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paixão

– Glória, está em casa?

– Sim, está tudo bem?

– Toma uma cerveja comigo?

– Claro!

E pelo pedido, é claro que não está bem…

 

“Amiga, estou com a autoestima arrasada. Sinto-me culpada e diminuída por ter caído em mais um golpe – o golpe da paixão. Ele é jovem, eu deveria ter suspeitado, deveria ter evitado a relação. A noite foi incrível, me entreguei num impulso adolescente. Que ridículo! Agora, fui surpreendida com um cenário de mentiras e descaso. Esperei uma ligação. Uma explicação. Uma explicação que, eu já sei, não existe. Sinto-me usada e a culpa me consome. Como saber de antemão que se está de posse de uma nota de 3 reais? Como? Ele é um ludibriador, eu deveria ter percebido, eu deveria saber. Estou arrasada, Glória. Envergonhada. Essa é a minha ressaca após a esbórnia da última noite. Caí no conto do canalha. Devo ser a única com tamanha cegueira.”

Fiquei em silêncio durante os intensos 120 minutos desse monólogo. Só me movi para pedir mais cerveja e pagar a conta.

Levei a minha amiga para sua casa e antes de partir a olhei: embriagada, sentimentalmente ferida e absorta num sono pesado. Ao observá-la lamentei, mais que tudo, a sua última frase. A verdade é que ela não é a única a acometer-se dessa cegueira. E, provavelmente, essa talvez não seja a sua última ressaca.

Só um tipo de paixão me interessa: as vigorosas. E isso não remonta viver sob a incessante caça de relações utópicas, mas sim, estar sob a tutela da salubridade e da boa vontade.

Afinal, relacionamento é vontade, é desejo, é querência. Significa alinhamento de ânimos sem a garantia de permanência dos ponteiros e, também por isso, significa ajuste. As relações de sucesso não violam, não agridem e não comportam lástimas – apesar das divergências.

Figuram uma superfície homogênea, plana ou montanhosa, mas sem talhos, cavidades ou golpes, a premissa máxima é uniformidade.

A rotina dos elos amorosos é doação, com eventuais cenas de escambo. Comportam a sexta-feira tóxica, o sábado constipado e o domingo vadio, mas por resultante cativam onipresença.

Os vínculos sadios não regem cárceres, não há clausura nem furto: é entrega ou nada. São multidimensionais e através de lentes subjetivas, palpáveis.
Dizem que relacionamento é paciência, para mim é, antes de tudo, paz. E, mesmo na plenitude do caos há de se encontrar uma trégua.

Não é que eu queira só o nirvana das coisas, a volatilidade do júbilo significa tortura. No fim das contas qualquer relação lhe usurpa uma parte da vida, quero ficar com aquelas que me regozijem. Conexões baseadas em flagelos deixaram de me seduzir, pois são passos a caminho do suicídio.

 

Uma das conclusões difíceis de se aceitar é quando chegamos ao ponto em que começamos a aceitar a frase acima.  O cara há tempos dá sinais de que não está mais a fim, mas vamos nos  enganando, fingindo que não desconfiamos disso.  Até que não dá mais para esconder e se iludir.

O fato é que dói demais saber que a pessoa que desejamos não mais nos deseja. Sentimo-nos desamparadas e tudo mais.

Mas, nessas horas o importante é levantar a cabeça e sair o mais rápido possível dessa “apaixonite” não correspondida.  Quando o amor não é mais correspondido, o melhor que temos a fazer é superar a decepção e desconstruir a idealização de que ele era o príncipe encantado, que era o único amor do mundo.

Não adianta só lembrar das qualidades e dos momentos incríveis da relação. Pois sabemos que quando estamos apaixonadas, tendemos a exagerar nas qualidades dele. Logo, precisamos racionalizar um pouquinho e lembrar de alguns vários defeitinhos que ele tem.

Ponto também importante nessa situação: afastarmo-nos da pessoa amada para rapidamente reconstruirmos a nossa autoestima. Ficar procurando notícias dele, buscar informações pelos amigos, redes sociais e relembrá-lo nada mais é do que ficar traumatizando a situação, uma espécie de autoflagelo que só prejudicará a autoestima e a prontidão para uma nova relação.

