Minha mãe é do tipo que quando liga, pergunta se está tudo bem, dá a benção e desliga, se limitando a chamadas que duram não mais que 30 segundos. Em nossos encontros faz uma oração e não lamenta a despedida. É do tipo que sente saudade, mas se conforta com uma frase: Estou bem.
Os anos passaram e lhe trouxeram, além de sabedoria, um toque especial de modernidade – passou a defender a liberdade sexual e o uso contínuo de tecnologia. Certamente, também gastou tempo criando expectativas comigo, assim como criou com meu pai e com todos os outros campos e pessoas da sua vida, mas nunca a vi vencida pelas frustrações e soube lidar até mesmo com as ilusões que criou sobre si mesma. Dessas pequenas vitórias cotidianas construiu uma coleção de ensinamentos, que exemplifica com sua própria amostra de acertos e erros.
Confesso que, quando tinha pouco tempo de habilitação, dirigia temerosa, sempre na faixa da direita e me encolhia a qualquer aproximação de caminhões. Uma vez, em uma carona despretensiosa, minha mãe ordenou que eu me apossasse da área a minha esquerda, proferindo algumas palavras motivacionais e dois alertas: esteja firme com seu acelerador e fria ao compartilhar o espaço com gigantes.
Recorro a essa memória com certa frequência e a emprego em outras situações da minha vida, pois aquela mulher, na época ainda sem habilitação, me mostrou que não existe coragem pra quem não tem medo e que não importa como você anula seus temores, mas sim, como os administra.
Hoje não é O DIA das mães, aquele do comércio, que só nos permitirá reflexões sobre o relacionamento materno em maio do próximo ano. Ainda assim, olhei para minha mãe e entendi o quão importantes foram seus abraços continuamente disponíveis nessa janela de tempo, mas, mais do que isso, reconheci que foram seus impulsos de liberdade e coragem que realmente me transformaram nesta mulher que me tornei: o espelho de uma heroína.
Um dia te vi chorar
Brinquei, pulei e gargalhei
Só para te agradar
Um dia te vi sofrer
Bater, esconder e correr
Para eu sobreviver
Por anos te vi lutar
Briguei, busquei e errei
Só para te completar
Por anos te vi viver
Escolher, permanecer e obedecer
Para me ver crescer
Sempre te vi amar
Cresci, vivi e aprendi
Só por te contemplar
Sempre te vi envelhecer
Conter, fazer e dizer
Para eu amadurecer
Hoje vivemos e cantamos
Sorrimos, brincamos e dançamos
Só para dizer uma para outra
O quanto nós nos amamos
Ser mãe é mesmo um desafio, mas também um grande aprendizado. A cada dia que passa, aprendo com minha filha que o mundo pode ser melhor do que a forma que eu o vejo.
Ao longo dos anos, nossas experiências nos enchem de desconfianças e acabamos reagindo rapidamente a qualquer sinal de perigo, onde nem fumaça existe, quanto mais o fogo.
No mundo infantil, tudo é visto por uma mente aberta e criativa. Participar da vida de uma criança me permite descobrir que a vida pode ser mais simples.
Esta semana minha filha, de 6 anos, fez uma lista de suas melhores amigas. Nesta lista, o nome dela estava incluso. Quando questionei o que seu nome fazia nesta lista, ela me explicou que se considerava uma de suas melhores amigas. Os adultos esquecem de ser melhores amigos se si mesmo. Quantas vezes não fazemos coisas que nos desagradam para agradar ao outro?
É incrível o quanto podemos refletir, quando entramos no mundo infantil. E entrar neste mundo, requer não só amor, mas também disponibilidade e paciência. Como conseguir acompanhá-lo, tão cheio de novidades, se temos que trabalhar, estudar, cuidar da casa, praticar atividades físicas, manter nossos relacionamentos amorosos, nossa vida social e nossos compromissos?
O segredo é participar. Não basta estar ao lado de seu filho, sem observá-lo, sem escutá-lo ou sem questioná-lo. Sem interação, não existe troca de experiências. Sem diálogo e observação, não há aprendizado, nem para você, nem para ele.
Assim como os adultos reagem de acordo com suas experiências, as crianças transmitem suas vivências em suas brincadeiras, pinturas, diálogos e rotinas.
Procure participar ativamente dos momentos que estiver ao lado de uma criança e descobrirá um universo muito rico. Brinque com seu filho e com os colegas dele. Troque experiências com as outras mães. Participe das reuniões de pais e mestres, como questionadora e não como frequentadora.
Enfim, não seja apenas uma mãe presente. Seja participativa, e descobrirá um mundo cheio de oportunidades para você e seu filho crescerem juntos.