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Estava no aeroporto de Navegantes, em uma terça-feira às 18h30, horário em que o avião deveria estar decolando. Porém, sou informada que por motivos meteorológicos, meu vôo iria atrasar por 2 horas.

“Estamos tendo uma nevasca ou são apenas raios?”

Uma mensagem vinda de São Paulo no grupo “Solteirar” interrompe minha análise:

Spagofreda: PQP, deixei o escritório e vim trabalhar em casa, pois não tínhamos energia. Daí atravesso a cidade e também não tem luz em casa! Como assim?!

Conto então que estou presa no aeroporto e todas as demais começam a se manifestar:

Zefa: Gente, meus filhos estão presos na escola, pois estou há 45 minutos sem sair do lugar! Caiu uma árvore no meu bairro e provocou um trânsito enorme!

“Ela mora há aproximadamente 3 km da escola.”

Eva: Meu chefe nos dispensou devido à falta de energia e agora estou ilhada no meio de um alagamento.

“Ela não trabalha no mesmo bairro que a Spago.”

Glória: Galera, parem de reclamar! Acabei de atender um paciente que está surtando. Olha só: o cara usa transporte público, sai de casa super cedo, chega tarde, quase não tem tempo para dormir, seu filho tem problemas de saúde e ele está desesperado, pois é cliente da Unimed Paulistana, que quebrou, e ele morre de medo de depender do caótico serviço público de saúde.

“Ela tem razão! Tem gente precisando mais desta estrutura precária do que nós.”

Lana: Galera, estou na Avenida Roberto Marinho em desespero, porque estou parada e observando os usuários de crack da região, os moradores da obra não finalizada.

“Este cenário é realmente assustador.”

Otávia: Ei, vocês reclamam quando não chove e agora estão reclamando devido à chuva? Me poupem! No Japão isso não acontece.

Renata: Meninas, eu estava aqui desabafando com o gatinho do escritório que hoje terei que trabalhar até tarde, enfrentar este caos de cidade e chegar mais cedo amanhã. Ele ofereceu seu apartamento que é aqui pertinho para eu passar a noite. Uhu!!!

“Essa sempre faz do limão uma limonada…rs”

Juliette: Não acredito! Bati no carro da frente enquanto lia as mensagens de vocês. Não consigo acompanhar, quero dar minha opinião, mas acho que também tenho um problema de infra….hahaha

“A mais atrapalhada do grupo. A gente se diverte com ela.”

Hipólita: Queridas, estou em casa, pois havia uma previsão de chuva forte no final do dia, então resolvi todos meus assuntos mais cedo. Afinal, estamos em um país tropical que, por falta de infraestrutura adequada e uma série de obras inacabadas, sofre com a ausência de chuva e com a presença dela.

“Sábio resumo da situação! Brasil, conforme-se ou deixe-o.”

Segunda-feira, 5h da manhã ao som de Gymnopedie¹ – Satie em meu despertador. Não lembro por que preciso acordar tão cedo. Só sei que minha agenda hoje começa às 08h, mas não consigo pensar em algo que deva preencher as próximas 3 horas senão o sono. Mais 30 segundos, desligo a função soneca e me situo: não é minha cama, não é meu quarto, não é São Paulo. Preciso pegar a estrada!

Em meio a goles de café, dois desafios: estar em casa a tempo de um banho e, o mais importante, lembrar quem é o paciente das 08h. Algo interrompe minha caça a memórias: uma pedra no vidro. Lembro-me de Drummond e sua experiência com pedras no meio do caminho, logo concluo que me falta conhecimento poético para lidar com a situação. Profiro alguns palavrões e, num processo mental, minha agenda anota mais uma atividade para o dia: acionar o seguro. Termino meu café e acelero.

Pontualmente às 07h03, saio de casa com metade da missão matutina cumprida e ainda me resta saber quem encontrarei nos próximos 47 minutos. Volto à caça e novamente sou interrompida no meu resgate de acontecimentos: placa ETE numbers. Fui fechada. Freio! O ambiente interior ao carro é como um monólogo de palavras de baixo calão. Troco de faixa.

Ouço insultos quando, involuntariamente, emparelho meu carro com o que há alguns segundos quase me envolveu em um acidente. O senhor de dentro do seu Jetta Black motor 2.0 recita algo sobre a trivial incapacidade, que a ausência do falo atribui às mulheres, em realizar trocas de marcha e articular o pé direito para ora pisar no acelerador ora pisar no freio. Não retruco. No momento me vem à mente uma leitura feita meses antes sobre acidentes de trânsito:

20141108 Uma noite de Glória - gráfico no texto

Dou risada mentalmente!

Seta, outra faixa. Concentro-me na agenda, mas quem é o paciente mesmo? Mais 5 minutos… Lembrei! Reginaldo – primeira consulta – pediu uma exceção nos horários, pois só está livre antes das 09h – tem urgência. Enfim, missão cumprida.

No retrovisor, vejo a mesma placa. Parece que o discípulo do princípio fálico me persegue. Quero evitar o stress: seta e caminho alternativo.

São 07h48. Entro no estacionamento do prédio e encontro a vaga perfeita e ao que parece, vem com auxiliar de manobras. Mesmo sem pedir ajuda, lá está um homem me dizendo como dar a ré – me concentro em ter educação, e o máximo que consigo é ficar em silêncio.

Ao sair do carro vejo o vidro e entro num processo meditativo sobre acionar o seguro. Algo me interrompe: quase sou atropelada! Quem pode ser a criatura dirigindo a 50 km/h dentro de um estacionamento? Minha fixação por placas logo reconhece: o discípulo. Encaramos-nos 4 segundos. Reúno meu aparente fracasso enquanto condutora, pedestre, ciclista e adestradora de pôneis mágicos e saio. O elevador me espera.

São 07h53. Inicio minha rotina de “bons dias”: três no elevador, dois no corredor e mais um pra Su – minha secretária. Entro no consultório, abro as janelas e acredito que o dia já pode começar a ser bom. Organizo a mesa, faço uma reflexão e estou pronta!

[Telefone] – Su pode pedir para o Reginaldo entrar.

A porta se abre e com ela reconheço uma avalanche de irritações – as primeiras horas da minha manhã agora tem um nome.

 

¹ https://www.youtube.com/watch?v=WcfxFxWI9R8

 

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