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Brasil

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Nocauteados. Nós brasileiros fomos à lona nesta semana. E, estatelados no chão, estamos ainda por decidir se há força suficiente para nos levantar antes de finalizada a contagem regressiva.

A diferença é que, desta vez, o golpe foi indiscriminado: todos foram abatidos… Azuis, vermelhos, verdes… Esquerda, direita, vias alternativas, indecisos… Pró ou contra a reforma da previdência… PSDB, PMDB, PT…

Depois de uma crise sem precedentes e que colocou à prova a esperança dos mais otimistas, chegamos a supor recentemente que já estávamos avistando uma luz no fim do túnel.

Doce ilusão… Bem no lugar que presumíamos ser o fundo do poço, esbarramos em um buraco que nos arremeteu ainda mais abaixo, e num mar de lama movediça…

Quase sufocados nesse mar de lama a perder de vista, resta-nos elucubrar… Há grupos econômicos neste país que não se valeram da corrupção para chegar aos bilhões? Há políticos com influência que sejam incorruptíveis?

Difícil de acreditar…

E a lista de acontecimentos que desafiam nossa imaginação (e nossa crença na raça humana) não para de crescer:

Difícil não cair duro ao saber quanto o BNDES chegou a investir no grupo mafioso JBS e quanto o mesmo grupo, para retribuir todos os “favores” recebidos, “investiu” na política…

Impossível conceber, a esta altura da Lava Jato, que Lula nunca soube de absolutamente nada sobre o esquema de corrupção que tomou proporções estratosféricas em seus governos…

Quase impossível imaginar que a conversa entre os comparsas Joesley Batista e Aécio Neves tenha sido real e não extraída de um roteiro de filme de gângsteres…

Difícil de segurar o vômito ao ler a carta do presidente do grupo JBS se desculpando com o povo brasileiro pelos crimes de corrupção “apenas praticados no Brasil” e reforçando os “valores éticos” de suas empresas. E a carta foi divulgada enquanto ele fazia compras em Nova Iorque…

Difícil não querer explodir Brasília depois de ouvir que Michel Temer, mesmo tendo sido vergonhosamente desmascarado apoiando um criminoso da pior estirpe, ainda insista em ficar no poder…

Enquanto isso, nossa economia continua na UTI, nossa educação continua em frangalhos, e concorrendo à posição de “pior do mundo”, e o desmatamento de nossas florestas explodiu para dar mais espaço à criação do gado que enriquece corruptores como Joesley Batista (provavelmente também envolvido na compra de políticos e fiscais que poderiam impedir esses crimes hediondos)…

Talvez a grande maioria da população tenha aprendido, finalmente, que super-heróis salvadores de uma nação só aparecem nos quadrinhos e nas telas de cinema. Mas, os vilões… Ah… Esses sim existem às pencas e com um poderio de fogo que, até quarta-feira passada, nem a ficção ousou imaginar.

Assim, para sempre órfãos de salvadores e já sem energia para salvarmos a nós mesmos, resta-nos apostar que a Lava Jato, o que ainda funciona nas instituições brasileiras e a Constituição nos livrarão da ruína até que novas eleições diretas (sabe-se lá quando) nos deem a chance de expurgar a maior parte da metástase cancerígena que impregnou nossa política.

E que tenhamos tempo – e disposição! – para reverter a triste transformação do Brasil em Venezuela.

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Confesso, o hino nacional me emociona. Quando ainda estava no colégio, nos reuníamos diariamente em direção à bandeira para entoá-lo com a mão no peito. Lembro-me também que no auge da minha fase atleta, seu timbre abria nossos jogos ou coroava o resultado. Bom, não sei exatamente o que me deu sabor para trovar essa mesma letra manjada, mas para mim, cada vez que o ouço é diferente.

Não foram os hinos que me deram a clareza do país em que eu vivo, mas sim, as viagens que fiz desde muito jovem com meus pais e me deparei com a pobreza; as manchetes nos veículos de notícia, que ora camuflavam as verdades, ora maquiavam mentiras; e, por fim, o povo, e considero como povo desde os executivos que pagam um carro popular de impostos todos os meses até os que não pagam nada e passam fome todos os dias. Afinal, são vítimas do mesmo algoz: a má administração pública.

Deste modo, entendi que o que compõe o Brasil está aquém de um conjunto de belezas naturais e toda essa “baboseira” de país tropical. Percebi que o Brasil é um complexo de diferença, desigualdade e ignorância. É claro que essa conclusão é trivial e algumas pessoas veem nessas características ótimas oportunidades de praticarem o autobenefício, assim, nos tornamos uma pátria historicamente saqueada em todas as direções.

