Não é por nada, mas com qual intensidade as metas que criamos para alcançar um sucesso idealizado nos têm usurpado dos pequenos prazeres da vida?
Abdicamos diariamente da liberdade dos pés descalços pelo requinte e formalidade dos saltos agulha. Almoçamos as atividades que não couberam nas outras 14 horas de expediente e voltamos ao escritório para assistir reuniões de puro engodo.
Reforçamos uma imagem incorruptível e de excelência. Mas, quanto se vive enclausurada no armário? Quanta sede dissimulada por pequenas doses? Quanta opinião em silêncio? Quanta maquiagem retocada?
Dormimos na exaustão das metas até que o despertador nos convoque para sermos a protagonista na fábula de outro slide. Caminhamos como sobreviventes até que a sexta-feira chegue e, com ela, a prerrogativa de poder extravasar nossa crise crônica consumindo o ócio.
Não namoramos durante a semana. Não saímos para dançar. Não vamos ao estádio ver o “timão”.
O algoritmo da rotina nos faz flutuar do apartamento ao carro e do carro ao escritório com pequenas pausas de ambiente sem ar-condicionado. Ao volante, qualquer percurso é de exaustão, as buzinas não nos deixam ouvir o rádio nem os nossos pensamentos.
É um laço, é uma corrente, e também somos um elo para que o ciclo recomece.
É preciso ter ímpeto para fugir dessa cadeia. É preciso dizer sim às aventuras que ficam do outro lado da fronteira cotidiana. É preciso mudar a rota que nos tira e nos devolve ao lar. Alguns dias é preciso por a cara na janela para respirar a vida.
É fato: a beleza é a mais valorizada virtude de nosso tempo. Quem é belo está vários passos à frente na luta pela sobrevivência e pelo sucesso.
Das estátuas gregas a Vinicius de Moraes e Angelina Jolie, a exposição artístico-midiática da beleza é um verdadeiro massacre. Não há como fugir, especialmente se você não foi abençoada pela genética para se enquadrar em qualquer uma das mais nobres categorias na escala da beleza.
E, em minha visão, a pior estratégia é tentar mudar sua triste situação. Vejam só o meu caso: minha avó deve ter sido a única a dizer algumas raras vezes que fui “bonitinha”, no entanto, não posso considerar esse testemunho como válido, já que ela enxerga muito pouco…
Assim, a única alternativa foi mesmo me contentar com os outros atributos que me restaram (modéstia à parte, eles são inúmeros) e evitar a neura de “dar uma boa melhorada no visual”. “Deus não dá asas às cobras”, não é mesmo?
E não é que neste processo de adaptação me surpreendi ao descobrir inimagináveis vantagens às feiosas?
Lá vão elas:
1. Você pode comer e beber tranquilamente e ainda ter PENA da Gisele Bündchen por não poder fazer o mesmo…
2. Você economiza tempo, dinheiro e energia indo menos à academia e ao salão de beleza, evitando plásticas, usando menos maquiagem, roupas caras, tinta de cabelo etc. Ou seja, você junta mais grana (fica mais rica), produz menos lixo (é mais ecológica) e, de quebra, ainda aproveita mais a vida!
3. Você tem centenas de amigas e amigos, sendo que dezenas deles são amigos VERDADEIROS.
4. Quase ninguém tem inveja de você.
5. As mulheres/namoradas dos seus amigos NÃO ficam histéricas por sua causa.
6. Seus colegas NÃO desconfiam da sua competência ou dizem que você “subiu na vida” por “dar” para alguém ou, então, por ser gostosona. Também vai ser bem improvável que um colega de trabalho fique puto por você NÃO ter aceitado dar uma “passadinha rápida” com ele no motel.
7. “Te comer” NÃO é a primeira coisa que 99% dos representantes dos cromossomos capengas (ou seja: os machos heterossexuais da espécie homo sapiens) desejam obsessivamente fazer ao te conhecer. Portanto, o sexo NÃO influencia toda sua vida: você tem total domínio sobre QUANDO e COMO “introduzi-lo” nas diferentes esferas de seu dia a dia (incluindo o trabalho)
8. Você pode andar tranquilamente pelas ruas sem se deparar, a cada esquina, com um nojento ridículo lhe falando o quanto você é gostosa. Pode até acontecer, quando o imbecil estiver bêbado, mas a frequência do incômodo será bem mais baixa…
9. É certo que você tem de se esforçar mais para arranjar o tão fundamental sexo casual, mas, sempre que conseguir, vai curtir em dobro… Afinal, suas conquistas só acontecem quando VOCÊ toma a iniciativa e é hábil o suficiente para seduzir através de comentários espirituosos, apimentados e bem-humorados! E acredite: ter a satisfação de conseguir “seduzir pelo TALENTO” é quase tão bom quanto o próprio sexo em si.
OBSERVAÇÃO: É importante notar que é bem mais difícil arranjar caras gostosões, mas lembre-se que os feiosinhos também tiveram de desenvolver outros diferenciais para se dar bem com a mulherada…
10. Você não tem de se preocupar em ficar bonita sempre… Olheiras? Pneuzinhos? Celulite? Lei da gravidade? Isso não é nada pra quem nunca foi bonita, sexy ou gostosa! E o melhor: você NÃO vai ficar neurótica por envelhecer… Afinal, seu diferencial NÃO é a beleza.
ATENÇÃO: Só tenha cuidado para não se empolgar demais e “embarangar” de vez… Afinal, não há charme e papo sedutor que ajude se você for um tribufu completo.
Bem, se você ainda estiver na dúvida se é possível curtir a vida mesmo se deparando com a feiúra toda vez que olha no espelho, lembre-se que o processo de seleção natural é implacável e nos leva a uma arrebatadora conclusão: se a beleza fosse realmente tão fundamental, a maioria esmagadora dos indivíduos da espécie não seria feia que dói.
Vai por mim…
*Ilustração: Agradecimentos a AndrewsSS.