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spagofreda
Você provavelmente olhou este título e deve ter pensado: “Claro que esta doida ensandecida da Spagofreda só poderia ser feminista…”
Se essa foi a sua primeira impressão, é bem mais provável ainda que você tenha recebido muita notícia truncada e tenha ouvido diversas vezes alguns mitos preconceituosos que rondam esse movimento.
Claro que sou feminista, dos pés ao último dos meus fios de cabelo arrepiados. Sou feminista e não nego, pois tenho orgulho de ser.
E, diferentemente do que muitos acreditam, não sou feminista por ser uma incendiária e transgressora sem causa. Ser feminista não torna ninguém numa alucinada que odeia homens ou numa ameaça à família e à sociedade. Pelo contrário…
Difícil de acreditar? Então, vamos aos fatos…
MITO 1: “As feministas são mal amadas agressivas que queimam sutiãs”
Antes de falar sobre como as feministas foram confundidas com “irracionais destruidoras de machos”, vale fazer um rápido resgate sobre o que é o feminismo:
- “um movimento social, filosófico e político que tem como objetivo direitos equânimes (iguais) e uma vivência humana por meio do empoderamento feminino e da libertação de padrões opressores patriarcais, baseados em normas de gênero”; (Wikipedia)
- “uma doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade;”
- “um movimento iniciado na Europa com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos.”
Uma das maiores representantes feministas foi a brilhante francesa Simone de Beauvoir, escritora e filósofa existencialista. Seu livro “O Segundo Sexo” (1949) foi um marco para o movimento. Ao desconstruir a ideia de que as mulheres têm seu destino social definido por suas características biológicas (sua vocação “natural”), ela mostrou que as pessoas aprendem a tornar-se homens ou mulheres de acordo com a socialização que recebem. E, baseando-se nesse preceito, ela defendeu a igualdade de direitos e oportunidades entre os gêneros.
Achou essa tese tão elementar quanto a lei da gravidade? Pois bem, o incrível mesmo é que a Educação em geral pouco tem abordado o tema “feminismo” nas salas de aula. Infelizmente, quase nada estudamos sobre esse movimento nas escolas ou mesmo nas universidades e é até difícil encontrar bons artigos na internet que o expliquem, o que nos leva a uma questão indigesta: teriam os currículos acadêmicos oficiais menosprezado essa doutrina por pura casualidade ou porque explicar o feminismo nunca foi interessante às crenças androcêntricas hegemônicas?
Bem, difícil explicar… O fato é: quase tudo que sabemos sobre o feminismo foi construído pela mídia.
E esse é um dos grandes motivos, afora o preconceito, que explica tamanha desordem sobre o entendimento dos seus fundamentos e reivindicações.
Afinal, a mídia, desesperada por imagens e notícias de “impacto”, acabou transformando o movimento em uma rebelião de maníacas agitadoras que adoram queimar sutiãs e odeiam homens e depilação. No afã pela audiência, os meios de comunicação difundiram – e confundiram! – as manifestações como atos extremistas muitas vezes sem sentido e, com isso, contribuíram para afugentar milhões de mulheres, que se assustaram com essas imagens sem saber muito bem do que se tratava o movimento.
Embora não faça sentido negar sua subversão intrínseca (já que questiona e propõe alternativas às concepções dominantes e combate a opressão persistente contra a mulher), o feminismo não pode ser confundido com um carnaval desordenado e agressivo de mulheres insuportáveis de topless (e nada contra o topless…).
Isso seria quase como dizer que os black blocks (que não sabemos bem quem são) representaram todo o movimento pela mudança do país em 2013.
MITO 2: “O feminismo é o oposto do machismo e defende a superioridade da mulher”
Grande erro conceitual! O feminismo reivindica a igualdade de direitos entre os gêneros e não a superioridade de um dos gêneros. O movimento que prega a construção de uma sociedade matriarcal com mais direitos para as mulheres é o femismo (ou o sexismo feminino, que defende a dominação pelo gênero feminino).
