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Dilma
Quantas vezes você ao menos recebeu, além de possivelmente ter compartilhado, memes de Nestor Cerveró¹ pelas redes sociais? O progresso da operação Lava Jato² tornou sua imagem popular e a deformação que possui nos olhos – provavelmente em razão de uma doença chamada ptose³ – virou tema de ácidos comentários. Cerveró, diretor da área Internacional da Petrobrás, foi condenado a 12 anos de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, sem meias voltas, ele é um bandido de colarinho branco.
A minha dúvida consiste em: este fato nos qualifica a zombar de sua doença – ou você acha que não existem outras pessoas que sofrem da mesma patologia?
Não apenas essa situação me intriga. Outro dia, a revista Época publicou um artigo (que logo saiu do ar) sobre a falta de erotismo da nossa presidente. Intitulado como Dilma e o Sexo4, esse amontoado de lixo possuía trechos como:
“Não a conheço pessoalmente, nem sei de ninguém que a viu nua, mas é bem provável que sua sexualidade tenha sido subtraída há pelo menos uma década”;
“Será que Dilma devaneia, sente falta de alguém para preencher a solidão que o poder provoca em noites insones?”;
“Dilma usa um uniforme que nubla sua sexualidade (…), tornou-a uma mulher assexuada”.
Esse tipo de afronta é a parte gourmet do posicionamento geral, a história dos adesivos na entrada do tanque de combustível dos carros e os comentários cotidianos de “falta um homem pra esta incompetente”, são muito mais agressivos.
Mas, por que a ineficiência profissional de alguém nos faz permissivos diante de uma amostra de discriminação – ou você já viu coisas do tipo sobre qualquer um dos homens do planalto?
Tornou-se uma regra atrelar mensagens de intolerância a uma situação cômica e fingir que não há violência. Perceba, não existe preconceito direcionado. Se você acredita que deficiência física é motivo de chacota quando possui um alvo específico, então acredita que assim o é em todas as direções, só que, em silêncio. Divergências políticas, econômicas e sociais se dão por seus próprios cenários, usá-las como justificativa para ataques pessoais só retroalimenta a cultura de desacato em que vivemos.
Não podemos ser condescendentes à agressão, mesmo quando aplicada a entes não queridos, ser relativista neste aspecto nos faz viver sob a espera de algo que nos dê jurisprudência para o próximo ataque. O meu diagnóstico aos que se apropriam desta débil estratégia é que carregam a pior das deficiências – o prazer pelo desrespeito.
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¹Nestor Cerveró – Nestor Cuñat Cerveró, mais conhecido como Nestor Cerveró (ca. 1950), é um economista e exerceu vários cargos de direção na Petrobras entre 1975 e 2014.
Ver mais em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nestor_Cerver%C3%B3
²Operação Lava Jato – A Operação Lava Jato é a maior investigação sobre corrupção conduzida até hoje no Brasil. Ela começou investigando uma rede de doleiros que atuavam em vários Estados e descobriu a existência de um vasto esquema de corrupção na Petrobras.
Ver mais em: http://arte.folha.uol.com.br/poder/operacao-lava-jato/
³Ptose palpebral – é a queda da pálpebra superior, podendo ser de origem congênita ou adquirida. O normal é que a pálpebra superior cubra apenas de 1 a 2 mm da porção superior da córnea. A queda ouptose da pálpebra, além do comprometimento estético, pode diminuir o campo de visão.
Ver mais em: http://www.saudeocular.com.br/ptose-palpebral/
4Dilma e o Sexo (Época, 20/08/2015) – o texto foi retirado do ar, mas pode ser lido através deste link: http://naofo.de/6quf
Confesso, o hino nacional me emociona. Quando ainda estava no colégio, nos reuníamos diariamente em direção à bandeira para entoá-lo com a mão no peito. Lembro-me também que no auge da minha fase atleta, seu timbre abria nossos jogos ou coroava o resultado. Bom, não sei exatamente o que me deu sabor para trovar essa mesma letra manjada, mas para mim, cada vez que o ouço é diferente.
Não foram os hinos que me deram a clareza do país em que eu vivo, mas sim, as viagens que fiz desde muito jovem com meus pais e me deparei com a pobreza; as manchetes nos veículos de notícia, que ora camuflavam as verdades, ora maquiavam mentiras; e, por fim, o povo, e considero como povo desde os executivos que pagam um carro popular de impostos todos os meses até os que não pagam nada e passam fome todos os dias. Afinal, são vítimas do mesmo algoz: a má administração pública.
Deste modo, entendi que o que compõe o Brasil está aquém de um conjunto de belezas naturais e toda essa “baboseira” de país tropical. Percebi que o Brasil é um complexo de diferença, desigualdade e ignorância. É claro que essa conclusão é trivial e algumas pessoas veem nessas características ótimas oportunidades de praticarem o autobenefício, assim, nos tornamos uma pátria historicamente saqueada em todas as direções.
Quando as pessoas decidiram ir às ruas, acreditei que surgiria outra nuance da face brasileira, talvez uma menos separatista que aquela exposta no resultado das últimas eleições ou uma menos ingênua que nos movimentos de junho de 2013. Uma com a simples preocupação de ajudar o país, de resgatar a economia, de reduzir desigualdades, e que estivesse realmente empenhada em transformar esse projeto de fezes que vivemos em uma DEMOCRACIA mais justa. Mas, na contramão de tudo, assisti alguns dizeres e pedidos, sim foram PEDIDOS, de intervenção militar!
Isso é mais que um acesso de ignorância, é um carnaval inteiro de burrice!