Quando as pessoas decidiram ir às ruas, acreditei que surgiria outra nuance da face brasileira, talvez uma menos separatista que aquela exposta no resultado das últimas eleições ou uma menos ingênua que nos movimentos de junho de 2013. Uma com a simples preocupação de ajudar o país, de resgatar a economia, de reduzir desigualdades, e que estivesse realmente empenhada em transformar esse projeto de fezes que vivemos em uma DEMOCRACIA mais justa. Mas, na contramão de tudo, assisti alguns dizeres e pedidos, sim foram PEDIDOS, de intervenção militar!

Isso é mais que um acesso de ignorância, é um carnaval inteiro de burrice!

Duas coisas me preocupam nesse levante: a primeira está relacionada às diversas colocações que observei sobre posicionamento político. A minha leitura é que na maioria das vezes existe um desejo de catastrofismo disfarçado de crítica solucionadora, uma necessidade de encontrar algo que corrobore a própria razão e um contínuo exercício de apontar mais erros do que saídas. A segunda é que toda essa energia se torne obsoleta por não termos clareza do que queremos e das consequências que podem surgir do nosso clamor. OBSOLETO! Este não será o cenário de um gigante adormecido, embriagado ou qualquer outra coisa, mas sim a confirmação de uma colossal INCOMPETÊNCIA!

Posso até estar errada, mas não gosto de mensagens separatistas, não fui apresentada ao governante dos sonhos que aparecerá após o impeachment e ainda não me ficou clara que parte da liberdade de expressão está tão ruim para MANIFESTANTES!

De quem é a voz que estamos ecoando? Nessa marcha pelo Brasil, será que realmente entendemos que entoar o hino nacional em uníssono é falar por si próprio e por todos os outros? Existe um viés de identidade nesse processo e precisamos reconhecer um fato: lutar pelo país é enxergá-lo sem fronteiras, seja pra terra ou seja pra gente.

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Semana passada, assisti a um filme de Woody Allen, da década de 70, chamado Bananas.

Ele se passa num lugar fictício chamado San Marcos, e tanto o título como o tema do filme me fazem relembrar de um conceito que ouvia muito quando criança (seja em rodas de conversa dos mais velhos ou por uma antiga marca de roupas americanas).

República de Bananas. Um termo pejorativo criado no início do século 20, para referir-se a países politicamente instáveis, submissos a outros países e sempre com governos corruptos.

Geralmente localizados nas Américas Central e do Sul, possuem uma economia basicamente exportadora de commodities com ínfimos incentivos e investimentos ao desenvolvimento industrial e tecnológico internos.

Quanto ao aspecto social, normalmente apresentam uma grande classe de miseráveis e uma pequeníssima elite, detentora do poder político e econômico, explorando tudo a seu favor e alimentando a corrupção.

Traduzindo esse conceito para os tempos atuais, falamos de um poder altamente concentrado no governo central, dominado por uma patota que transforma a coisa pública em “cosa nostra”. Uma instituição que distribui privilégios aos “amigos do rei”, enquanto espalha custos, especialmente sobre uma classe esmagada pelos impostos e sem representação política. Ou melhor, uma classe politicamente representada por palhaços, jogadores de futebol e homofóbicos.

Tradicionalmente, uma república nasce da insatisfação com as ações econômico-sociais da monarquia. No Brasil de 1889, a insatisfação maior residia no alto índice de analfabetismo e pobreza. Passados mais de 120 anos, estamos na mesma.

Um modelo republicano pressuporia um modelo mais democrático, justo e igualitário. Já numa República de Bananas, acostuma-se com termos como mensalão, ditadura e compra de votos.

Postos todos esses conceitos (originais ou mais modernos) sobre República de Bananas, até uma criança não teria dificuldade de concluir que a fictícia San Marcos de Woody Allen poderia se chamar Brasil.

 

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Desde que se iniciaram os horários partidários ficou clara uma coisa: não entendemos política. E não porque não sabemos o Manifesto Comunista de trás para frente ou porque pouco nos dedicamos à macroeconomia. O problema é a dificuldade intrínseca que temos – população e políticos – para PENSAR as coisas COMPLEXAS de forma COMPLEXA.

Para os pleitos aquém da presidência, como se dotados de uma sutil malandragem, votamos de maneira completamente estúpida: sem critério, sem análise, sem saber a atuação de cada esfera. O foco no 1º turno foi destinado para presidenciáveis eloquentes em ludibriar reformas ou com habilidade extrema em escarrar nas nossas fuças discursos politicamente primários. Consequentemente, tropeçamos em um 2º turno com a certeza de que, fosse quem fosse, estaríamos elegendo alguém que não nos representa.