E, apesar de nomes semelhantes (o que acaba atrapalhando ainda mais o entendimento dos conceitos), feminismo e femismo são completamente diferentes em sua essência.
Também não há embasamentos feministas para a repulsa e aversão ao sexo masculino. Apesar de muitos associarem os movimentos feministas como propagadores do ódio aos homens, notadamente não há relação do feminismo com essa aversão (denominada “misandria”).
Ora, se os escravos e os abolicionistas não pretendiam sobrepujar os indivíduos livres na luta pelo fim da escravidão, por que as mulheres o fariam com os homens na luta pela igualdade de direitos?
MITO 3: “O princípio básico do feminismo é o de que homens e mulheres são iguais.”
Ao evocar a máxima “não nascemos mulheres, nos tornamos mulheres” como estandarte à luta pela igualdade entre os sexos, muita gente entendeu (e continua a entender) que a principal reivindicação feminista foi, é e sempre será “tornar as mulheres iguais aos homens”.
Colocando os eufemismos de lado sem dó nem piedade, vários intelectuais sonsos que não entendem o que está nas entrelinhas ainda não perceberam – ou o fazem intencionalmente – que essa explicação foi decisiva para defender tanto a liberdade de escolha feminina (“sim, sou mulher, mas quero e posso abdicar de um futuro como fêmea procriadora”) quanto a “igualdade de direitos e oportunidades” entre os gêneros (leia-se “igualdade perante a lei e a sociedade”). Aliás, essa confusão conceitual é um grande desserviço ao movimento, uma vez que ele não pretende confrontar biologia, neurociência, medicina…
Tanto quanto são notórias as diferenças físicas e biológicas entre homens e mulheres, é no mínimo uma estupidez sem limites negar as influências da socialização na opressão e discriminação das mulheres ao longo dos séculos.
“(…) Simone de Beauvoir não dispunha do termo gênero, mas ela conceituou gênero, ela mostrou que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher e, por conseguinte, ninguém nasce homem, mas se torna homem, ou seja: ela mostrou que ser homem ou ser mulher consiste numa aprendizagem. As pessoas aprendem a se conduzir como homem ou como mulher, de acordo com a socialização que receberam, não necessariamente de acordo com o seu sexo.” (MOTTA, SARDENGERG, GOMES, 2000, p. 23)
A própria Simone e as diferentes “correntes” do movimento que se seguiram sustentam que as mulheres teriam sido consideradas, ao longo da história, como “o outro” (“o macho castrado”) no processo de construção de sua identidade. E alegam que para o feminismo alcançar sua maior aspiração – não mais ser necessário – as mulheres não deveriam mirar os homens como ideal a ser seguido. Assim, como isso pode ser entendido como “homens e mulheres são iguais”?
Os que defendem essa tese esdrúxula só podem ter uma intenção: rotular as feministas como idiotas. Ou cegas.
MITO 4: “O feminismo acabou e as mulheres não precisam mais lutar por seus direitos.”
Talvez este seja o mais perverso de todos os mitos que cercam o feminismo.
Se você acredita nisso, proponho um desafio: não se entristeça com o que virá a seguir…
- “O companheiro da minha empregada ligou numa segunda-feira, às 7 horas, avisando que ela não viria… No outro dia, ela mesma ligou dizendo que, apesar de constrangida, tinha de contar que estava toda roxa, o rosto inchado pela surra que ele lhe dera e que não queria mais trabalhar.” – relato de Hipólita, blogueira do Solteirar (http://solteirar.com.br.br/apanhou-do-marido/).
