Conversa de elevador
– Depois de todos esses anos há algo que ainda lhe cause estranhamento nessa vida?
No elevador, portas fechadas, dois amigos e o início do silêncio.
“Durante esses anos de vida, para além da minha profissão, já enfrentei: rostos dilacerados e hostilizados; uma insônia que se fazia viva para guardar o corpo de pesadelos; cicatrizes profundas que traduziam sobrevivência e, por diversas vezes, fui assombrada por expressões vazias de eterno luto. Em suma, me enojei demasiado pelo contato com as consequências de cínicos amores.
Não sou fã de declarações de amor, me incomoda assistir a performances baratas de dominação/submissão e pseudofelicidade. Confesso não entender a necessidade de viver uma amostra eloquente de sentimentos e estar sempre a prender-se numa corrente de gritos e mordaças. As almas, que como eu, se deixaram vagar por um aspecto singular de sentir, ora unilateral ora multi, sabem que também se ama com poucas palavras e, inclusive, na calmaria.
Em nada me oponho à gramática propriamente dita, nem às carícias faladas, nem aos apelidos ridículos, minha rixa é pontualmente reconhecida nas vezes em que surtos de posse, cenas de violação, cárcere, humilhação, traumas, flagelos, perseguição, medo e covardia são tratados todos no mesmo plano: o amor – numa cegueira que exige e cede vadios perdões. São três palavras virulentas a ratificar que um transtorno usurpe relações de benevolência.
Portanto, no que tange a mim, escolhi ser ausente àqueles afetos que estão brutalmente expostos pelos arranhões da pele e mantém lascas de pele por debaixo das unhas. Sempre que me deparo com uma possível armadilha me ponho a repetir o velho mantra da salvação…”
Uma voz a resgata de seu torpor e após vinte andares de pausa consegue responder.
– Só uma coisa ainda me assusta: tenho medo das pessoas que muito se valem do “eu te amo”.
Segurando a porta do elevador o sujeito questiona:
– E o que faz quando este tipo lhe dirige tal afeição?
– Primeiro agradeço e, na sequência, sugiro que as introduza – as tais palavras – em seu próprio reto.
Ele ri, mas ela não se fez hesitante ao projetar a última fala.













Que saudades estava da Glória e de toda a sua gloriosa originalidade! Valeu esperar! 😉
Simplesmente a página com a qual mais me identifiquei, adoro os textos apesar de não ser fã de leitura, adoro a inteligência com qual as palavras são ditas, diz td sobre o meu jeito de pensar rs tds as blogueiras estão de parabéns! #soumaissolteirar