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solteira convicta

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O brilhante texto da nossa genial caçula Lana “Relacionamentos: um exercício de paciência” instigou-me a confrontar algumas visões antropológicas e sociológicas e a concluir que a arte da “caçada sexual” ainda não se adaptou aos novos tempos.

Mas, antes de um provável mal entendido, insisto em esclarecer que este não é, nem de longe, um tratado autovangloriante de minhas habilidades de sedução disfarçado de um texto engraçadinho. Não tenho tal pretensão.

Até porque uso e abuso da minha total deficiência como “fêmea procriadora”: não sou sexy, nem cheia de curvas ou qualquer coisa próxima de “feminina”. Ninguém com 1,83m de massa disforme ornamentada com tattoos do pescoço ao dedão do pé poderia presumir que não intimida os mais sensíveis machos da espécie.

Os poucos que se empolgam em “domar” esta tresloucada que lhes escreve (curiosa e lamentavelmente “domar” é um termo que utilizam) normalmente o fazem por ter um gosto excêntrico e por se interessar pelo único atributo de sedução remanescente a esta altura da minha decrepitude: sou indisponível, na fronteira do inatingível.

Raramente passo meu telefone ou meu nome verdadeiro (e notem que “Spagofreda” é ótimo para afastar eventuais “moscas na sopa”). Na maioria das vezes, saio como um raio após o coito: nada de carinhos pós-êxtase (aliás, se você realmente atingiu o clímax, qualquer coisa depois disso irrita…). Ou, então, caio fora antes de correr o risco desagradável de não dormir sozinha. Entrar em contato depois? Pra quê? Que as boas transas sejam presságios das melhores que ainda estão por vir…

E é realmente incrível como os homens em geral ficam alucinados quando ignorados. Pura carência, pobrezinhos…

Mas voltemos ao foco do dia: as cantadas da homarada estariam totalmente desalinhadas das expectativas da mulherada? Acompanhem os indícios…

Todas nós já ouvimos a famosa “você faz com que eu queira ser uma pessoa melhor”.
Bem, os imbecis que utilizam essa isca não só erram o alvo das solteiras convictas como erram qualquer alvo. Só um lerdaço completo acreditaria que uma pulsão desejante ou um amor romântico transformaria os reles humanos energúmenos em seres em quem se pode confiar. Ou, então, se existisse esse “poder dignificador do amor”, quem poderia afirmar que ele extrapolaria o tempo de dissimulação necessário para fisgar a atenção do alvo pretendido?
Não é de surpreender que o mundo não tenha se beneficiado muito dele…

Já outros palermas faraônicos tentam ludibriar seus alvos (até os que acabam de conhecer) com a famosa “faço tudo por uma paixão” ou a trágica “não vivo sem você”…
Ora, se um lunático utiliza esse tipo de argumentação, é elementar que: nunca se interessou por alguém antes (e, portanto, é um poço de inexperiência), é um psicopata obsessivo e a escolheu como vítima, nunca lutou de fato por uma mulher (ou seja, é um mentiroso de quinta categoria) ou é um pobre coitado desprovido dos atributos básicos para o exercício da luxúria.
Nesta situação, além de escancarar também sua tosca capacidade de persuasão, esse discurso é um verdadeiro repelente contra as amantes da liberdade. Afinal, fazemos qualquer negócio para nos livrar de homens pegajosos.

É bem comum também o papinho “como você se parece comigo”…
Pobres miseráveis os que utilizam tal artifício na caçada… Nada mais brochante do que a falta de novidade e mistério! Nessa situação, a solteira sempre se perguntará por que ela não se divertiu sem sair de casa…

Já os que tentam fisgar as mulheres que sonham com um bom pai para seus filhos (e imaginam que todas têm tal pretensão) não raramente utilizam discursos como: “Noossa, você seria uma mãe espetacular!” e “Como adoro cães/ bebês/ passarinhos…” Essa linha de cantada causa efeitos nefastos: taquicardia, vômitos ininterruptos e até reações violentas involuntárias. Cuidado para não ser processada por danos morais ou agressão física! Até eu – que visivelmente não tenho nenhum resquício de instinto maternal – já fui vítima desse tipo de cretinismo.

