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impeachment
Confesso, o hino nacional me emociona. Quando ainda estava no colégio, nos reuníamos diariamente em direção à bandeira para entoá-lo com a mão no peito. Lembro-me também que no auge da minha fase atleta, seu timbre abria nossos jogos ou coroava o resultado. Bom, não sei exatamente o que me deu sabor para trovar essa mesma letra manjada, mas para mim, cada vez que o ouço é diferente.
Não foram os hinos que me deram a clareza do país em que eu vivo, mas sim, as viagens que fiz desde muito jovem com meus pais e me deparei com a pobreza; as manchetes nos veículos de notícia, que ora camuflavam as verdades, ora maquiavam mentiras; e, por fim, o povo, e considero como povo desde os executivos que pagam um carro popular de impostos todos os meses até os que não pagam nada e passam fome todos os dias. Afinal, são vítimas do mesmo algoz: a má administração pública.
Deste modo, entendi que o que compõe o Brasil está aquém de um conjunto de belezas naturais e toda essa “baboseira” de país tropical. Percebi que o Brasil é um complexo de diferença, desigualdade e ignorância. É claro que essa conclusão é trivial e algumas pessoas veem nessas características ótimas oportunidades de praticarem o autobenefício, assim, nos tornamos uma pátria historicamente saqueada em todas as direções.
Quando as pessoas decidiram ir às ruas, acreditei que surgiria outra nuance da face brasileira, talvez uma menos separatista que aquela exposta no resultado das últimas eleições ou uma menos ingênua que nos movimentos de junho de 2013. Uma com a simples preocupação de ajudar o país, de resgatar a economia, de reduzir desigualdades, e que estivesse realmente empenhada em transformar esse projeto de fezes que vivemos em uma DEMOCRACIA mais justa. Mas, na contramão de tudo, assisti alguns dizeres e pedidos, sim foram PEDIDOS, de intervenção militar!
Isso é mais que um acesso de ignorância, é um carnaval inteiro de burrice!
Duas coisas me preocupam nesse levante: a primeira está relacionada às diversas colocações que observei sobre posicionamento político. A minha leitura é que na maioria das vezes existe um desejo de catastrofismo disfarçado de crítica solucionadora, uma necessidade de encontrar algo que corrobore a própria razão e um contínuo exercício de apontar mais erros do que saídas. A segunda é que toda essa energia se torne obsoleta por não termos clareza do que queremos e das consequências que podem surgir do nosso clamor. OBSOLETO! Este não será o cenário de um gigante adormecido, embriagado ou qualquer outra coisa, mas sim a confirmação de uma colossal INCOMPETÊNCIA!
Posso até estar errada, mas não gosto de mensagens separatistas, não fui apresentada ao governante dos sonhos que aparecerá após o impeachment e ainda não me ficou clara que parte da liberdade de expressão está tão ruim para MANIFESTANTES!
De quem é a voz que estamos ecoando? Nessa marcha pelo Brasil, será que realmente entendemos que entoar o hino nacional em uníssono é falar por si próprio e por todos os outros? Existe um viés de identidade nesse processo e precisamos reconhecer um fato: lutar pelo país é enxergá-lo sem fronteiras, seja pra terra ou seja pra gente.
Hoje, 15 de março de 2015, é um dia que pode entrar para a História. Mas será mesmo?
No ar, a mais leve brisa causa-nos um arrepio instigante com a iminência do despertar do gigante (especialmente depois do barulho das panelas no último domingo). Estamos à beira de uma das maiores manifestações públicas de que nossas ruas já foram palco? O povo (sim, ele mesmo!) será o protagonista de uma ruptura histórica ou tudo não passará de caos ao som de rumores infundados de esperança?
Mas pelo que mesmo iremos marchar, clamar e se revoltar nesta tarde?
Cresci acreditando nos ideais esquerdistas… Fui seduzida em minha juventude pela ideia do brilhante Norberto Bobbio de que liberdade e igualdade não seriam intrinsecamente contraditórias, mas compatíveis. Tanto que fui defensora do PT na primeira eleição do Lula. Fiz isso acreditando num Brasil onde todos seriam igualmente livres e livremente iguais.
Hoje, 15 de março de 2015, não acredito mais em esquerda, nem em direita. Essa polarização ideológica é tão pertinente para mim quanto a existência ou não do Papai Noel para um adolescente.
Minha trajetória rumo a tão estratosféricos patamares de ceticismo político abundantemente é explicada pela trajetória do PT no poder. Sua inépcia na condução das grandes questões que assombram o país, sua obsessão colossal em se perpetuar no poder a qualquer preço e, finalmente, a imundície com os maiores episódios de corrupção de que o mundo já teve conhecimento, realmente me levaram a ter nojo da política. Fui traída pelo PT, o fascista, coronelista e oportunista PT…
Depois de junho de 2013, depois da eleição presidencial mais caluniosa e beligerante desde o estabelecimento do Estado Democrático de Direito, depois das inúmeras crises deflagradas pela incompetência e pelo ímpeto ilimitado desse partido em usar todos os setores e recursos da administração pública a seu bel-prazer e, principalmente, depois desse mesmo partido ter plantado o ódio e ter vendido sua alma ao diabo, quem sabe hoje, 15 de março de 2015, o diabo venha cobrar o seu preço.
O mais espantoso em tudo isso é que não sou a favor do impeachment. Afinal de contas, o que ele resolveria? Nada. Pelo contrário, ele empoderaria um partido ainda mais asqueroso: o PMDB, o mais fisiológico dos partidos fisiológicos.
