Hoje almocei com Helena. Ela estava se sentindo na pior por ter alcançado seus 30 anos.
– Eva… não sei mais o que eu faço… o que eu estou fazendo com a minha vida?
Helena começou a calcular, precisava urgente de um namorado. Precisava de tempo suficiente para namorar, para receber um pedido de noivado e então organizar o casamento de seus sonhos. Precisava de mais alguns anos para conviver a sós com ele, no futuro apartamento e, então, ter filhos. Seu relógio biológico ou, porque não dizer, a bomba-relógio que transformava seu útero, estava apitando e, a qualquer instante, sua incompetência em conseguir “um amor” a condenaria eternamente ao “encalhamento” e, a tragédia das tragédias: morrer sozinha.
– Lena, pense… você sente mesmo a falta de um namorado com a vida que você tem hoje?
Helena está muito bem, é bonita, financeiramente independente, cercada por amigas e amigos, cheia de hobbies, mas se angustia ao pensar em um dia se arrepender e se descobrir velha e só.
Enquanto conversávamos, me questionava sobre a velha receita da minha amada vovó Bernarda. “Se você não quiser morrer sozinha, arrume um homem antes dos 20 e tenha filhos antes dos 30.”
Pedimos a sobremesa: pudim de leite. Essa receita com certeza nos faz falta. A deliciosa receita do pudim de leite da vovó Bernarda!
Imagem: agradecimento ao naminhapanela.com
É impressionante como ainda se rotula a mulher solteira como uma pessoa sozinha e coitada. Espanta-me a confusão de conceitos de quem não consegue assimilar a diferença entre pessoa não casada (solteira) e pessoa solitária (sozinha).
Ser solteira não implica em ser uma pessoa incapaz de se relacionar, ou seja, nem toda solteira é destinada à solidão, assim como nem toda pessoa solitária é solteira. Dizer que solteira é sinônimo de mulher sozinha é ignorar que existem familiares e amigos que podem completar a felicidade e as relações da pessoa.
Houve um tempo em que a mulher só saía da casa dos pais acompanhada de um marido, e dele iria depender de todas as formas: emocionalmente, juridicamente e financeiramente. Era inaceitável uma mulher morar sozinha ou ter uma renda maior que alguns homens, e quem diria, ter direito a sexo casual. Sua educação era focada na constituição de uma família e na educação dos filhos, e nem estamos falando de um passado tão remoto assim… Quem não se lembra de quando a mulher usava o CPF do marido?
Esse tempo passou e parte da sociedade ainda não assimilou a mudança. Ainda não se consegue aceitar que uma mulher pode ter a companhia masculina por uma noite, ou várias, sem querer um compromisso. Para alguns, ainda é inadmissível que a mulher não dependa do macho dominante para ser feliz.
Outro dia, ouvi o desabafo de duas amigas solteiras: “Só quero alguém para dividir o balde de pipoca”, disse uma delas ao se referir à sua amizade colorida com quem assistia filmes no sofá, mas com quem não precisava dividir problemas. “Não preciso de um sócio para a minha vida”, disse a outra após receber a proposta de um namoradinho para comprarem juntos um apartamento só para investimento. O que elas têm em comum? Elas não precisam de um homem para dizer que não estão sozinhas, para conseguir ter um patrimônio ou para dividir problemas. Querem pessoas que estejam ao seu lado para bons momentos, já que para o resto, existem planejamento financeiro e terapia.
Por vezes, ser solteira é mesmo uma opção definitiva, enquanto por outras, ser solteira é uma fase em busca do grande companheiro para a vida toda. De qualquer forma, estar solteira é poder exercitar a liberdade de escolha e não estar atada às decisões mútuas do casamento.
Seja qual for o seu estilo, o que importa é viver intensamente as relações e os momentos da sua vida de solteira e acima de tudo, se curtir. Afinal, quem resiste à companhia de uma pessoa confiante e divertida?