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frustração

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Eu passava dos 20 anos e a minha idealização sobre a primeira vez já tinha evoluído de uma visão romântica dos fatos para uma simples expectativa de prazer.

Escolher um parceiro não estava nas minhas prioridades, mas quando ele surgiu, viramos amantes após um longo relacionamento de, aproximadamente, vinte e três horas. A memória desta noite me remete a um hálito de cerveja quente, úmido e precedente a uma gratuita amostra de egoísmo. A atividade passou por curtas etapas preliminares e, de repente, findou-se. Quando o vi se retirar regozijado de cima do meu corpo acreditei que ganharia a minha parte do desfrute, mas não. Ele sorriu, virou e dormiu.

Passei um tempo revivendo cada detalhe daquela cena, tentando achar o átimo do meu erro. Depois de muitas reprises percebi que estava sozinha naquele quarto. Ele cedeu seu corpo para uso, usou o meu e se rendeu ao cansaço. Não estava na sua lista itens de reciprocidade. A frustração me consumia, mas não queria drama sobre isso. Optei por abandonar a minha lembrança e passei a questionar-me sobre as próximas vezes. O que mais elas me trariam?

Nunca tive coragem de abrir tais detalhes a terceiros, mas muitas vezes ouvi histórias parecidas de outras mulheres, que por sinal já estavam  além das suas relações primárias. Uma análise sobre esses episódios me fez acreditar que precisamos evoluir para um estado de maior consciência sobre o nosso corpo enquanto entidade feminina. Algumas exigências mínimas precisam ser cumpridas para nos manterem na cama dispostas ao próximo passo. Se não há erotismo, se não há troca, chegar ao fim vira um item da lista de obrigações. Da minha parte, vou embora e me poupo dessa tortura.

A patética estreia  sexual não me extirpou o desejo e nem a crença que a satisfação mútua é a premissa máxima do sexo, mas sim, me trouxe a lucidez do que eu preciso e interpreto como prazer. E, sinceramente, eu preciso de pele, preciso de tato e preciso estar com alguém disposto a me sentir e a tentar captar as entrelinhas do meu desejo.

Você já foi até o supermercado, olhou uma fruta maravilhosa e ficou com água na boca?

Então você cheira essa fruta, passa as mãos nela, sente sua textura, ainda dá uma lambidinha nela e sente um delicioso sabor.

Você compra a fruta e a leva para casa e, quando a morde, tem uma infeliz surpresa. Ela está podre. Isso mesmo. Ela está podre e você não pode consumi-la. É frustrante.

Há alguns anos eu e uma amiga descobrimos esta frustração de uma forma um tanto inusitada. Estávamos em uma festa, super animadas, quando dois bonitões se aproximaram.
Abordagem direta, perfeita, beijos maravilhosos, caras divertidos.

A festa foi ótima, dançamos, nos pegamos, bebemos e comemoramos muito. Muito mesmo.

A festa acabou para alguns, mas para nós a promessa de texturas, cheiros e sabores direcionava a uma noite maravilhosa e de múltiplos orgasmos.

Seguimos para a casa da minha amiga, cada dupla em um carro e chegamos bem animados. Bebemos mais um pouquinho e, antes que tudo acontecesse na sala, cada dupla sorrateiramente ocupou um quarto.

Aí começou a minha frustração. O cara, que não aparentava tão bêbado, fez várias tentativas de se manter firme e ereto, porém nada além de preliminares. Elogios, rala e rola, mas a mordida final que é o bom, nada! Segundo ele, a situação era tão inesperada para ele que estava inibido, além de estar cansado e ter bebido muito. A fruta estava podre.

Mas não perdendo a animação e rindo muito, voltamos para sala e minha amiga, que já estava de volta, nos ofereceu sorvete. Isso mesmo, agora éramos quatro comportados indivíduos tomando sorvete na madrugada.

Na hora da despedida, a maior surpresa: minha amiga relatou que tinha passado exatamente pela mesma situação que eu no quarto ao lado. Frustração total, principalmente porque existiam outras frutas a serem escolhidas, talvez com aparência menos atrativa ou com menos aroma, mas provavelmente suculentas e possíveis de serem digeridas até o fim.

Aprendemos com o exercício desta frustração que a frase “As aparências enganam” tem uma sabedoria que não deve ser ignorada. Nunca contamos para ninguém esta história, nem mesmo nas mesas de bares com amigas. Somente nós duas rimos muito quando lembramos o fato, e continuamos fazendo nossas escolhas de frutas por todos esses anos. Ora acertando, ora errando, mas sempre exercitando.

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