Amanheceu.
Leio as mensagens no celular e levanto para enfrentar o espelho. Deseje-me um bom dia, reflexo, sou mais que este corpo flácido a sua frente.O meu glorioso ego está a lhe encarar.
O banho me liberta do sono, mas não da podridão que escondo. Visto minhas roupas, são peças que individualmente valem muito mais que o meu caráter, mas muito menos que o meu poder. E eu realmente posso.
O caminho até a mesa do escritório é todo imponência. A admiração e a inveja alheia fazem meu ego enrijecer e essa sensação de superioridade me excita. Não me dou a caridades nem a compaixões, eu quero ver o próximo de joelhos implorando por ar. Quero a oportunidade de assistir essa agonia, eu não vou lhe deixar viver. E, caso eu mude de ideia, não será à toa, quero que use todo o oxigênio que puder para massagear o meu ego latejante.
Minha posição não é simples. Não quero respeito, isso eu compro, eu quero sangue. Preciso da humilhação para sobreviver. Ora vou mentir. Ora vou confessar. Qualquer coisa que possa reduzi-los a vermes na minha presença. Vai-se o dia. É noite, me dispo, dispo o outro e lhe escarro, nos minutos que me sobram.
Concebo o descanso em meu ninho de trevas. Basta, meu ego já está pronto para recomeçar o próximo dia.
