Amores omissos
Aniversário de uma amiga em comum: Meu amor está chegando, me cumprimenta de forma discreta. Mantemos-nos afastados. E, quando a bebida e o álcool já nos deixam passar despercebidos para o resto do grupo, nos olhamos e conversamos timidamente sobre os próximos passos do roteiro da noite. Vou para o carro, espero por ela durante 15 minutos em uma esquina escura, a porta do carro se fecha e, enfim, partimos para algum lugar onde poderemos ser a verdade que somos.
Churrasco do trabalho: Ele chega de mãos dadas com a esposa. Aperta minha mão com firmeza, um olhar sedutor e, o máximo de contato que teremos será um pequeno esbarrão com um pedido de desculpas ou a oferta gentil de uma cerveja quando estivermos sozinhos próximos ao cooler. Nunca fico com os fins de semana, tenho de esperar as reuniões durante a semana ou algum almoço de negócios mais distante, para que nossa identidade possa ser revelada sem culpa ou vergonha.
Festa da faculdade: Chegamos juntas. Somos amigas. Dançamos. Bebemos. Percebo o assédio sobre ela. Sinto ciúmes. Bebo alguma coisa. Lembro como ela está linda! Sinto mais ciúmes. Nã o posso fazer nada. Bebo mais um pouco. Nossos pés cansam com o salto. Vamos ao lounge. É a prévia do contato que espero pelo resto da noite. Nosso Uber chega e vai em direção à paz que encontraremos por, finalmente, nos sentirmos bem da forma que somos.
E são tantas pausas entre a felicidade e o vício à normatividade, que não dá para reconhecer onde se é inteiro: se na realidade individual, opaca aos olhos alheios, ou na ilusão da imagem de um holograma fielmente prostrado às convenções.











