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Natal? Como assim?

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– Poxa, Juliana, jura que você não quer passar em família? Você poderia tanto visitar a vovó. Você sabe, né? Esse pode ser o último Natal dela…

– Mas, Evinha, apareceu uma ótima promoção de passagem e todos os meus amigos vão fazer essa viagem. É uma oportunidade única. Natal tem todo ano e eu posso visitar a vovó antes de viajar e assim que eu voltar!

– Mas, mana, é Natal! É tempo de estar com a família! Amigos você já vê o ano inteiro. Desde que nós duas mudamos de cidade, quase não vemos nossa família direito…. É tão legal estar próximo deles!

– Eva, Natal não faz o menor sentido para mim! Além de não acreditar em Deus, não suporto a hipocrisia da “confraternização natalina”. Quer dizer que passo o ano inteiro afastado de alguém e só porque é Natal sou obrigada a tratá-lo como se fosse a pessoa que mais amo no mundo? Me poupe… Não, não, não! Não quero saber de Natal.

– Mas, Ju, como assim? Mesmo que você não acredite em Deus, veja como as pessoas refletem sobre a vida nesse período. É uma oportunidade no ano que dá a esperança que tudo pode recomeçar. Você mesma tem tanto para celebrar!

– Tenho mesmo, Eva. Mas eu reflito o ano todo. E acho que Natal é nada mais do que uma oportunidade comercial. As lojas aproveitam para vender os presentes a preços absurdos. As pessoas medem o amor pelo preço do presente que é recebido.

– Mana, cada um dá aquilo que pode. Se é apenar por um dia no ano que algumas pessoas conseguem ser amorosas e companheiras, é melhor do que dia nenhum. Cada um tem um tempo, a gente tem que respeitar.

– Pode até ser, Eva. Mas eu não gosto de Natal. E quero viajar. Já falei com o papai e a mamãe. Eles ficaram tristes, mas entenderam.

– Tá bem, Ju. Não insisto mais. Mas conta aí, então, da viagem…

Enquanto minha irmã relatava em detalhes todos os milhares de meios de transportes necessários para atingir todos os locais que ela queria conhecer com os amigos, me distraí pensando em como, por vezes, certas “verdades universais” se tornam marteladas sociais: eu que tanto luto por desconstruir crenças acerca do papel feminino na sociedade, estava forçando a minha irmã a exercer um papel social que ela não queria.

É… como sou acostumada a pensar sempre contrária aos paradigmas sociais, exerci papel curioso quando me vi favorável a um deles: tentativa de adequação da figura destoante. Por que minha resistência em aceitar que a Ju simplesmente não gosta de Natal? Qual é o problema? Será necessário tanto espanto cada vez que nos depararmos com uma crença diferente da tradicional?

Pois é… pelo visto, ainda, temos muito a refletir!

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