Duas coisas me preocupam nesse levante: a primeira está relacionada às diversas colocações que observei sobre posicionamento político. A minha leitura é que na maioria das vezes existe um desejo de catastrofismo disfarçado de crítica solucionadora, uma necessidade de encontrar algo que corrobore a própria razão e um contínuo exercício de apontar mais erros do que saídas. A segunda é que toda essa energia se torne obsoleta por não termos clareza do que queremos e das consequências que podem surgir do nosso clamor. OBSOLETO! Este não será o cenário de um gigante adormecido, embriagado ou qualquer outra coisa, mas sim a confirmação de uma colossal INCOMPETÊNCIA!
Posso até estar errada, mas não gosto de mensagens separatistas, não fui apresentada ao governante dos sonhos que aparecerá após o impeachment e ainda não me ficou clara que parte da liberdade de expressão está tão ruim para MANIFESTANTES!
De quem é a voz que estamos ecoando? Nessa marcha pelo Brasil, será que realmente entendemos que entoar o hino nacional em uníssono é falar por si próprio e por todos os outros? Existe um viés de identidade nesse processo e precisamos reconhecer um fato: lutar pelo país é enxergá-lo sem fronteiras, seja pra terra ou seja pra gente.
Ultimamente, nas redes sociais e sites de entretenimento e cotidiano, as mais diversas listas de dicas são as campeãs de leitura e acesso. Listas que vão desde receitas de sucesso profissional (“10 maiores segredos de um executivo de sucesso”) até segredos para um bom casamento (“5 dicas para um casamento aceso”).
Que tal construirmos uma lista mais político-econômica sobre a realidade do nosso Brasil, neste momento tão conturbado de incertezas econômicas e políticas?
Um artigo recente publicado no jornal britânico “Financial Times” apontou vários fatores que podem contribuir para que Dilma não consiga terminar seu segundo mandato. Lendo esse artigo, inicio aqui uma lista intitulada “Os ‘N’ motivos para a volta das manifestações públicas no Brasil”. E desde já, peço sua contribuição, leitor(a) do Solteirar, para ampliar esta nossa lista. Certamente você tem muitos outros motivos além dos elencados abaixo, ajudando, portanto, a engordar esse rol de aspectos que nos preocupa ultimamente.
– Recessão econômica em 2015;
– Aumento da inflação;
– Queda da confiança do consumidor;
– Crise da água;
– Aumento do desemprego;
– Possíveis apagões de energia;
– Queda da confiança do investidor;
– Corrupção (vide Operação Lava Jato);
– Falta de credibilidade no Governo;
– Câmbio passando de R$3,00;
– Falta de apoio no Congresso;
– Inabilidade nas relações internacionais;
– Estreito relacionamento e convergência nas decisões com países latinos ditatoriais.
Ainda não há razões constitucionais para um Impeachment e sabemos o alto custo que o país pode ter se isso ocorrer, mas as manifestações são formas legítimas e democráticas de expressar nosso descontentamento.
E você, tem algum outro motivo para ir às ruas e acrescentar nesta lista?
Desde que se iniciaram os horários partidários ficou clara uma coisa: não entendemos política. E não porque não sabemos o Manifesto Comunista de trás para frente ou porque pouco nos dedicamos à macroeconomia. O problema é a dificuldade intrínseca que temos – população e políticos – para PENSAR as coisas COMPLEXAS de forma COMPLEXA.
Para os pleitos aquém da presidência, como se dotados de uma sutil malandragem, votamos de maneira completamente estúpida: sem critério, sem análise, sem saber a atuação de cada esfera. O foco no 1º turno foi destinado para presidenciáveis eloquentes em ludibriar reformas ou com habilidade extrema em escarrar nas nossas fuças discursos politicamente primários. Consequentemente, tropeçamos em um 2º turno com a certeza de que, fosse quem fosse, estaríamos elegendo alguém que não nos representa.
Findos os capítulos da novela das margens de erro, não nos consolamos! Mas, sim, disparamos ideias separatistas e xenófobas, esquecendo o grau de exploração que AMBOS vivemos TODOS OS DIAS quando somos usurpados pelas diversas cúpulas de poder político e econômico a que estamos submetidos.
E, das discussões políticas: li discursos inflamados na defesa de um candidato; vi críticas ferrenhas às opiniões opostas e a quem não tem opinião; vi desejos de expatriação; vi tristeza e chacota. Por favor, não sejamos mais ridículos! Se nós honramos nosso esforço diário e exigimos uma qualidade ímpar nos serviços que prestamos e daqueles que terceiros nos prestam, sabíamos que não havia BONS candidatos de verdade! A crise política aqui é ser um povo OBRIGADO a votar e não ter opções dignas! Todos nós passamos por semanas de terapia frente ao espelho para convencermo-nos de que vamos optar pelo “menos pior”.
Apesar de todo o blá, blá, blá veiculado, não houve um só argumento soberano, o que fizemos foi encontrar uma desculpa que nos movesse em direção a algo que nebulosamente honrasse qualquer coisa a que dedicamos esperança. Abaixem esses dedos imponentes uns ao outros, ergam a cabeça, vão às ruas! Quando há 52% de escolha está claro que há 48% de desaprovação, a mensagem está dita! Cessem essa transferência de culpa, porque se tem uma coisa que TODO mundo deseja é um amanhã melhor – seja por uma visão altruísta ou por puro egoísmo – e, apesar dos pesares, o que se busca incessantemente é algo que dê suporte às nossas utopias cotidianas.
Somos agentes e sobreviventes de pequenas corrupções diárias e, agora, feridos pelos resultados das urnas. Vamos parar com essas lágrimas hipócritas, afinal, não é só o presidente quem tem que carregar a marca da mudança.