Para os outros 364 dias das mães
Minha mãe é do tipo que quando liga, pergunta se está tudo bem, dá a benção e desliga, se limitando a chamadas que duram não mais que 30 segundos. Em nossos encontros faz uma oração e não lamenta a despedida. É do tipo que sente saudade, mas se conforta com uma frase: Estou bem.
Os anos passaram e lhe trouxeram, além de sabedoria, um toque especial de modernidade – passou a defender a liberdade sexual e o uso contínuo de tecnologia. Certamente, também gastou tempo criando expectativas comigo, assim como criou com meu pai e com todos os outros campos e pessoas da sua vida, mas nunca a vi vencida pelas frustrações e soube lidar até mesmo com as ilusões que criou sobre si mesma. Dessas pequenas vitórias cotidianas construiu uma coleção de ensinamentos, que exemplifica com sua própria amostra de acertos e erros.
Confesso que, quando tinha pouco tempo de habilitação, dirigia temerosa, sempre na faixa da direita e me encolhia a qualquer aproximação de caminhões. Uma vez, em uma carona despretensiosa, minha mãe ordenou que eu me apossasse da área a minha esquerda, proferindo algumas palavras motivacionais e dois alertas: esteja firme com seu acelerador e fria ao compartilhar o espaço com gigantes.
Recorro a essa memória com certa frequência e a emprego em outras situações da minha vida, pois aquela mulher, na época ainda sem habilitação, me mostrou que não existe coragem pra quem não tem medo e que não importa como você anula seus temores, mas sim, como os administra.
Hoje não é O DIA das mães, aquele do comércio, que só nos permitirá reflexões sobre o relacionamento materno em maio do próximo ano. Ainda assim, olhei para minha mãe e entendi o quão importantes foram seus abraços continuamente disponíveis nessa janela de tempo, mas, mais do que isso, reconheci que foram seus impulsos de liberdade e coragem que realmente me transformaram nesta mulher que me tornei: o espelho de uma heroína.