- “Por que não é crime estuprar a esposa na Índia?” (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150526_marital_rape_india_mv?ocid=socialflow_facebook)
- “Nós teremos de esperar 81 anos para atingirmos a igualdade de salário, participação e liderança entre gêneros”, de acordo com a Pesquisa Diferenças Globais entre Gêneros, publicada no ano passado pelo Fórum Econômico Mundial. (http://www3.weforum.org/docs/Media/Portuguese_Gender%20Gap_Final.pdf)
- “43% dos jovens dizem ter presenciado a mãe ser agredida. A maioria dos garotos que passou por essa situação admitiu já ter praticado violência e controle contra a namorada.” – Pesquisa do Instituto Avon com Data Popular: “Violência contra mulher: o jovem está ligado?” (http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2014/12/48-dos-jovens-acham-errado-mulher-sair-sem-o-namorado-diz-pesquisa.html).
- “Hoje eu aceito a palavra ‘feminismo’; não o fiz no início da minha carreira. Mudei de opinião por causa de sua definição, ou seja, a crença em um mundo em que todos devem ter as mesmas oportunidades”. – Sheryl Sandberg (http://www.otempo.com.br/interessa/famosas-negam-o-feminismo-e-s%C3%A3o-alvo-de-v%C3%A1rias-cr%C3%ADticas-1.860247). E vejam também sua palestra na TED (https://www.youtube.com/watch?v=c8_P4lPsoAM).
- “Essa é a minha segunda vida. É uma nova vida. E eu quero ajudar as pessoas. Quero que toda mulher, toda criança seja educada.” – Malala Yousafzai, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e estudante paquistanesa que aos 16 anos tornou-se símbolo da luta pela educação de meninas após sofrer tentativa de assassinato do Talibã.
Se você se emocionou ou se indignou pelo menos uma vez, talvez você seja feminista. Ou, se já for, está na hora de convidar seus amigos (e até seu namorado) a também integrar o movimento… Afinal, quem não quer contribuir para um mundo mais igualitário, menos preconceituoso e com mais liberdade? Quem não quer um mundo melhor para ambos os sexos?
E não se preocupe: apoiar o feminismo não a transformará numa “puta”, numa “mal amada” ou numa “revoltada sem causa”. Talvez você ganhe o rótulo de “sonhadora”.
Virada de ano, hora de reflexão… E também de esforço sobre-humano para encontrar as raras migalhas de otimismo que restaram pelo caminho…
A retrospectiva? Vamos aos temas que talvez mais importem para muito além de 2015:
- O quinto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) é claríssimo: o nível de CO2 na atmosfera é o mais alto dos últimos 800 mil anos e a interferência do homem neste fenômeno é indiscutível. Tanto que, na COP 20 (Conferência das Nações Unidas sobre o Clima) em Lima, ninguém mais perdeu tempo discutindo se o efeito estufa é ou não é reflexo do comportamento humano e da queima dos derivados do petróleo.
- Em 2013, 22 milhões de pessoas foram vítimas de eventos extremos do clima, tais como inundações e enchentes, tsunamis, secas etc. E os países mais pobres são os mais afetados. Acredita-se que em meados deste século os refugiados do clima poderão ser 200 milhões.
- A humanidade está provocando a sexta extinção em massa no planeta. Das entre 5 e 9 milhões de espécies estimadas de animais, de 11 a 58 mil estão desaparecendo anualmente, um ritmo mil vezes superior ao “natural”. 67% das poucas espécies de invertebrados monitoradas apresentaram um declínio de quase 50% em suas populações. 13% das espécies de aves estão seriamente ameaçadas de extinção. Esgotamos ou colocamos em risco ¾ das zonas pesqueiras. 30% dos corais já desapareceram. No ritmo atual, toda a reserva de peixes está ameaçada.
- A comunidade científica internacional já discute o advento de uma nova era geológica, o ANTROPOCENO, que marca o início do impacto evidente da atividade humana sobre o planeta.
