Solteira sim e sozinha sempre que possível!
Minhas primeiras lembranças de infância remetem a ocasiões de fascínio desenhando e ouvindo minhas músicas prediletas… Sozinha no meu canto, claro…
Difícil imaginar quantos esboços cheguei a fazer já sonhando com as futuras tattoos e quantas horas passei isolada do mundo criando histórias em quadrinhos com personagens esquisitos.
Lembro-me perfeitamente como o espírito demoníaco tomava conta da minha versão garotinha desengonçada quando qualquer ser ousasse interromper meu sagrado templo de introspecção. A reação era um olhar tão ou mais assustador do que o da menina satânica do filme “O Chamado”. E essa acolhida calorosa produzia resultados consideráveis: poucos se obstinavam a me resgatar da imersão absoluta… O verdadeiro éden terreno que durava até ser interrompida pelos irmãos e primos, que pagavam caro por isso.
E nada mudou até hoje. Mas tranquilizem-se: atualmente moro sozinha. O perigo a terceiros intrometidos está sob controle. Também nunca abro mão de amparar os loucos minguados que desejam passar a noite comigo: eles são sumariamente ejetados do apartamento muito antes de correrem o risco mortal de me acordar ou de estar ao meu lado assim que o despertador tocar.
Viagens? Sempre que insisto no fatídico erro de tentar uma nova alternativa ou uma nova companhia, imediatamente prometo que da próxima vez será como sempre deveria ter sido: sozinha. Não há nada melhor do que uma viagem solo, inclusive para conhecer pessoas e aproveitar até o ponto em que isso é divertido.
Trabalho? A pataquada do “trabalho em equipe” é puro engodo de espertinhos “braços curtos” querendo distribuir (ou melhor: transferir) a responsabilidade para os que “se concentram”.
Esporte? Tudo bem, jogar e assistir futebol é um tesão em qualquer circunstância. Mas os individuais também não deixam a desejar…
As exceções: Os minutos de adrenalina coletiva e, principalmente, os encontros com as grandes amigas e amigos. Esses têm direito de me interromper sempre. Especialmente porque eles me conhecem e sabem que não posso abster-me por muito tempo do isolamento.
Só os evito nos eventos com vários casais, festivais da dissimulação em que não se ouve uma frase sequer conectada com o que é dito pelas(os) amigas(os) quando desacompanhadas(os) dos respectivos cônjuges. Odeio participar de processos seletivos para escolher o melhor casal representante dos comerciais de margarina, o marido mais “macho” e a mulher mais zelosa. Ineditismos são raros, inclusive quando surge alguma briga que, aliás, também segue rigidamente os roteiros permitidos: futebol e política para homens, maridos descuidados, ciúmes bobos e as dificuldades em lidar com os pimpolhos para as mulheres. Evito essas interações para manter a pressão arterial em seu devido lugar e o fígado pronto para os encontros que valem a pena.
Medo de ficar sozinha? Nem um pouco. A propósito, nem temo os fantasmas que, apesar de não serem camaradas, nunca tiraram meu sono.
E morrer sozinha, como fica? Na prática, se você não “bater as botas” sozinha, muito provavelmente morrerá numa catástrofe. Em situações normais de temperatura e pressão, estaremos sozinhos no instante do último suspiro. Em muitos casos até incomunicáveis. Por outro lado, considerando a perspectiva “cuidados na decrepitude”, mesmo que você esteja casada hoje, até seus momentos derradeiros você poderá estar divorciada ou viúva (aliás, o cenário mais provável para as mulheres, que “duram” um pouco mais do que os homens)… E, mesmo com filhos, nada garantirá que eles cuidarão de você ou que você aceitará se transformar numa tortura para eles. Enfim, não há muito por onde se safar…
Para mim, pior do que a morte é me tornar uma incapaz e não mais conseguir “ficar sozinha”. Esse sim é o meu maior pesadelo. Prefiro mil vezes estar a sete palmos do chão…
E, finalmente, antes que vocês me perguntem, lá vai: nem quando o vírus da demência me infectou resisti ao isolamento por muito tempo. Solidão, vício incurável…
Afinal, eu só quero e eu só penso em Solteirar…













Adorei!!!! Solteira sim e sozinha tb! DELICIA!