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Natal de mentirinha

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A Lagoa Rodrigo de Freitas revela a árvore mais alta dos últimos anos, a Avenida Paulista incentiva a competição entre agências bancárias mais bem iluminadas e o Ibirapuera anuncia os dias de shows de suas fontes dançantes e coloridas.

Será possível que, com o tempo, o Natal e seu espírito comecem não mais em novembro, e sim tenhamos 10 meses de Natal?  Podíamos até imaginar que, pelo desenvolvimento do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas.

Assim como desejou Drummond, nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos e plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino e, veremos no desenho animado, o reino da crueldade transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, a betoneira com o sagui ou com o vestido de baile.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondências gentis, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores.

Com economia para os povos, desaparecerão suavemente classes armadas e semiarmadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior e outro interior, comunicando-se por um atalho. O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a universidade inclusive. E, será Natal para sempre.

Ah! Como seria ótimo se os desejos de Drummond se transformassem em realidade. Por que as árvores montadas com suas famílias e todo seu significado duram pouco e não 10 meses como sonhava o poeta?

Nesse ano meu pedido de Natal é que eu possa ainda viver um natal que não seja resumido a: euforia do consumismo incentivado pela obsolescência programada; momentos com a família – a família dos “bons costumes” e com comportamentos dissimulados durante a mesa; hipócritas caridades, benevolências e altruísmos; falsos respeitos, humildades e integridades.

 

Ilustração: agradecimentos a willtirando.com.br

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Paulista de 46 anos, estado civil volátil. Ex-executiva que cansou da vida escrava e resolveu ser atriz, escritora e filósofa nas horas vagas. Cursou Engenharia, Direito, Administração e tem MBA, mestrado, doutorado e o diabo a quatro, mas não recomenda a ninguém. Morou 4 anos em Londres, onde foi colunista em jornais e revistas locais. Provocadora e introspectiva, adora questionar o status quo. Escreve um pouco de tudo e pensa tudo sobre pouco.

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