Findos os capítulos da novela das margens de erro, não nos consolamos! Mas, sim, disparamos ideias separatistas e xenófobas, esquecendo o grau de exploração que AMBOS vivemos TODOS OS DIAS quando somos usurpados pelas diversas cúpulas de poder político e econômico a que estamos submetidos.

E, das discussões políticas: li discursos inflamados na defesa de um candidato; vi críticas ferrenhas às opiniões opostas e a quem não tem opinião; vi desejos de expatriação; vi tristeza e chacota. Por favor, não sejamos mais ridículos! Se nós honramos nosso esforço diário e exigimos uma qualidade ímpar nos serviços que prestamos e daqueles que terceiros nos prestam, sabíamos que não havia BONS candidatos de verdade! A crise política aqui é ser um povo OBRIGADO a votar e não ter opções dignas! Todos nós passamos por semanas de terapia frente ao espelho para convencermo-nos de que vamos optar pelo “menos pior”.

Apesar de todo o blá, blá, blá veiculado, não houve um só argumento soberano, o que fizemos foi encontrar uma desculpa que nos movesse em direção a algo que nebulosamente honrasse qualquer coisa a que dedicamos esperança. Abaixem esses dedos imponentes uns ao outros, ergam a cabeça, vão às ruas! Quando há 52% de escolha está claro que há 48% de desaprovação, a mensagem está dita! Cessem essa transferência de culpa, porque se tem uma coisa que TODO mundo deseja é um amanhã melhor – seja por uma visão altruísta ou por puro egoísmo – e, apesar dos pesares, o que se busca incessantemente é algo que dê suporte às nossas utopias cotidianas.

Somos agentes e sobreviventes de pequenas corrupções diárias e, agora, feridos pelos resultados das urnas. Vamos parar com essas lágrimas hipócritas, afinal, não é só o presidente quem tem que carregar a marca da mudança.

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Tudo em vão. Passado pouco mais de 1 ano de uma das maiores manifestações não partidárias que já presenciei no país, chegamos ao fim. Triste fim. Domingo menor.

No último domingo, ainda que do outro lado do Atlântico, lá estava eu na expectativa. Em Katmandu, a exótica capital do Nepal, a internet de um hotel já meio decadente não pegava de modo algum. Apelei para o WhatsApp, onde os amigos iam me atualizando. De repente, com um pouco de sorte (ou, a essas alturas, azar) consegui acessar o Face. Nele me deparo com várias mensagens e manifestações de “luto”, ” vou sair do país” , “separação sul-sudeste já” e assim por diante.

Pronto. Acabou. Fim de papo. Eu não precisava mais lutar contra o login e senha para acessar a internet. Saber em qual estado o Aécio perdeu ou qual percentual de votos ele obteve era curiosidade menor para alguém já desiludida.

Lembrei-me da época do colegial, em que uma pequena manifestação, um tanto quanto desorganizada, surgia na Avenida Paulista na tentativa de promover a saída do então presidente Collor. O jovem promissor, que aos poucos foi mostrando sua cara de inexperiente, de corrupto e muito mal assessorado por PC, Zélia, Magri, Cabral e companhia. Mas aquelas manifestações de jovens caras pintadas já eram algo pós-fato. Collor já havia caído praticamente sozinho.

Após 20 anos, julguei que nós havíamos aprendido ao menos discernir um candidato com boa intenção de outra candidata atuando por um grupo manipulador e corrupto, bem como usuária do poder pelo poder; o poder per se. Mas, infelizmente, ainda somos um país pobre, mal instruído e com todas as mazelas de um país emergente para poder fazer tal discernimento.

De um lado, uma grande parte pobre que vive do assistencialismo e, de outro, uma classe média alta que quer o desenvolvimentismo, mas que é também uma classe egoísta e que ironicamente finge de vez em quando fazer algum tipo de assistencialismo. Esse último lado, muito provavelmente sou eu e é você, caro leitor. Uma classe pouco politizada e pouco participativa nas questões sóciopolíticas brasileiras. Achamos que agora a solução é mudar de país e basta.

Mas não. Não vamos sair do país. Agora, mais do que sempre, devemos ter clareza de que temos mais uma chance nessa década. Há ainda uma Petrobras e um doleiro – espero que esteja vivo – no calcanhar da dona presidenta.

E há uma palavra que aprendi naquela época do colegial com o Collor: impeachment.

Solteirando pelas redes sociais