Ademais, ainda não houve nenhuma prova de que a presidente sabia dos esquemas de corrupção na Petrobras. E, por mais incompetente que tenha se provado ao presidir o conselho da empresa e também ao liderar o Ministério de Minas e Energia – enfim, sua (ir)responsabilidade é inequívoca -, ninguém provou que ela estava envolvida ou que tenha se beneficiado do esquema de corrupção. Pelo menos não ainda.
Mas há tanto pelo que lutar: a reforma política séria e efetiva (não aquela defendida pelo asqueroso presidente do PMDB na Câmara, por mero “acaso” também citado nas investigações da Operação Lava Jato e orientado à despolitização crescente dos seus eleitores), a justiça com a punição dos criminosos que acabaram com a maior empresa do país e com nossa credibilidade para o mundo, a justiça pela identificação de todos os envolvidos no Petrolão, o fim do uso da máquina pública como manobra aos interesses de um partido, o fim de discursos e campanhas afrontadoramente mentirosas, enfim…
O fato é: hoje, 15 de março de 2015, EU PRECISO IR ÀS RUAS!
E não sou a única.
Ultimamente, nas redes sociais e sites de entretenimento e cotidiano, as mais diversas listas de dicas são as campeãs de leitura e acesso. Listas que vão desde receitas de sucesso profissional (“10 maiores segredos de um executivo de sucesso”) até segredos para um bom casamento (“5 dicas para um casamento aceso”).
Que tal construirmos uma lista mais político-econômica sobre a realidade do nosso Brasil, neste momento tão conturbado de incertezas econômicas e políticas?
Um artigo recente publicado no jornal britânico “Financial Times” apontou vários fatores que podem contribuir para que Dilma não consiga terminar seu segundo mandato. Lendo esse artigo, inicio aqui uma lista intitulada “Os ‘N’ motivos para a volta das manifestações públicas no Brasil”. E desde já, peço sua contribuição, leitor(a) do Solteirar, para ampliar esta nossa lista. Certamente você tem muitos outros motivos além dos elencados abaixo, ajudando, portanto, a engordar esse rol de aspectos que nos preocupa ultimamente.
– Recessão econômica em 2015;
– Aumento da inflação;
– Queda da confiança do consumidor;
– Crise da água;
– Aumento do desemprego;
– Possíveis apagões de energia;
– Queda da confiança do investidor;
– Corrupção (vide Operação Lava Jato);
– Falta de credibilidade no Governo;
– Câmbio passando de R$3,00;
– Falta de apoio no Congresso;
– Inabilidade nas relações internacionais;
– Estreito relacionamento e convergência nas decisões com países latinos ditatoriais.
Ainda não há razões constitucionais para um Impeachment e sabemos o alto custo que o país pode ter se isso ocorrer, mas as manifestações são formas legítimas e democráticas de expressar nosso descontentamento.
E você, tem algum outro motivo para ir às ruas e acrescentar nesta lista?
Tudo em vão. Passado pouco mais de 1 ano de uma das maiores manifestações não partidárias que já presenciei no país, chegamos ao fim. Triste fim. Domingo menor.
No último domingo, ainda que do outro lado do Atlântico, lá estava eu na expectativa. Em Katmandu, a exótica capital do Nepal, a internet de um hotel já meio decadente não pegava de modo algum. Apelei para o WhatsApp, onde os amigos iam me atualizando. De repente, com um pouco de sorte (ou, a essas alturas, azar) consegui acessar o Face. Nele me deparo com várias mensagens e manifestações de “luto”, ” vou sair do país” , “separação sul-sudeste já” e assim por diante.
Pronto. Acabou. Fim de papo. Eu não precisava mais lutar contra o login e senha para acessar a internet. Saber em qual estado o Aécio perdeu ou qual percentual de votos ele obteve era curiosidade menor para alguém já desiludida.
Lembrei-me da época do colegial, em que uma pequena manifestação, um tanto quanto desorganizada, surgia na Avenida Paulista na tentativa de promover a saída do então presidente Collor. O jovem promissor, que aos poucos foi mostrando sua cara de inexperiente, de corrupto e muito mal assessorado por PC, Zélia, Magri, Cabral e companhia. Mas aquelas manifestações de jovens caras pintadas já eram algo pós-fato. Collor já havia caído praticamente sozinho.
Após 20 anos, julguei que nós havíamos aprendido ao menos discernir um candidato com boa intenção de outra candidata atuando por um grupo manipulador e corrupto, bem como usuária do poder pelo poder; o poder per se. Mas, infelizmente, ainda somos um país pobre, mal instruído e com todas as mazelas de um país emergente para poder fazer tal discernimento.
De um lado, uma grande parte pobre que vive do assistencialismo e, de outro, uma classe média alta que quer o desenvolvimentismo, mas que é também uma classe egoísta e que ironicamente finge de vez em quando fazer algum tipo de assistencialismo. Esse último lado, muito provavelmente sou eu e é você, caro leitor. Uma classe pouco politizada e pouco participativa nas questões sóciopolíticas brasileiras. Achamos que agora a solução é mudar de país e basta.
Mas não. Não vamos sair do país. Agora, mais do que sempre, devemos ter clareza de que temos mais uma chance nessa década. Há ainda uma Petrobras e um doleiro – espero que esteja vivo – no calcanhar da dona presidenta.
E há uma palavra que aprendi naquela época do colegial com o Collor: impeachment.