Embora a tristeza aperte nossos corações quando realmente gostamos de alguém que não mais nos goste, é preciso que enxerguemos o fim do namoro como uma oportunidade. Um tanto quanto estranho, mas me explico: uma relação problemática ou de amor não recíproco pode só potencializar e prolongar sua tentativa frustrada de tentar reverter uma situação que não tem mais jeito. Assim, o fim dessa relação passa a ser sim uma oportunidade de libertação, de autoconhecimento e de busca para de uma real felicidade.

Óbvio. Sabemos que sofremos, choramos por dias, ficamos tristes. Sofrer é natural e faz parte do fim de uma relação. Afinal, quem, nunca quiser sofrer, nem se arrisque então. Mas devemos encarar e respeitar a rejeição dele com naturalidade. Afinal, a vida é feita de alegrias, mas de decepções também.

Nosso sofrimento é normal e várias outras pessoas também passam pela mesma tristeza. Por isso, viremos a página. Sigamos em frente. Vamos fazer cursos, sair com as amigas, ir ao cinema…  Isso aumentará as chances de conhecer alguém.

Como diz o ditado, “amor com amor se cura!”

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Quando a presença de alguém dispara a revoada gelada de borboletas em seu estômago, já profetizavam alguns sábios gregos há milênios: você foi amaldiçoada!

Especialmente para pessoas como eu, uma das maiores catástrofes nesta vida é ser alvo da tirania de uma paixão romântica.

Explico: egoístas libertárias e libertinas logo se sentem aprisionadas e mortas em vida ao cair nas armadilhas limitantes da paixão, já que a verdadeira paixão é exageradamente aniquiladora de sua independência e de suas múltiplas potências vitais. E nem só o amor romântico alimenta o espírito humano…

Muitos até anunciam que em seus relacionamentos há espaço para a liberdade. Para mim, essas pessoas não têm nem uma coisa, nem outra. Vivem pela metade. E talvez por isso precisem da “cara metade”.

Todos os amantes apaixonados em certa medida sufocam o “objeto” da paixão. Ou, então, não se trata de paixão, mas de companheirismo, variações distintas de amor, respeito ou qualquer outra coisa.

Ora, se você não tem a mínima aptidão para a escravidão voluntária e nada em sua natureza subversiva pode fazê-la suportar o cárcere de uma paixão, é simples: não se apaixone. Afinal, separar-se do ser amado será inevitável e doloroso.

Em alguns casos, doloroso a ponto de suprimir seu vigor para descobrir o novo, neutralizar seu ânimo para estar com os amigos, dizimar sua força e capacidade produtiva, assassinar seu prazer pelo sexo casual e até mesmo refrear sua evolução como ser humano por meses.

Para desajustadas como eu, uma paixão resume-se a poucas semanas de deliciosa embriaguez interrompidas pelo pânico com a consciência da masmorra emocional e seguidas de meses amargos de abstinência e recuperação… Enfim, pura perda de tempo!

E tanto pior se alguém apaixonar-se por você. Como o vírus da paixonite aguda normalmente precisa de um tempo de incubação, é bem provável que a vítima possa ser seu(ua) amigo(a). Péssima notícia: é enorme a chance de que essa amizade seja destruída irreparavelmente.

E, como não controlamos a neuroquímica que governa nossos impulsos, a maldição até poderá ocorrer acidentalmente. Talvez quando um ser sedutor a fizer rir como ninguém. Ou quando tiver a misteriosa capacidade de desvendar sua intimidade. Sabe-se lá… Neste caso, apenas renda-se por um instante! Para tudo há uma primeira vez.

Sabemos que a submissão ao amante não resistirá muito à sua voraz índole libertária, mas degustar as drogas mais mortais também é um exercício de liberdade, desde que o uso prolongado não a faça sucumbir.

Há quem acredite que a dor provocada pelo fim de uma grande paixão é um prato cheio para a criação de obras artísticas memoráveis. Se for o caso, aproveite a chance, mas lembre-se que o sonho de liberdade foi a mais formidável matéria prima das obras-primas. Assim, qual delas – liberdade ou paixão – mais contenta o espírito humano?

