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A violência atroz que é o estupro, só entendida em sua plenitude pela sensibilidade feminina, repete-se logo após no exame médico exigido, obrigatoriamente sem que se tome banho, feito às vezes por outro homem, médico desconhecido. Depois, no interrogatório doloroso e difícil, sempre tendencioso e acusador. E o calvário, que se quer banir da alma, torna a vítima ré em cada procedimento. Pena máxima se caso vier a engravidar.

A sanha dos legisladores compara-se à do estuprador, que faz do corpo feminino mercadoria considerada reles e de uso a bem próprio dele. Não a respeita, considera ou protege. É só mais uma ocorrência banal. Como homens podem entender a dilaceração física, emocional e mental desse desastre?

E consideram ousadia manifestações que se coloquem contra essa lei que dificulta mais ainda a possibilidade de aborto, mesmo nesta situação ultrajante. Repetimos que ninguém aqui é a favor do aborto pura e simplesmente, mas que o aborto é uma decisão exclusiva da mulher. As consequências são peso seu.

Temos que nos manifestar e mandar mensagens de repúdio a estes políticos que usam termos civilizados, somente para esconder sua troglodita índole e seu atraso intelectual.

A mulher deve ser respeitada em suas necessidades e escolhas para poder sim tornar-se mãe em sua plenitude. Isto quando ela decidir que é a hora. Fora disto, é abuso e erro.

Temos de entender que estamos por conta própria nesta sociedade que só exige mais e mais de quem tanto já é oprimida. A diferença entre os gêneros é infamante.

Mulher, não se sinta insegura e lute com todas as possibilidades ao seu alcance para melhorar nossa situação atual e contra o Projeto de Lei 5069. Procuremos quem votou a favor desse retrocesso e não votemos neles nunca mais.

2015_11_30_HIPO Texto16 IMAGEM INTERNA - # Estuprada de novo

*Mais sobre o Projeto de Lei 5069 aqui:

 

Ilustração: Agradecimentos a Hovberg/ Martin Klimas.

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Tempos modernos. Grande avanço tecnológico, mas pouco, do comportamento humano. Para alguns e algumas o machismo arrefeceu. Não para as mais atentas ou desbravadoras. E pior, ele é exercido por mulheres também. Não é tema deliberadamente abordado. Não interessa para muitos.

Então, temos de tratar deste assunto. Ele afeta drasticamente nossa vida em todos os sentidos. Veremos aqui algumas de suas manifestações, só algumas… E superficialmente.

Quando uma mulher é estuprada, o “ser superior” acha-se no direito da posse. E não podemos dizer que só doentes mentais são estupradores. Isto é exemplo do machismo mais atroz. E o quadro é assustador e comum. Informe-se e resguarde-se.

Também a mulher que apanha ou é morta pelo simples fato dele se julgar na prerrogativa de decidir ou forçar o que ela não quer. E, estarreça-se, são 20 (vinte) mulheres mortas por dia no Brasil. Um assassinato a cada hora e meia. E quem divulga esses dados? Não interessa de novo. É melhor contar uma estória de príncipe encantado. As estatísticas de mulheres que apanham de companheiros são tão abaixo da realidade que só desavisadas acreditam nelas. E o que se tenta fazer para coibir é maquiagem. Lembra o ditado: “em briga de mulher não se mete a colher”. E grassa a violência!

Das tribunas legislativas ou religiosas levantam-se leis e acusações que punem, prendem, destroem mulheres que cometem aborto. Quem são eles? Deuses? São 250 mil mulheres que recorrem ao SUS para tratar as sequelas de procedimentos malfeitos ao ano em nosso país e, com certeza, só as mulheres desvalidas estão nessa estatística*. Elas são jogadas na fogueira da incompreensão, da tirania que homens e mulheres acham-se no direito de exercer. Crueldade. E ressalta-se: ninguém aqui é a favor do aborto. Ele é extremo, devastador, doloroso… Mas, se for opção escolhida pela infeliz, em vários sentidos, o que deveria haver seria apoio, e na maioria das vezes, chances intelectuais, culturais e econômicas, que com certeza ela não teve ou tem. A classe A ou B não entra neste rol. Seus recursos a liberam e não só o econômico, mas principalmente seu esclarecimento.

