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Pra quem ainda vive…

Perder alguém é como vagar em silêncio pelo desconhecido. É a saudade perpétua. É conhecer o rascunho do epitáfio. É ter fé no subjetivo mesmo que a dor se assemelhe a uma ferida na carne. É saber que o sofrimento, para além da ótica daquele que padece, não passa de um desconforto pessoal ao assistir a tristeza alheia.

O pesar exige disfarce, é preciso abandonar o véu do luto, ainda que não se tenha superado internamente a comoção do óbito. Existem as fotos, retratos e suas molduras, que retardam o desapego. Na verdade, esse alguém que se vai é, por vezes, uma imagem indissolúvel e quase indissociável daqueles que ficam. Mas, essa dor não pode ficar exposta. O luto tem um prazo de validade aos olhos de outrem.

Entenda, não há quem goste de lamúrias. Passada a missa de sétimo dia, você deverá ter se conformado com aquela ausência perene e se enveredará por mensagens otimistas de superação.

Mas como?

Parece uma conta simples. Você leva uma vida amando e vivendo na presença de um ser, mas, de repente, ele se vai e você precisa encaixotar todo esse histórico e sorrir. Não dá.

Alguns laços não se desfazem nem no túmulo, mas são silenciados pelo cotidiano.

Anualmente temos um dia de abertura para expressar essa melancolia sem incômodos e, de certa forma, se reencontrar com quem já se foi. Porque, na verdade, a morte não é barreira para quem pelo amor ainda vive.

Glória Feler
Glória Feler
Paulistana, 39 anos, psiquiatra – e escritora em colapso. Concubina de bons tragos, bons livros e homens (de todos os tipos). Não aprecia turismos, quando visita absorve. Paixões: cinema, jazz e mulheres. Escreve pelo contato. Ora para abraçar. Ora pra corromper.
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