais com o Léo só porque não aguentava mais aquele blá blá blá do trabalho, mas como não colou tive que parar de responder as mensagens dele. Também, tinha acabado de sair de um semi-relacionamento com o Otávio, aquele trouxa que me trocou pela Márcia depois que… depois que… droga, depois que eu contei que tinha traído ele no nosso primeiro mês de semi-namoro. Com quem foi mesmo? Ah! Vinicius, é, não tinha como, não me arrependo nem um pouco, de longe o cara mais gostoso que eu já peguei! Foi engraçado aquele dia, escondíamos de todo mundo e na saída do restaurante encontro com o Rafa primo do meu atual rolo, o Biel.

Que ele não leia meus pensamentos, mas “eu ia hein”. Ok, entendido! No final das contas somos todos canalhas, enfim, chega desse turbilhão de pensamentos, será que ainda alcanço o Thi para o café?

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