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Eu era uma garota solteira, que sonhava em casar e ter filhos, quando o conheci. Beto era um carioca lindo com sorriso largo. Moço bonito, divertido e generoso. Ele tinha um ótimo gosto para música e as boas coisas da vida.

Começamos o que poderíamos chamar de “amizade com vantagens”. Gostávamos de ficar juntos, curtíamos as mesmas coisas e o sexo era maravilhoso. Porém, o preconceito sempre rondava a relação, impedindo que ela fosse assumida como um namoro ou compromisso.

Ele me via como uma menina sapeca que seria incapaz de ter um relacionamento sério. De fato, era essa a imagem que eu queria passar para ele. Afinal, ele era separado e tinha uma filha. Eu não saberia administrar tal situação, por isso, não queria encorajá-lo.

Um dia, ele criou coragem e me perguntou se não deveríamos ter algo mais. Eu disse não. Inexplicavelmente, eu recusei algo que me fazia muito bem, em troca de uma imagem projetada de futuro. Eu ainda iria me casar, ter filhos e viver para sempre com o pai deles.

Comecei a namorar logo depois. Mesmo assim, ainda pensava no Beto e confesso que algumas vezes fazia comparações entre as lembranças dos melhores momentos com ele e a morna relação que eu tinha no namoro. Porém, meu namorado queria se casar, ter filhos e ter uma vida dentro dos padrões que eu sonhava.

Após seis meses de namoro, no dia do meu aniversário, recebi do Beto um contrato de relacionamento onde ele descrevia como seria o nosso “felizes para sempre”. Seríamos um casal com uma rotina perfeita, mas com todos os direitos individuais preservados. Uma série de situações maravilhosas que vivemos foi listada como regras de nosso relacionamento. Confesso que meu coração parecia querer sair do peito, e que fiquei muito propensa a aceitar. Porém, naquela noite, meu namorado fez uma linda surpresa em uma suíte master de um hotel de luxo que me impossibilitou de tomar qualquer decisão.

No dia seguinte lá estava eu, dividida novamente entre o casamento que sempre sonhei e os momentos felizes que eu tinha passado com o Beto. Meus medos e preconceitos me levaram a optar pelo que eu entendia ser a vida perfeita, que o Beto não poderia me dar, pois existia uma ex-mulher e uma filha.

Me casei e tive um filho. Porém, o felizes para sempre não durou mais de 6 anos. Hoje sou feliz sem o casamento que eu tanto sonhei e o meu medo é comprometer a minha liberdade, o meu relacionamento com meu filho e outras coisas que me fazem tão feliz.

Quem diria: hoje tenho ex-marido, tenho filho e não tenho namorado, nem perspectiva de algum romance.

Ainda tenho na memória os maravilhosos momentos que passei com o Beto, e quando me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse aceitado o contrato de relacionamento, penso que talvez as memórias maravilhosas só existam pelo fato de nunca termos dividido responsabilidades, nunca termos vivido a rotina do lar e nunca termos enfrentado nenhum problema juntos.

Será mesmo que perdi alguma coisa? Será que desperdicei uma oportunidade?
Talvez, mas aprendi a lição de não trocar a felicidade por uma fantasia. Não há como alterar o passado e as escolhas que fiz, podem ter me causado algumas dores, mas também me trouxeram ao meu atual patamar de felicidade, que é muito real e do qual não abro mão.

