Pequenos prazeres
Não é por nada, mas com qual intensidade as metas que criamos para alcançar um sucesso idealizado nos têm usurpado dos pequenos prazeres da vida?
Abdicamos diariamente da liberdade dos pés descalços pelo requinte e formalidade dos saltos agulha. Almoçamos as atividades que não couberam nas outras 14 horas de expediente e voltamos ao escritório para assistir reuniões de puro engodo.
Reforçamos uma imagem incorruptível e de excelência. Mas, quanto se vive enclausurada no armário? Quanta sede dissimulada por pequenas doses? Quanta opinião em silêncio? Quanta maquiagem retocada?
Dormimos na exaustão das metas até que o despertador nos convoque para sermos a protagonista na fábula de outro slide. Caminhamos como sobreviventes até que a sexta-feira chegue e, com ela, a prerrogativa de poder extravasar nossa crise crônica consumindo o ócio.
Não namoramos durante a semana. Não saímos para dançar. Não vamos ao estádio ver o “timão”.
O algoritmo da rotina nos faz flutuar do apartamento ao carro e do carro ao escritório com pequenas pausas de ambiente sem ar-condicionado. Ao volante, qualquer percurso é de exaustão, as buzinas não nos deixam ouvir o rádio nem os nossos pensamentos.
É um laço, é uma corrente, e também somos um elo para que o ciclo recomece.
É preciso ter ímpeto para fugir dessa cadeia. É preciso dizer sim às aventuras que ficam do outro lado da fronteira cotidiana. É preciso mudar a rota que nos tira e nos devolve ao lar. Alguns dias é preciso por a cara na janela para respirar a vida.