- A “eficientíssima” agroindústria, o plantio de irrigação, o consumo extremo e as mudanças climáticas vêm esgotando perigosamente as reservas não renováveis de água potável em todo o mundo. Vários rios outrora grandiosos (como o Jordão e o Colorado) estão virando riachos e muitos deles não deságuam mais no mar em grande parte do ano. Até a Índia corre risco de sofrer falta de água nas próximas décadas.
Enquanto isso, na ainda jurássica Terra Brasilis…
- O desmatamento na Amazônia brasileira em outubro de 2014 foi de 244 km² (cerca de 24 mil campos de futebol), um aumento de 467% com relação a outubro de 2013, segundo a ONG Instituto Imazon. O sistema de alerta da Imazon realiza suas medições em colaboração com o aplicativo Google Earth. Em contrapartida, os dados “oficiais” das autoridades ambientais brasileiras indicaram – logo antes do início da COP 20 – que o desmatamento da Amazônia brasileira caiu 18% no período 2013-2014 (ou 4.848 km²). Dados ligeiramente discrepantes, não?
- São Paulo passa pela mais grave crise hídrica em 80 anos. O governador reeleito Geraldo Alckmin foi omisso e inconsequente ao repelir as advertências dos técnicos sobre um sistema que já operava no limite há tempos, ao minimizar a gravidade da situação e ao atribuir unicamente a “São Pedro” a responsabilidade pela crise (“É uma situação excepcional.”). Sua motivação foi puramente eleitoreira. Prova disso é que o novo gestor da Sabesp acaba de declarar que o Estado precisa estar “preparado para o pior”. Enquanto isso, as reservas do Sistema Cantareira não param de cair…
- O governo federal, depois de reeleito em meio a uma das mais sujas campanhas eleitorais da “era democrática”, hoje está submerso em uma terrível maré negra com o “derramamento” dos escândalos do Petrolão. Comprova-se a cada dia que as inimagináveis quantidades de dinheiro desviadas pela corrupção se alastraram por quase toda a fauna política brasileira e em grande parte das maiores corporações do país.
- Pra piorar, na calada da virada do ano, nossa presidente Dilma Rousseff, que no mínimo tem sido complacente com os carnífices desse desastre político, anunciou várias medidas “neoliberais” para ajuste das contas públicas que recentemente rechaçou como candidata (incluindo a flexibilização de direitos dos trabalhadores) e acaba de nomear o pior ministério das últimas décadas (reflexo de uma distribuição de cargos para alegrar partidos). Apenas como exemplo, temos o novo Ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo (antigo Ministro do Esporte). Ele foi relator do atual código florestal brasileiro (ou seria “código agrário”?), um desserviço sem precedentes a alguns dos maiores patrimônios biológicos da humanidade – infelizmente abrigados neste território tupiniquim. E por quê? Esse código permite o cultivo em áreas de preservação permanentes, isenta os agricultores de multas, diminui as áreas de conservação adjacentes às margens de rios, dentre outros crimes hediondos com nossas gerações futuras. Vale lembrar também que o novo ministro, além de ser descaradamente adepto ao lobby do agronegócio, duvida do aquecimento global e não entende absolutamente nada de ciência, já tendo, inclusive, defendido a “naturalização da jaca”.
Bem, em meio à podridão política, à minha notória descrença no país e na raça humana e à notícia de que o boto-cor-de-rosa está seriamente ameaçado de extinção, busco recuperar as forças revendo o excelente documentário HOME*. Dele resgato as últimas fagulhas de motivação para começar 2015:
“Temos muito pouco tempo para mudar.
Como este século carregará o fardo de 9 bilhões de seres humanos se nos recusarmos a assumir a responsabilidade por tudo que nós, sozinhos, fizemos?
[…]
É tarde demais para ser pessimista.
[…]
Na Coréia do Sul, as florestas haviam sido devastadas pela guerra. Graças a um programa nacional de reflorestamento, elas voltaram a cobrir 65% do país.
A Costa Rica não tem mais exército. Redireciona seus recursos à educação, ao ecoturismo e à proteção de sua floresta primária.