Abro os olhos e vejo uma criaturinha olhando para mim. Quero ter alguma reação, mas meu corpo não me permite, os olhos insistem em não ficar abertos e sinto uma vontade louca de virar e continuar dormindo. Mas, enfim, a criaturinha tem fome. Levanto-me cambaleando e vou até a cozinha preparar a mamadeira. Pronto, ele se deitou no sofá e coloquei um daqueles videozinhos infernais que toda criança gosta. Cobri-o com um cobertorzinho e voltei para cama, quem sabe durante o tempo em que ele toma o leite posso me deliciar mais alguns minutinhos embaixo do edredom…

Minha mente não me deixa mais dormir, estou pensando em tudo que preciso fazer hoje. É tanta coisa que dá vontade de desistir.  Respiro fundo e começo a planejar meu dia. Neste momento me lembro da minha amiga Spagofreda.  Ela deve estar lá, dormindo tranquila e quando ela acordar, poderá tomar seu café,  seu banho, pensar nos seus afazeres sem ninguém para atrapalhá-la. Como deve ser bom isso. Mas, será bom mesmo ser sozinha? Ou será bom mesmo ter essas companhias todos os dias da minha vida? Dúvida cruel!

Uma roncada súbita me tira dos meus pensamentos. Levanto rápido, afinal já estou atrasada como sempre.

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“Vi um parto pela primeira vez com sete anos de idade e, não me pergunte como, soube naquele momento que não iria ser mãe. O que me ficou vago durante os anos seguintes foi a persistente ideia das pessoas quererem profetizar meus filhos nunca nascidos.” A frase não é minha, mas me representa com uma quase perfeição. O único desvio que lhe acomete é que eu não precisei de sete anos para descobrir minha incapacidade maternal.

Essas palavras são de autoria de um alguém que ultrapassa a marca de meio século de vida, tendo gasto vinte biênios entre trepadas casuais e promessas matrimoniais, o que, na média, lhe rendeu dois abortos.

Essa criatura, com a alma merecidamente excomungada das entranhas religiosas, acampa sob a cobertura de um prédio instalado em um dos melhores pedaços de terra deste globo. A desgraça de seus dias se deu quando, por ventura, quis o destino entregar seu corpo à tutela de um algoz, que para seu azar não conseguiu lhe arrancar a alma. Quando sentiu a vida ainda pulsante em si, buscou, internamente, algo que ainda estivesse inteiro, nada encontrou, mas tomou conhecimento de haver em seu ventre um rebento. Agarrou-se aos fatos e tragou sua vergonha: lá estava na justiça a parir a sua dor. Anos depois, outro feto se instalara em seu ventre. Este, que vindo de forma diferente, possuía, no entanto, a mesma sorte: não havia nada maternal naquele espírito. Respirou fundo e decidiu com um corte latente em sua mesquinhez: lá se foi parir o seu egoísmo para além da fronteira.

Sobre como se dão os sentidos das coisas há algo que jamais saberemos: o significado de uma gravidez alojada na singularidade de uma mulher. Acostumamos-nos tanto a encarar a prenhez da ótica do natural que nos distanciamos da complexidade que ela encerra para além do pesadelo de fraldas sujas.

O passo seguinte à confirmação de uma gravidez é sempre o início do caos. Porque assumir um filho é a tradução de um futuro de alegrias, desilusões e privações – sem saber a combinação exata desses fatores. Dar à luz e se abdicar da responsabilidade de gerir um futuro ao broto não desfaz a cicatriz de covardia e de incapacidade formada no espírito. E, por fim, no extremo da negação, expulsar o feto de seu casulo natural para o além-desconhecido deixa no mínimo a marca da violência cirúrgica, e quando isso não basta, ficam a carne e seu último suspiro como mero detalhe de um óbito cotidiano.

A verdade é que a oposição à descriminalização do aborto não traduz o verdadeiro resultado advindo dessa espécie de encarceramento biológico. Criminalizar o ato só nos torna mais cegos à questão fundamental: a vida – inclusive das mulheres. A impressão que vem sendo deixada é a de uma solução mágica inscrita no código penal, mas, o fato é que as rés morrem antes de qualquer julgamento e em condições execráveis, porque o aborto é um episódio corriqueiro nesse complexo social de ilegalidades! Nenhuma pessoa que é a favor da descriminalização do aborto é a favor dele ao rigor do ato. O que se quer apenas é o direito legitimado do corpo feminino expressar sua liberdade individual de escolhas. E a manifestação contra abortamentos está na transmissão de medidas educativas – em todas as suas formas – e na máxima do gozo de um sistema de saúde de excelência.