Porém, as mais intragáveis cantadas fazem parte da categoria “acho que a conheço de algum lugar”, “você é a tampa da minha panela”, ou, para os pseudocultos, “você é a mítica metade de andrógeno que me faltava”…
Bem, nesses casos, além de acusar a solteira de mentirosa (como se ela encenasse não acreditar no “amor eterno”), nada poderia ser mais bizarro do que tentar convencê-la que o galanteador realmente acredita na “compatibilidade exclusiva” entre dois amantes num mundo abarrotado por bilhões de possibilidades. Monogamia? Difícil de encontrar até entre os pássaros… A multiplicação de genes demanda fertilidade e diversidade. Permanência? Tudo neste universo está apodrecendo… Só os ignorantes acreditam no contrário.

Ademais, as solteiras de corpo e alma já foram conquistadas por sua liberdade. Não há espaço para outra paixão romântica. Apenas para aventuras rápidas e sem compromisso, sendo que na maioria das vezes elas preferem partir para o ataque. Os que precocemente despejam discursos prontos estão perdendo ótimas oportunidades. Estariam num futuro nem tão distante em risco de extinção?

Bem, o fato é: se não se adaptarem rapidamente, correrão o risco de testemunhar a mulherada acionar seu lado “bissexual” latente para se beneficiar de mais autenticidade e menos irritações. E tudo isso pelo mesmo prazer.

 

Ilustração: agradecimentos a willtirando.com.br.

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Vida de solteira convicta não é fácil… Duvida?

Para meus inimigos (e algumas pessoas que mal me conhecem), sou uma encalhada mal amada, uma mulher indecente, vaca profana dos infernos, egoísta petulante, candidata a destruidora de lares, puta fracassada, influência nefasta, abominável e inescrupulosa usurpadora da moral, dos bons costumes e da família… E por aí vai…

Para os mais renomados intelectuais (psiquiatras, antropólogos, sociólogos e todo o resto da “intelligentsia”), sou uma fraude, já que solteiras convictas não existem.

Aliás, um professor de filosofia (ex-peguete e provável integrante do meu grupo de inimigos) chegou a decretar que eu era a mais insensível “pessoa líquida” que ele conhecera.

Até aqui, sem neuras… O que esgota minhas energias é a luta para desconstruir a descrença dos meus próprios amigos não iniciados na arte de Solteirar.

Para eles, sou uma perturbada pobre coitada que ainda encontrará a “tampa da panela” e terá a grande satisfação de descobrir seu lado “materno e amoroso”. Além disso, acreditam que me realizarei com “cuecas pra lavar”. E o pior: muitos nunca perderam as esperanças em me converter ao “verdadeiro caminho da felicidade” (vulgo vida de casada)… Aff…

Dá pra acreditar?

Tudo bem, confesso: sou uma louca desvairada com alma de cadela desgracenta! E daquelas capazes de abandonar sua própria cria (delito que só não faz parte da minha ficha criminal por terem inventado a santa pílula anticoncepcional).

Pra piorar (se é que é possível), sou viciada. E na pior de todas as drogas: minha liberdade.

Das grandes ilusões mutuamente excludentes inventadas pelo homem – liberdade plena ou amor incondicional – acabei me encantando com a primeira. Fazer o quê? A liberdade é a mais harmônica alternativa ao meu individualismo crônico. Que culpa posso ter se a seleção natural gera indivíduos falhos?

Afinal, de acordo com uma sábia filósofa anônima das redes sociais, “toda panela tem uma tampa, mas o problema é que há frigideiras por aí”.

 

PS: Antes que você passe a complementar a lista de ofensas acima, confira alguns feitos pelos quais me orgulho e veja se muda de ideia sobre a minha pessoa: reconheço minhas maiores podridões; nunca enrolei os raros candidatos à outra metade da minha laranja, sugerindo-lhes que desde a mais tenra e alucinada paixonite encontrassem uma mulher que suportasse a tragicomédia do casamento; e, finalmente, não transmitirei meus genes FDP por aí. Você e as próximas gerações podem me agradecer por essa.

Ilustração: agradecimentos a Beto Barreiros.

Solteirando pelas redes sociais