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gloria feler

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Sem revelar a intimidade daquelas que já se instalaram sob a atmosfera de meu consultório, quero passear por uma das vicissitudes que nele mais se hospedou: o transtorno do desejo sexual hipoativo feminino.

De forma simplificada, este transtorno leva à diminuição ou à falta de fantasias sexuais, inibe a libido e faz com que a pessoa deixe de ter relações. Atualmente, ocorre com uma proporção considerável das mulheres – por volta de 26% da população brasileira – e se dá por fatores orgânicos, farmacológicos, psicológicos, relacionais e/ou culturais¹. As situações a ele concernentes são heterogêneas e vão desde dificuldades para ter relação com um parceiro fixo até a vivência de um longo período de abstinência sexual. Os tratamentos são variados e consideram os elementos situacionais, bem como, o perfil do paciente².

Mas, o intuito aqui não é entrar nos pormenores da patologia. Nem mesmo destrinchar as estatísticas geográficas de sua incidência. O fato é que presenciei com certa recorrência, discursos sobre este tema que quase sempre significavam: insegurança, sentimento de culpa e forte apego a mitos. Entendi, por fim, que muitas mulheres simplesmente desconhecem a própria anatomia. E o que vejo passear de forma assídua em minha sala é o retrato do descarte e da rejeição com relação ao conhecimento do corpo, porém, na forma de súplica de resgate.

Pensemos.

O corpo é um contínuo convite. Uma provocação incessante. Um campo de atração. É um eterno ir e vir de sensações, desde a dor algoz até o estremecer de prazer. Quanto tempo se espera até o sucumbir de seus ímpetos? Quantas vezes exercitamos um desejo sexual sem culpados, discordâncias ou critérios de desempenho? Quantas vezes nos proporcionamos um encontro com a nossa própria intimidade? Quantas vezes vivemos um desfecho de lençóis bagunçados e um único eco de sussurro?

Não é necessário ser perito no assunto para deduzir que a carga moral aplicada à conduta sexual feminina atua como um catalisador dessa notória passividade com relação ao próprio sexo. Conheci, repetidamente, monstros de natureza psicológica que foram encorajados a participar da vida sexual de mulheres que jamais reservaram um tempo para pensar sozinhas sobre o assunto e entender o que lhes dava prazer. Áreas erógenas, situações eróticas ou fantasias: nada foi estudado. Um infográfico do Happy Play Time³ revela que com certa frequência as mulheres relacionam a prática da masturbação com sentimentos de culpa ou vergonha e que, aproximadamente, 47% fazem o exercício menos de uma vez por mês no período de um ano – trivialmente a classe masculina é mais aplicada neste tema.

Iniciar uma vida sexual conjunta sem mesmo conhecer a própria nuance pode levar a uma visão frustrada de si mesma e do parceiro. Esse sentimento muitas vezes cria um processo de transferência de responsabilidade, culpando o outro pelos resultados insatisfatórios ou tomando para si essa carga. Nenhuma das implicações é justa, pois referimo-nos a mulheres que são nada mais que uma reserva de emoções inexploradas. A vivência de uma sexualidade aberta e íntima a si própria não é exatamente a cura para disfunções sexuais – que podem ser, inclusive, de ordem fisiológica. Essa sensibilidade com relação ao próprio sexo é muito mais uma medida profilática de agruras que podem surgir.

O autoconhecimento sexual é a porta que determina o que será reconhecido como deleite e o que traduz violação, na dimensão de cada indivíduo. Significa segurança para entregas e abertura para novas sensações. Sintonia com o próprio corpo e empatia com o alheio. Por isso, deixo um convite para a transcendência dos próprios sentidos. Uma pausa para apreciar os próprios detalhes. É momento de quebrar tabus. De espantar os monstros que nos atormentam, por meio de murmúrios acalorados. É momento de tocar-se: corpo e alma!

¹ http://www.psicnet.psc.br/v2/site/temas/temas_default.asp?ID=1846

²Converse com um especialista.

³ http://happyplaytime.com/infographic-the-secret-lives-of-vaginas/

Um pouco de diversão e aprendizado: http://happyplaytime.com/

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Sinto esta mulher. O tato. O arrepio. A minha pele.

Prolonga-se o negro nessa cena atemporal.

São sons que coexistem.

São retratos de possibilidades não exaustivas que se tocam, se confundem e se alinham.

Enlaçam-se o real e o seu complemento.

Na utopia do desejo, já sedenta, a flor se abre…

Esvai-se. Transborda. Falece. Renasce.

É o fim, mas os sons coexistem.

O silêncio se faz, ainda que os gritos não cessem.

Não sabemos, mas na verdade estamos surdos.

Solteirando pelas redes sociais