O Gabão é um dos principais produtores mundiais de madeira. Ele aplica o madeiramento seletivo: no máximo uma árvore por hectare.
[…]
É tarde demais para ser pessimista.
O importante não é o que se foi, mas o que permanece.
Nós todos temos o poder para mudar.
Então, o que estamos esperando?”
Assim…
Políticos que sobreviverem limpos e imaculados à destrutiva maré negra do Petrolão, inspirem-se nas boas experiências internacionais, tenham consciência de que este país herdou um elo importantíssimo para o equilíbrio ecológico mundial e inspirem outros povos com novos modelos de preservação. Que tal começar com o “Desmatamento ZERO” na Amazônia? Seria muita ingenuidade contar que vocês serão agraciados com visão estratégica e coragem suficientes para protagonizar a luta pela conservação do mais valioso patrimônio biológico do planeta?
Heróis e heroínas do dia a dia, não esperem os políticos deste país. Resistam ao pessimismo imobilizador e não desistam de transformar o “homo sapiens”, uma verdadeira usina de lixo que se reinventa a cada minuto para aumentar sua eficiência, em uma espécie capaz de conviver com outras e sem dizimar seu ambiente!
Quanto a mim, nada de heroico a declarar… Tentarei fazer a minha parte, inclusive indo às ruas se o gigante de junho/13 acordar enfurecido depois da letargia em 2014…
Enfim, como disse um certo sujeito chamado Gandhi: “Seja a mudança que você quer no mundo.” … Rumo a felizes anos novos num Planeta Terra habitável para as gerações que estão por vir!
* “Home” é um documentário lançado em 2009, produzido pelo jornalista, fotógrafo e ambientalista francês YannArthus-Bertrand. O filme é inteiramente composto de imagens aéreas de vários lugares da Terra. Mostra-nos a diversidade da vida no planeta e como a humanidade está ameaçando o equilíbrio ecológico. https://www.youtube.com/watch?v=jvXTCpwU_YA
**Ilustração: agradecimentos aos cartunistas Patrick Chappatte e Sid.
Sei que ninguém suporta mais as contendas políticas, mas antes de começar nosso bate-papo, preciso desabafar: EITA DOMINGOZINHO DE M…! Realmente a “nobre” missão democrática como mesária é a última coisa que gostaria de fazer nesta vida! Especialmente considerando os políticos admiráveis que foram eleitos…
Bem, mas vamos ao que interessa: para salvar o que restava do domingo (e controlar a agonia pra saber quem seria o líder máximo da nação), rumei rápida e rasteiramente para um banquete sem miséria. Afinal, eu merecia esse presente!
Chegando ao restaurante, fui vítima do fatídico interrogatório: “Você está sozinha?” seguido de “Não vem MESMO mais ninguém?”.
Toda mulher partidária do estilo “voo solo” de vida já sabe que chegar sozinha a um restaurante é encarar essa irritante aporrinhação.
Não sei o que mais nos azucrina: se a segunda pergunta (a primeira é plenamente justificável), se a palavra “mesmo” ou se é a cara de aflição do garçom. Seria um lamento por ocuparmos uma mesa inteira ou simplesmente uma reação de espanto involuntária por uma mulher jantando sozinha ser tão incomum quanto um ornitorrinco voador ou qualquer outro OCNI (“objeto comedor não identificado”)?
Pois bem, o motivo não interessa. Use esse incômodo em seu benefício! Especialmente em semanas como esta que sofremos uma overdose de ansiedade, revolta, descontentamento ou o seja lá o que for… Ou, então, simplesmente comemore o Halloween extravasando a bruxa que há em você! Quer conferir como? Veja alguns possíveis debates para seu puro deleite…
Debate 1:
Pergunta do Garçom: “Moça, você está sozinha?”
Resposta de Euzinha: “Sim. Só eu.”
