Eu sempre quis ser mãe, desde que me conheço por gente. Meu mundo se voltava para minhas bonecas e bonecos, e sempre sonhei em ter meninos. Cresci procurando o príncipe encantado com as melhores características que um homem pode ter para ser o pai perfeito. O garanhão perfeito. Um homem bonito (afinal, quem quer filhos feios?), alto, culto, rico, de família tradicional, bem vestido, porte atlético, boas maneiras, que falasse muitas línguas e fosse viajado. Achei um que era tudo isso. Seria um pai perfeito para uma família perfeita. E por que não casar com um homem desses? Qualquer mulher pira! Ainda mais quando no primeiro jantar “romântico” ele te convida para ir a um restaurante da moda com o último modelo de carro esporte! Que loucura! Tinha ganhado a sorte grande! O marido perfeito, o pai perfeito, o príncipe perfeito, o Mr. Perfeito!
É claro que me casei com o Mr. Perfeito, mesmo tendo o mesmo diploma universitário dele e, diga-se de passagem, ganhando bem mais do que ele na época. Mas isso não importa. O fato era que precisava ter filhos com o Mr. Perfeito. E tive dois filhos com o Mr. Perfeito. Mas cadê a felicidade que sempre me prometiam nos contos de fada? Cadê o “happily ever after”? Não conseguia encontrar a tal felicidade, o tal “felizes para sempre”.
Aliás, quando a gente chega no sempre?
Desisti deste sonho. Olhava para os três e procurava neles a tal felicidade que me prometeram, mas não encontrava. Só encontrava uma dedicação sem fim, uma doação sem fim, boletos e mais boletos sem fim, e etc e etc, que toda mulher casada conhece. Achar o Mr. Perfeito não me trouxe felicidade, afinal, quem pode viver num conto de fadas? Suspeito que nem o Walt acreditava nisso, né?
Eu que já fui solteira, casada e hoje divorciada, acredito que não há diferença entre uma solteira e uma divorciada, pois ambas estão solteirando sem compromisso. Na minha opinião, o estado civil “divorciada” é desnecessário. Após a separação, a mulher deveria voltar a ser solteira e pronto.
Porém, existe uma diferença significativa na rotina e liberdade das mulheres com filhos, sejam elas casadas, divorciadas ou solteiras. O ideal seria uma substituição dos três estados civis por quatro classificações: casada, mãe casada, solteira e mãe solteira.
Embora eu conheça bem a diferença entre a rotina de mulher casada sem filhos e uma mãe casada, neste texto, vou explorar o meu estado atual: mãe solteira.
Começo ressaltando que frases de solteirice como: “Fazer o que quiser quando der vontade”, “Viver com a mínima rotina no cotidiano” ou “Sair com as amigas sempre que quiser” não fazem parte da realidade de uma mãe solteira.
Isso não significa que não seja delicioso ser mãe. Não dá para ver aquele gatinho na hora que te dá vontade, nem encontrar as amigas na balada todos os finais de semana, muito menos viver sem rotina. Porém, é possível viver de forma plena o papel de mãe, sem esquecer-se de ser mulher.
Divertir-se com os filhos é uma delícia. Eu sou mãe de menina e, quando estou com ela, vivo no mundo das princesas. Temos vários compromissos e uma vida bastante agitada e divertida. Isso faz com que as obrigações se tornem mais leves. Por outro lado, quando não estamos juntas, exerço plenamente minha solteirice.
O segredo para conciliar esses papéis é viver cada um deles intensamente. Quando estou no papel de mãe, chego a ignorar ligações que eu adoraria receber quando estou sozinha. Assim como quando estou solteirando não fico me culpando por estar me divertindo sem a presença dela, pois confio que ela está feliz onde estiver.
A fórmula é baseada em amor, respeito e sinceridade. Minha filha sabe que sempre pode contar comigo, assim como tem certeza do quanto eu a amo. Se vou sair e deixá-la com alguém, nunca minto que vou trabalhar ou algo assim, o que me permite não me sentir culpada.
E assim segue minha rotina de mãe solteira, “encontrando as amigas sempre que possível” e elas entendem isso perfeitamente. “Fazendo o que tenho vontade”, pois tenho vontade de brincar com minha filha quando estou com ela e de me divertir sozinha quando ela está ausente. E “vivendo com rotina”, mas de forma divertida.
Sendo assim, apesar de ter passado por alguns estados civis, tenho certeza que o estado civil mãe solteira é o que mais me faz feliz.
Convidada: Rita Rodrigues
Acabo de sair surpresa de uma reunião da escola. Colégio tradicional, católico.
Sábado ensolarado, levantei cedo, me arrumei e acordei as criaturas. Tinham me falado que a reunião era às 10h. Ainda bem que sempre desconfio e resolvi ligar para a escola. A reunião era às 9h e …. já eram 9h. Coloco as criaturas no carro e saio igual a uma doida, sem tomar o café da manhã com o qual já estava sonhando desde cedo. Lógico que sempre me irrito saindo da garagem, pois não consigo manobrar direito. Enfim, cheguei esbaforida no auditório cheio, com cara de quem foi na balada no dia anterior.
O professor de religião fala sobre família, valores, ajuda a comunidades carentes, enfim, aquele papo católico de escola católica. De repente, uma mãe se levanta: “Professor, antes do senhor continuar falando de valores de família, queria colocar uma coisa. Eu sou a mãe da Gabriela, ela tem 3 anos. Eu sou solteira e a adotei há 2 anos. Aqui vocês falam de família com pai, mãe e filhos, da história da sementinha e outras coisas. Só que lá em casa não tem nada disso. Ela não é minha sementinha. E sempre me pergunta cadê o pai dela e a única coisa que consigo responder é que quando achar um pai bem legal para ela, ela terá um. Como a escola irá tratar isso?”
Todos aplaudiram essa mulher corajosa. Sim, no meu ponto de vista ela é muito corajosa. Eu sempre tento disfarçar a não presença do pai nas minhas idas a escola. Afinal, o que poderão pensar de mim?
Para minha surpresa, o professor respondeu: ”Muito linda a sua pergunta.” Novos aplausos. “Aqui pregamos os valores de família, não importa como é essa família. Você e sua filha são uma família. Aqui tem famílias de todos os tipos, pai com filhos, mãe com filhos, mãe e pai com filhos, pai com filhos de outra mãe, mãe com filhos de outro pai, pai e pai com filhos, mãe e mãe com filhos. Toda formação é uma família. Respeitamos as diferenças. Respeitamos e valorizamos as diferentes visões de mundo.” Um pouco depois acrescentou algo maravilhoso para quem sempre procura o diferente e novas formas de ver o mundo. “Me assusta mais uma família que lê apenas um jornal do que uma família que não lê.” Novos aplausos.
Fiquei aliviada e muito emocionada. Acho que o mundo já começou a Solteirar!