Precisamos de fóruns que nos deixem implorar por um estado laico que represente a todos. Precisamos de espaço para dar um basta à saúde clandestina que extorque. Precisamos parar de criar mais vítimas pobres dessa corja social. Precisamos parar de fugir, as coisas não estão funcionando, precisamos falar!

Obs: Texto inspirado na campanha da Revista TPM #precisamosfalarsobreaborto: http://revistatpm.uol.com.br/reportagens/148/precisamos-falar-sobre-aborto.html. Confira e participe!

É impressionante como ainda se rotula a mulher solteira como uma pessoa sozinha e coitada. Espanta-me a confusão de conceitos de quem não consegue assimilar a diferença entre pessoa não casada (solteira) e pessoa solitária (sozinha).

Ser solteira não implica em ser uma pessoa incapaz de se relacionar, ou seja, nem toda solteira é destinada à solidão, assim como nem toda pessoa solitária é solteira. Dizer que solteira é sinônimo de mulher sozinha é ignorar que existem familiares e amigos que podem completar a felicidade e as relações da pessoa.

Houve um tempo em que a mulher só saía da casa dos pais acompanhada de um marido, e dele iria depender de todas as formas: emocionalmente, juridicamente e financeiramente. Era inaceitável uma mulher morar sozinha ou ter uma renda maior que alguns homens, e quem diria, ter direito a sexo casual. Sua educação era focada na constituição de uma família e na educação dos filhos, e nem estamos falando de um passado tão remoto assim… Quem não se lembra de quando a mulher usava o CPF do marido?

Esse tempo passou e parte da sociedade ainda não assimilou a mudança. Ainda não se consegue aceitar que uma mulher pode ter a companhia masculina por uma noite, ou várias, sem querer um compromisso. Para alguns, ainda é inadmissível que a mulher não dependa do macho dominante para ser feliz.

Outro dia, ouvi o desabafo de duas amigas solteiras: “Só quero alguém para dividir o balde de pipoca”, disse uma delas ao se referir à sua amizade colorida com quem assistia filmes no sofá, mas com quem não precisava dividir problemas. “Não preciso de um sócio para a minha vida”, disse a outra após receber a proposta de um namoradinho para comprarem juntos um apartamento só para investimento. O que elas têm em comum? Elas não precisam de um homem para dizer que não estão sozinhas, para conseguir ter um patrimônio ou para dividir problemas. Querem pessoas que estejam ao seu lado para bons momentos, já que para o resto, existem planejamento financeiro e terapia.

Por vezes, ser solteira é mesmo uma opção definitiva, enquanto por outras, ser solteira é uma fase em busca do grande companheiro para a vida toda. De qualquer forma, estar solteira é poder exercitar a liberdade de escolha e não estar atada às decisões mútuas do casamento.

Seja qual for o seu estilo, o que importa é viver intensamente as relações e os momentos da sua vida de solteira e acima de tudo, se curtir. Afinal, quem resiste à companhia de uma pessoa confiante e divertida?

Não. Definitivamente não é ético falar sobre casos clínicos. É por isso que vou apenas divagar sobre os devaneios de uma amiga, aqui denominada Norah.

“Em uma festa, além dos habituais figurantes, existem dois importantes estranhos, sendo um deles a Norah. Estão naquela cidade a passeio, e na verdade, não pertencem a nada. Eles se olham, se conhecem e, porque assim designa o desejo, dormem juntos. Com relação ao tempo, conte-se, tratam-se apenas de uma madrugada e uma manhã. Nada mais. Os caminhos dos estranhos são diferentes, e no dia seguinte, ele, carinhosamente, parte. Não deixa nenhum rastro além de seu primeiro nome, mas isso é informação suficiente para que Norah consiga um meio de contatá-lo.