Réplica do Garçom: “Não vem MESMO mais ninguém?”
Tréplica de Euzinha: “Meu caro, não queria lhe dizer, mas já que você perguntou… Voltei nesta semana da África, estou me sentindo mal com náuseas e febre e decidi evitar comer em casa com minha família. E se eu estiver com alguma doença contagiosa e passar pra eles? Assim, decidi comer longe das pessoas que mais amo…”
Debate 2:
Pergunta do Garçom: “Moça, você está sozinha?”
Resposta de Euzinha: “Procuro ficar o mais longe possível da mediocridade humana para que minha genialidade continue pura e intocável. [PAUSA DE EFEITO] E também por orientação do meu médico psicanalista.”
Debate 3:
Pergunta do Garçom: “Moça, você está sozinha?”
Resposta de Euzinha: “Como assim? Isso é alguma brincadeira? O meu namorado está sentado bem na minha frente! Você está cego?… E trate de lhe trazer um cardápio!”
No final do jantar, o derradeiro golpe de misericórdia:
Euzinha para o Garçom: “Você pode trazer a conta e a máquina do cartão? Meu namorado vai pagar. Ele é tão fofo, não é mesmo, ‘morzinho’?”
Vida de solteira convicta não é fácil… Duvida?
Para meus inimigos (e algumas pessoas que mal me conhecem), sou uma encalhada mal amada, uma mulher indecente, vaca profana dos infernos, egoísta petulante, candidata a destruidora de lares, puta fracassada, influência nefasta, abominável e inescrupulosa usurpadora da moral, dos bons costumes e da família… E por aí vai…
Para os mais renomados intelectuais (psiquiatras, antropólogos, sociólogos e todo o resto da “intelligentsia”), sou uma fraude, já que solteiras convictas não existem.
Aliás, um professor de filosofia (ex-peguete e provável integrante do meu grupo de inimigos) chegou a decretar que eu era a mais insensível “pessoa líquida” que ele conhecera.
Até aqui, sem neuras… O que esgota minhas energias é a luta para desconstruir a descrença dos meus próprios amigos não iniciados na arte de Solteirar.
Para eles, sou uma perturbada pobre coitada que ainda encontrará a “tampa da panela” e terá a grande satisfação de descobrir seu lado “materno e amoroso”. Além disso, acreditam que me realizarei com “cuecas pra lavar”. E o pior: muitos nunca perderam as esperanças em me converter ao “verdadeiro caminho da felicidade” (vulgo vida de casada)… Aff…
Dá pra acreditar?
Tudo bem, confesso: sou uma louca desvairada com alma de cadela desgracenta! E daquelas capazes de abandonar sua própria cria (delito que só não faz parte da minha ficha criminal por terem inventado a santa pílula anticoncepcional).
Pra piorar (se é que é possível), sou viciada. E na pior de todas as drogas: minha liberdade.
Das grandes ilusões mutuamente excludentes inventadas pelo homem – liberdade plena ou amor incondicional – acabei me encantando com a primeira. Fazer o quê? A liberdade é a mais harmônica alternativa ao meu individualismo crônico. Que culpa posso ter se a seleção natural gera indivíduos falhos?
Afinal, de acordo com uma sábia filósofa anônima das redes sociais, “toda panela tem uma tampa, mas o problema é que há frigideiras por aí”.
PS: Antes que você passe a complementar a lista de ofensas acima, confira alguns feitos pelos quais me orgulho e veja se muda de ideia sobre a minha pessoa: reconheço minhas maiores podridões; nunca enrolei os raros candidatos à outra metade da minha laranja, sugerindo-lhes que desde a mais tenra e alucinada paixonite encontrassem uma mulher que suportasse a tragicomédia do casamento; e, finalmente, não transmitirei meus genes FDP por aí. Você e as próximas gerações podem me agradecer por essa.
Ilustração: agradecimentos a Beto Barreiros.