Neymar podia se chamar Luizinha
Mulher e futebol sempre combinaram. Pena que a sociedade brasileira, por vezes, não deixou e não incentivou. Luizinha que o diga.
Aos 5 anos de idade Luizinha era craque na vizinhança. Num grupo de meninos e meninas, ela era o grande destaque nas partidas de futebol. Aquelas partidas jogadas nos quintais das casas onde a trave do gol era de um lado um pé de goiabeira e de outro um par de chinelos Havaianas. Naquela época, bairro era chamado de vila e chuteira não existia; a gurizada jogava descalça.
Luizinha, que era canhota, se auto intitulava Júnior, lateral esquerdo do Flamengo. Naquele tempo áureo do Flamengo de Zico, Leandro e Adílio, ela crescia junto a seus irmãos, primos e vizinhos. Com todo seu talento, era uma exímia lateral, meio-campista e às vezes atacante. Magricela, muito ágil e habilidosa, dava vários dribles de caneta, fazia gols de cabeça e tudo que hoje assistimos nas seleções que ainda jogam o chamado futebol arte.
Mas Luizinha cresceu e, entre os 9 e 10 anos, começou a dar mais atenção aos comentários tradicionalmente arcaicos de seus familiares, os quais ela ouvia desde quando começou a compreender a lógica das palavras. “Menina não joga futebol. Tem que brincar de boneca”. “Essa menina tem que parar de jogar futebol logo logo. Fica chato”. Eis que então Luizinha, assim como várias Ritinhas, Mariazinhas, Patricinhas e tantas outras, parou de jogar bola.
O tempo passou. Luizinha estudou, terminou o ensino médio, passou no vestibular e continuava tocando sua vida já preestabelecida de jovem mulher padrão da década de 90. No segundo ano de faculdade, como brincadeira e como forma de socialização, participou do campeonato de futebol. Ali Luizinha, mesmo depois de tantos anos, não desaprendeu a arte de jogar e jogar bem. De novo, era a craque e agora artilheira do time. Depois, em campeonatos da empresa onde era estagiária também obteve o mesmo feito, com direito a medalha e tudo. Naquele tempo, não diferente de hoje, havia o preconceito e o incentivo ao futebol feminino brasileiro era precário e lastimável, para não dizer inexistente.
Hoje, para Luizinha, agora já Luiza, não há mais dribles. Não há mais gols. Não há artilharia, nem há mais chance de fazer parte do time de Marta e Cristiane. Resta a ela o prazer de prestigiar, torcer e comentar o Brasileirão. Resta colecionar figurinhas da Copa com o filho. Resta torcer por seu time do coração.
Mas, ainda sobra à Luiza a esperança de ver jogadoras serem bem treinadas e bem remuneradas, assim como lhe sobra o grande sonho de ver um dia o Brasil ser campeão mundial de futebol feminino.













Espetacular, Otávia! Esses “pré-conceitos” só nos desviam de nós mesmos… Também adoro futebol e os homens nunca se convencem disso!
Ótimo texto mesmo! Incrível como o preconceito pode aniquilar o talento de muitas Luizinhas… Se eu, só por GOSTAR de futebol, já viro motivo de zombaria dos meus amigos “machos”, imagine se quisesse JOGAR futebol…