Na vida profissional, de novo, as estatísticas são bem reveladoras do poder do macho. A mulher é condenada até por ficar grávida, e isto coloca-a na rabeira de salários e oportunidades. Também é classificada como menos capaz pela esmagadora ala masculina e muitas até vestem a carapuça. Só que nós mulheres somos responsáveis por metade da força de trabalho no mundo, excluindo-se daí, nossa segunda jornada que é a doméstica, bem exaustiva. Poucos homens levantam do sofá, e nem têm vergonha, para eles é normal. Prevalece o direito do “melhor”. À “inferior” cabe a obrigação divina de servir.

Poderíamos elencar dezenas de outros exemplos, estes são os mais contundentes. Assim, não encarar ou não identificar o machismo que os milênios reforçam não melhora o problema. Esconder-se em bolha de felicidade e dizer que seu homem é diferente não ajuda as outras que sofrem. E nunca se sabe o dia de amanhã.

Repensar, avaliar, reconhecer suas formas e tomar atitudes é preciso, é tarefa de mulheres e homens. A sociedade tem de ser mais respeitosa e igualitária e menos discriminadora, em todos os sentidos, para que todos vivam o melhor possível.

*Vejam aqui alguns números. 

 

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http://solteirar.com.br.br/aborto-menos-p…s-e-mais-apoio/

Ninguém é a favor do aborto pura e simplesmente. Ele acontece em circunstâncias extremas e sempre dolorosas. E tudo que se refletir sobre ele será pouco.

As marcas que ficam são para sempre. E sua escolha é porque as outras alternativas, após a gravidez, são só desgraça pura.

O caso veiculado recentemente, da moça de 19 anos presa por denúncia de um médico legalista, mas herói da impiedade, pode levar a posicionamentos que de fato auxiliem neste dilema de milhões de mulheres, milhares mortas por ano, que se sentem em sua maioria desamparadas de toda forma. Os números estarrecem.

Via de regra são pobres, sem apoio, e uma faixa significativa delas já com vários filhos e sem as mínimas condições de sobrevivência. A classe alta nunca é exposta.

Ocorrência real e bem elucidativa foi a de uma servente de um posto de saúde, mãe de seis filhos, crente, marido com doença de chagas, já mal. Ao ficar grávida, enfiou uma agulha de tricô vagina adentro e teve uma hemorragia fortíssima. Abortou, mas quase morreu, pois não quis falar nada até cair desmaiada, no dia seguinte, no banheiro do posto. Seu maior medo não era perder sua própria vida, ou os filhos que iria deixar, mas que estava condenada ao fogo eterno. E, assim mesmo, disse que não poderia ter outro filho, seria menos pão para os filhos que já tinha em casa.

Se não têm estrutura para usar anticoncepcionais e camisinha, como terão para custear um filho? Ser mãe de um novo ser traz exigências que nem sempre a mulher suporta naquele momento. Não é um monstro, mas uma desesperada.

Mais educação, orientação contraceptiva, qualificação profissional, apoio psicológico, estrutura social – como creches suficientes, boas escolas e centros de recreação – fariam bem mais do que leis caducas apoiadas em religiões reacionárias, distantes demais do respeito ao sofrimento humano e do que essas mesmas falsas religiões em sua própria doutrina pregam.

Lembremos que Jesus escolheu para acompanhá-lo ao paraíso, no dia de sua crucificação, um ladrão e uma prostituta, nenhum fariseu.

Atire a primeira pedra aquele ou aquela que se achar acima da fragilidade humana.

