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idealização de relacionamentos

Imagine a seguinte situação: você conhece uma pessoa muito diferente de você (gostos, pensamentos, crenças, rotina e tudo mais que queira incluir na lista) e ainda assim se apaixona por ela.

Qual é o erro dessa sequência?

Durante muitos anos eu tentei viver meus relacionamentos fora dos clichês, das regras usuais, dos ditos populares. Queria alocar minhas relações fora da expectativa mediana de como ser e como viver.

Passei a gostar das entrelinhas, dos namoros não oficializados, de relações sem expectativa de compromisso, sem cobranças e com bastante oxigênio. O que eu buscava era a partilha de afinidades, a troca de conhecimentos, o aprendizado com a experiência do outro e, confesso, um pouco de paz.

As relações desfizeram-se. A maioria de forma tão natural que nem houve necessidade de alinhamentos. Sempre entendi como um prazo de validade apesar da tristeza do fim.

No entanto, uma regra ainda me restava: relacionamentos não sobrevivem entre diferentes.

– Não?

– Não.

Quando proferi essa resposta, o que eu imaginava era todo o esforço que uma relação exige, sendo redobrado para mantê-la. Imaginei as opiniões que deveriam ser ditas de forma mais delicada ou as diversas brigas a serem superadas caso isso não fosse feito. Imaginei uma lista de supermercado sem consenso. Imaginei shows solitários e livros de um único dono. E, mesmo assim, me apaixonei.

Perceber esse estado fez com que eu me questionasse: vale a pena me antecipar a todas essas frustrações futuras e por um fim à sequência de encontros aos fins de semana ou realmente devo insistir?

Hoje não sou o suficiente para tomar uma decisão consciente, baseada em argumentos, fatos e números. Na verdade, fiz uma aposta em um jogo de azar. Talvez eu esteja errada, mas optei por trocar de estante. Quero receber bem os novos livros que virão – na esperança de que também se deixem estar.

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Sara reúne, aparentemente, grande parte dos atributos que a enquadrariam na “categoria” de “mulher bem sucedida”: é charmosa, independente e tem uma carreira apreciável. Contudo, por trás da camuflagem de sucesso, revela-se a tragédia capital: ela não é casada. Logo, sua única esperança é renunciar todas as suas mais desprezíveis ambições pessoais e profissionais para tornar-se merecedora do único “final feliz” existente: encontrar seu “grande amor”. Ao longo da trama, a protagonista ainda enfrentará a fúria de rivais infatigáveis (mulheres, evidentemente), descobrirá seu lado doce, feminino e atrapalhado e, finalmente, conseguirá se casar… E um casamento em alto estilo, com direito a festa inesquecível e convidados chorando copiosamente por todos os cantos. Afinal, o casal será abençoado com a profecia divina de “felizes para sempre”.

Esse é, para a agonia da sétima arte, um dos mais desgastados roteiros hollywoodianos da atualidade, com pequenas variações aqui e ali…

Se encarássemos esse festival de infantilidade (até “Cinderela” da Disney me empolga mais), estupidez e moralismo barato poucas vezes, até seria divertido. O problema é que transformaram essa fórmula “universal de sucesso de bilheteria” em religião. De distração medíocre a padrão esperado de conduta feminina… Tudo isso só para justificar o não esgotamento comercial dessas tramas acéfalas. E uma mentira repetida à exaustão acaba virando verdade… Com muitas vítimas pelo caminho…

Como se todas as expectativas romantizadas e as ambivalências irreconciliáveis do “homo insatisfeito” pudessem ser amenizadas pelo cotidiano do matrimônio…

Como se as mulheres só se provassem admiráveis ao abdicar de seus sonhos para assumir seu papel como fêmea companheira e procriadora…

Como se o sacrifício da liberdade individual em prol do convívio entre dois mendigos por emoção pudesse dar significado à nossa existência miserável…

Como se a única virtude dos homens e, principalmente, das mulheres fosse encontrar um amor…

Como se o amor fosse imune à decomposição…

Como se o animal humano, justo ele, fosse inevitavelmente condenado a “ser feliz”…

Claro que as mulheres não são o único alvo desse moralismo indecente, mas são, certamente, o principal. Pelo menos as histórias dos heróis masculinos costumam ser mais criativas e tratar dilemas existenciais bem mais verossímeis e envolventes…

Não, obrigada!

Prefiro buscar o êxtase em aventuras repletas de adrenalina e em projetos mirabolantes. E sem a carga de responsabilidade pela vida alheia caso alguma das minhas loucuras dê muito errado.

Não me importo em desafiar a ojeriza da legião de zumbis que acredita nas histórias de carochinha de Hollywood. Declaro minha ambição em alto e bom som: pretendo acumular um repertório de feitos pessoais (alguns acertos e vários erros) que pode, eventualmente, me trazer satisfação no leito de morte. Também confesso minha completa incapacidade em me contentar com um relacionamento… Até porque meu combustível para enfrentar o exercício intenso da liberdade é justamente a paz em ficar sozinha.

Enfim, esse modelinho patético de pseudo-felicidade definitivamente não serve para aliviar o esvaziamento de sentido da minha existência… E, portanto, esses filminhos não me encorajam a desperdiçar nem cinco segundos do tempo que me resta. Se só tiver a TV como fonte de diversão e eles forem as únicas opções disponíveis nos canais de cinema, troco para o canal de esportes.

Se alguém insiste em contar alguns trechos desses blockbusters sobre a “alma feminina”, logo que chego em casa recorro aos clássicos (como o espetacular “Thelma e Louise”) ou a Almodóvar (especialmente “Volver”). Só para me desintoxicar…

E torço justamente para que a nova “geração” de heroínas valentes, poderosas e amantes da liberdade da Disney, algoz da desvalorização feminina por décadas, contribua para sepultar de vez todas as “Saras” (Cinderelas “atualizadas”) e essa brochante pasmaceira cinematográfica.

Como já disse minha amiga Eva em “Castelo de Sonhos”, “Let it go…” 

PS: Para quem que se infectou com a lembrança das piores comédias românticas, aqui vão algumas imagens para que você volte a acreditar que o cinema tem salvação…

SPAG Texto12 Foto Texto Interno 12.1 - #Thelma & Louise

2015_05_11_SPAG Texto12_Hollywood não me representa_Foto Texto Interno 12.2 - #Volver

SPAG Texto12 Foto Texto Interno 12.3 - #Elza _ Disney

MERIDA WALECZNA (BRAVE) 2012

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