O pornô que eu quero
Trabalhei 15 horas. Depois do tão esperado banho, só precisava de uma taça de Syrah¹e de uma diversão específica, para garantir que o sono fosse tranquilo: um extenuante orgasmo. Porém, já se foram 60 minutos, não encontro uma cena digna de mim e, infelizmente, meu sono vence o tesão. Boa noite.
O mercado erótico lucra comigo há alguns anos e apesar de realmente acreditar serem bem gastos os meus centavos, também preciso confessar o quanto o cinema ainda me decepciona.
A produção mainstream² representa mulheres plásticas, inertes, irreais. Vende cenas repletas de clichês que não encarnam as nuances e, principalmente, os valores da mulher contemporânea. Pela lente das câmeras, não passamos de um objeto fantasiado, sempre apto à sodomia e receptáculo de sêmen.
Além disso, a pobreza da direção de imagem minimiza o coito a um rotineiro exame
ginecológico. Não há prazer, não há entrega, não há troca. É somente o órgão sexual sendo testado minuciosamente e de forma escancarada, às mais diversas posições, anatomias de objetos e combinações com órgãos sexuais alheios.
Não à toa essas películas despertam nosso desinteresse, pois, apesar da crescente demanda feminina por produtos da indústria, nossa representatividade, no quesito direção e produção, está próxima de 3%.³
Por fim, há mais um ponto a esclarecer: não queremos mais um capítulo da novela das 21h. Quando surge, às vezes, algo propositalmente deslocado das cenas comuns, o play revela um brochante projeto de trepada gospel. Veja bem, o meu lado dama precisa de um pouco de sujeira para manter vívida a messalina que venho desenvolvendo. Ser mulher ainda me faz, apesar do anseio pela ascensão de conceito da produção pornô, desejar que ela preserve os seus subvalores.
Todos esses pontos são também reflexos dos tabus e estigmas do comportamento feminino. Ainda temos vergonha de assumir para nós mesmas os nossos desejos e encará-los como algo natural, assim, eles são tratados e retratados como uma não prioridade.
Essa figura nula, posta de forma ridícula em frente às câmeras, não configura nosso instinto sexual. A indústria pornográfica precisa saber trabalhar sob o ângulo que nós escolhemos reproduzir quando decidimos abrir as pernas e gozar.
¹ Syrah – https://pt.wikipedia.org/wiki/Syrah
²Mainstream – http://www.significados.com.br/mainstream/
³Ler mais em:
Pornô Pink
http://revistaglamour.globo.com/Amor-Sexo/noticia/2015/04/porno-pink-conheca-e-se-encante-pela-pornografia-feminista-dja.html