Bem, se você lê meus delírios, deve pertencer à mesma linhagem de loucas varridas, as que abdicaram do cabresto de uma vida desesperada à procura de paixões avassaladoras. É bem provável que você, como eu, simplesmente não conceba a idéia de abandonar a liberdade depois de milênios de luta para conquistá-la. E, como a paixão e a liberdade desmedidas são inconciliáveis,
você escolheu a segunda.

Você provavelmente também não se intimida quando jogam na sua cara que a liberdade não assegura a felicidade. Você sabe que, se isso for verdade, nada poderia assegurar. Muito menos o amor romântico…

De qualquer modo, se você for vítima dessa droga, trate de livrar-se dela assim que voltar do entorpecimento (e você voltará). Insistir em utilizá-la a transformará em uma zumbi inútil e desprovida de amor próprio.

E, se você chegar ao fundo do poço, não desista! Encontre uma nova e desafiadora montanha para escalar, ingresse em um novo projeto, ultrapasse seus limites, preencha sua biografia e comemore cada conquista antes que seja tarde!

Na migalha de vida que lhe resta, melhor apaixonar-se cada vez mais pela maior heroína de sua vida: você mesma!

 

 

Hoje não te quero mais. Pode ser que você não consiga entender meus motivos, mas também não vou explicá-los. Só posso relatar situações, que talvez você nem tenha percebido, mas que corroeram nossa paixão.

Você sempre soube que não sou do tipo que quer compromisso, mas você nunca me ofereceu sua amizade.

Eu nunca te pedi presentes, mas você nunca me trouxe uma flor apanhada em um jardim.

Brindamos muitas e muitas vezes, mas você nem uma vez me ofertou uma garrafa de vinho.

Muitas vezes discutimos nossos planos individuais, mas você nunca me perguntou se minhas tentativas deram certo.

Em todos os encontros fiz meu corpo arder de prazer, mas quando não tive forças para te saciar, você não me ofereceu afago para me recuperar.

Em nossa paixão avassaladora, éramos únicos. Duas pessoas ligadas por uma energia inesgotável e indestrutível da libido, mas você se esqueceu de me cativar e hoje não te quero mais, pois não foi capaz de me conquistar.

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Depois de todos esses anos há algo que ainda lhe cause estranhamento nessa vida?

No elevador, portas fechadas, dois amigos e o início do silêncio.

“Durante esses anos de vida, para além da minha profissão, já enfrentei: rostos dilacerados e hostilizados; uma insônia que se fazia viva para guardar o corpo de pesadelos; cicatrizes profundas que traduziam sobrevivência e, por diversas vezes, fui assombrada por expressões vazias de eterno luto. Em suma, me enojei demasiado pelo contato com as consequências de cínicos amores.

Não sou fã de declarações de amor, me incomoda assistir a performances baratas de dominação/submissão e pseudofelicidade. Confesso não entender a necessidade de viver uma amostra eloquente de sentimentos e estar sempre a prender-se numa corrente de gritos e mordaças. As almas, que como eu, se deixaram vagar por um aspecto singular de sentir, ora unilateral ora multi, sabem que também se ama com poucas palavras e, inclusive, na calmaria.

Em nada me oponho à gramática propriamente dita, nem às carícias faladas, nem aos apelidos ridículos, minha rixa é pontualmente reconhecida nas vezes em que surtos de posse, cenas de violação, cárcere, humilhação, traumas, flagelos, perseguição, medo e covardia são tratados todos no mesmo plano: o amor – numa cegueira que exige e cede vadios perdões. São três palavras virulentas a ratificar que um transtorno usurpe relações de benevolência.

Portanto, no que tange a mim, escolhi ser ausente àqueles afetos que estão brutalmente expostos pelos arranhões da pele e mantém lascas de pele por debaixo das unhas. Sempre que me deparo com uma possível armadilha me ponho a repetir o velho mantra da salvação…”

Uma voz a resgata de seu torpor e após vinte andares de pausa consegue responder.

Só uma coisa ainda me assusta: tenho medo das pessoas que muito se valem do “eu te amo”.

Segurando a porta do elevador o sujeito questiona:

– E o que faz quando este tipo lhe dirige tal afeição?

– Primeiro agradeço e, na sequência, sugiro que as introduza – as tais palavras – em seu próprio reto.

Ele ri, mas ela não se fez hesitante ao projetar a última fala.

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