Passados os flagelos por ter iniciado a conversa, se dão as torturas sobre o tardar da resposta. Até este ponto não há surpresa, assiste-se a um típico caso de ansiedade. No entanto, Norah consegue listar razões que justifiquem o absentismo do estranho. Dentre todas, uma lhe parece mais óbvia. Ao que parece, aquele estranho, envolto de sua sedução, ensinara-lhe na manhã em que estiveram juntos, uma espécie de teoria do monopólio, que alude a importância de Norah não ser objeto usufruto de outros homens . Se naquelas terras a ele havia se entregado, o aconselhável seria que assim o fosse até o fim da temporada que ali estivessem. [Diagnostique-se aqui uma síndrome de estupidez crônica].

O fato perturbador dessa história é que Norah não se opõe à ideia. Não se ofende. Não grita. Não protesta. Norah assente. E, uma vez tendo flertado com outrem nos demais dias que seguiram (sem qualquer intimidade, diga-se de passagem), Norah vê a razão para o desprezo do estranho. Ela nem sabe se o estranho tomou conhecimento de sua troca de olhares. Mas, o que fazer se envolveu-se numa vigilância inexistente depois daquela recomendação matutina. E não é aqui que se dá a patologia, mas sim, quando se permitiu ser o objeto das demências de um estranho.”

Como num surto de confissão, tomei conhecimento desta história. O que me intriga não é a ausência de despedida do estranho no primeiro momento e nem mesmo a solicitação gentil de exclusividade. O ponto que realmente incita minha crise é a subordinação à ideia. Norah dedicou-se durante dias a duas coisas: contatar o estranho e ser alguém exemplar aos seus olhos. Para os mais românticos que veem na paixão a justificativa de insanidades, sinto muito, vamos aos fatos: Norah não está apaixonada. Ela apenas aprisionou-se pelo medo de uma classificação de conduta libertina por agir de maneira contrária às alusões do estranho.

Isento-me de julgar as várias formas e meios de se relacionar com pessoas diferentes num curto espaço de tempo. Não se sabe se Norah deve vislumbrar outros romances ou não. O eixo principal deste discurso é a defesa da não abdicação de um direito à escolha, já estabelecido. Afinal, é impossível saber por que está na pauta de uma manhã de carícias o seu horizonte de parceiros. Falamos aqui de alguém que naquele momento existia há exatas 10 horas na vida de Norah. E para dimensionar a falta de importância, deixo claro que esta já passa das 350 mil horas vividas. Sim, este estranho não chega perto de ter participado de 1% da vida de Norah e, no entanto, se impõe como um pequeno ditador.

O meio em que vivemos está doutrinado, via de regra, a apartar mulheres entre freiras e meretrizes. E apesar de não acreditar em rótulos, creio que existam muitos mais modelos de vida entre esses dois extremos. Sem preocupações, a sua própria essência responderá a isso naturalmente, tendendo para alguma das pontas ou delirando num constante movimento oscilatório entre elas. O caso de Norah me faz refletir justamente sobre os entraves que se opõem às nossas genuínas expressões de liberdade sexual. Quantos estranhos ainda se confortam em nossas camas e por divertidos 20 minutos decidem se apossar da nossa capacidade de decisão? Ou, muitas vezes, simplesmente anulá-las?

Brindo a todos os estranhos! Aos que já passaram e aos que estão por vir. O que se faz necessário, de fato, é que deixemos bem claro o que pode ser pauta entre nós: a diversão mútua e a amizade irrestrita. Sem mandamentos de moralidade. Sem subordinações.

A história que aqui retrato não é do século passado. Estamos a menos de sessenta dias do ocorrido. Saibam então, que ainda nos resta reforçar a linha que separa as nossas escolhas individuais de qualquer outro tipo de relacionamento, para que além das nossas diferenças (ou semelhanças) de corpos, nossas almas se respeitem como iguais.

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