 

Obs: O Solteirar apoia a campanha da Revista TPM #precisamosfalarsobreaborto.

Confira e participe!

 

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“Vi um parto pela primeira vez com sete anos de idade e, não me pergunte como, soube naquele momento que não iria ser mãe. O que me ficou vago durante os anos seguintes foi a persistente ideia das pessoas quererem profetizar meus filhos nunca nascidos.” A frase não é minha, mas me representa com uma quase perfeição. O único desvio que lhe acomete é que eu não precisei de sete anos para descobrir minha incapacidade maternal.

Essas palavras são de autoria de um alguém que ultrapassa a marca de meio século de vida, tendo gasto vinte biênios entre trepadas casuais e promessas matrimoniais, o que, na média, lhe rendeu dois abortos.

Essa criatura, com a alma merecidamente excomungada das entranhas religiosas, acampa sob a cobertura de um prédio instalado em um dos melhores pedaços de terra deste globo. A desgraça de seus dias se deu quando, por ventura, quis o destino entregar seu corpo à tutela de um algoz, que para seu azar não conseguiu lhe arrancar a alma. Quando sentiu a vida ainda pulsante em si, buscou, internamente, algo que ainda estivesse inteiro, nada encontrou, mas tomou conhecimento de haver em seu ventre um rebento. Agarrou-se aos fatos e tragou sua vergonha: lá estava na justiça a parir a sua dor. Anos depois, outro feto se instalara em seu ventre. Este, que vindo de forma diferente, possuía, no entanto, a mesma sorte: não havia nada maternal naquele espírito. Respirou fundo e decidiu com um corte latente em sua mesquinhez: lá se foi parir o seu egoísmo para além da fronteira.

Sobre como se dão os sentidos das coisas há algo que jamais saberemos: o significado de uma gravidez alojada na singularidade de uma mulher. Acostumamos-nos tanto a encarar a prenhez da ótica do natural que nos distanciamos da complexidade que ela encerra para além do pesadelo de fraldas sujas.

O passo seguinte à confirmação de uma gravidez é sempre o início do caos. Porque assumir um filho é a tradução de um futuro de alegrias, desilusões e privações – sem saber a combinação exata desses fatores. Dar à luz e se abdicar da responsabilidade de gerir um futuro ao broto não desfaz a cicatriz de covardia e de incapacidade formada no espírito. E, por fim, no extremo da negação, expulsar o feto de seu casulo natural para o além-desconhecido deixa no mínimo a marca da violência cirúrgica, e quando isso não basta, ficam a carne e seu último suspiro como mero detalhe de um óbito cotidiano.

A verdade é que a oposição à descriminalização do aborto não traduz o verdadeiro resultado advindo dessa espécie de encarceramento biológico. Criminalizar o ato só nos torna mais cegos à questão fundamental: a vida – inclusive das mulheres. A impressão que vem sendo deixada é a de uma solução mágica inscrita no código penal, mas, o fato é que as rés morrem antes de qualquer julgamento e em condições execráveis, porque o aborto é um episódio corriqueiro nesse complexo social de ilegalidades! Nenhuma pessoa que é a favor da descriminalização do aborto é a favor dele ao rigor do ato. O que se quer apenas é o direito legitimado do corpo feminino expressar sua liberdade individual de escolhas. E a manifestação contra abortamentos está na transmissão de medidas educativas – em todas as suas formas – e na máxima do gozo de um sistema de saúde de excelência.

Precisamos de fóruns que nos deixem implorar por um estado laico que represente a todos. Precisamos de espaço para dar um basta à saúde clandestina que extorque. Precisamos parar de criar mais vítimas pobres dessa corja social. Precisamos parar de fugir, as coisas não estão funcionando, precisamos falar!

Obs: Texto inspirado na campanha da Revista TPM #precisamosfalarsobreaborto: http://revistatpm.uol.com.br/reportagens/148/precisamos-falar-sobre-aborto.html. Confira e participe!

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