Comédias da Vida Solteira – Episódio II: “A Rota dos Amantes Perfeitos”
Ultimamente, um dos meus esportes prediletos quando estou em terra firme tem sido deslizar com minha possante.
E, se a viagem é nas imediações de São Paulo, divirto-me decidindo a rota só depois que começo a acelerar. Excentricidade? Nunca escondi minha birutice. E, cara leitora, a esta altura do Solteirar, isso nem deve ter lhe surpreendido.
Num dia desses, ao voltar da casa de uma amiga, decidi dar um “rolê” no meio da madrugada. Da Vila Mariana para qualquer lugar da cidade.
Normalmente, escolho a rota num piscar de olhos. Desta vez, a estranheza ultrapassou seus limites e aquela esquina despretensiosa no Paraíso escolheu por mim.
Aguardava o sinal abrir para continuar minha jornada sem rumo quando um prédio desgastado à minha esquerda convidou-me a experimentar um “déjà vu”. Observei atentamente o 5º andar. Ou seria o 6º? Já não me lembrava muito bem. Num dos apartamentos, a luz estava acesa, mas sem movimento aparente. Especialmente o tipo de movimento que costumávamos protagonizar naquela sala. De qualquer forma, fazia muito tempo. E ele já não deveria mais morar ali.
Com certeza, foi um dos caras que mais gostou de mim. Eu também o adorava. Não sei bem se pelo jeito que ele me tocava ou pelo jeito que ele tocava sua guitarra…
Enquanto devaneava com os sons da antiga intimidade, a rota daquela madrugada definiu-se quase que por vontade própria: seria uma excursão pelos palcos paulistanos dos meus amantes perfeitos.
A caminho do Pacaembu, no “sobe e desce” das ruas, a lembrança dos entusiasmados embates “intelectuais” com o professor da PUC que inevitavelmente acabavam em volúpia acalorada…
Dali, parti para diferentes cantos da cidade e da minha memória…
Desconhecidos, loucos de pedra, artistas, mulheres extraordinárias… Lembranças divertidas, confesso… Muitos nunca souberam meu verdadeiro nome (inventar pseudônimos é mais uma de minhas excentricidades)… Outros me emprestaram suas paixões, como o aventureiro que me ensinou a pilotar motos e o inconsequente que não resistiu aos apelos para me transformar numa base jumper…
Depois de alguns quilômetros por histórias alucinantes, finalmente parei em frente à antiga casa de um grande amigo que, infelizmente, decidiu convencer-me a abortar minha vida bandida. Acabei bravamente resistindo ao sexo por nossa amizade. Resultado? Perdi o amigo sem nunca experimentar o amante. Pena, porque ele me alegrava como ninguém.
De qualquer forma, nesta inacabada rota pelas aventuras acabadas, encontrei amantes perfeitos, com ou sem sexo. Afinal, a condição para transformar um amante sedutor em um amante perfeito é exterminá-lo de sua vida.
A história dos amantes só é arrebatadora quando termina.
Mais um insuperável espetáculo da vida: seguir sua jornada de aventuras sem destino, seduzindo novos amantes predestinados ao repentino, irreversível e libertador abandono.
Louca ou ninfomaníaca? Simplesmente solteira “da gema”.










