Mulheres mutiladas
“Quando eu tinha 13 anos, alguns vizinhos vieram em nossa casa e me forçaram a deitar no chão. Em seguida, seguraram minhas pernas abertas e uma mulher velha cortou minha genitália: meu clítoris, os lábios interior e exterior e, depois disso, minha vagina foi costurada. Foi a pior dor que eu já senti na vida e, naquele momento, eu só queria morrer. Desde este dia cruel, tive grandes problemas para urinar, sentia dores terríveis quando menstruava e, por diversas vezes, pensei que nunca poderia ter uma relação sexual com um homem. Nem que poderia ser mãe.” *
O depoimento acima é de uma moça de 19 anos, que assim como cerca de 130 milhões de outras moças no mundo todo, passou pela prática da remoção de sua genitália. Prática tradicional, cultural ou religiosa? Uma violação dos direitos humanos? Seja como for que se encare a chamada excisão feminina, ela não esconde a frieza dos números. Em cerca de 30 países, geralmente associados ao Islamismo, ainda que não apregoado pelo Alcorão – ex: Sudão, Iraque, Etiópia, Egito, Quênia, Nigéria, Somália, grupos étnicos na Indonésia e Índia, uma adolescente só é considerada mulher depois de passar pela excisão e, frequentemente, uma mulher só pode se casar se tiver sido excisada. Geralmente a excisão é praticada ainda na infância ou no início da adolescência.
Esse procedimento está, sobretudo, enraizado nas sociedades africanas e no Oriente Médio. As leis que proíbem a excisão não conseguiram até agora erradicá-la e as pessoas têm se dividido entre a defesa da identidade cultural desses povos e o reconhecimento de que se trata de um atentado à integridade física da mulher e, como tal, deve ser combatido. Eu, particularmente estou no segundo grupo. Aliás, quase todas as brasileiras devem estar nesse segundo grupo, por questões culturais.
E, as condições em que esta mutilação é feita são medonhas! As mulheres mais velhas das aldeias é que fazem os cortes nas garotas, sem anestesia, e utilizando apenas uma lâmina, uma faca ou qualquer outro objeto cortante. A sutura é feita frequentemente com um pequeno ramo ou com qualquer fio. E para a cicatrização são usadas ervas ou cinzas, ficando a menina com a região pélvica e as pernas enfaixadas por um período que chega até a 40 dias. As consequências são fáceis de adivinhar: dores violentas, infecções, esterilidade e danos psicológicos para o resto da vida, quando não resulta em morte.
O mais inacreditável nesse fato é que razões absurdas ainda existem para justificar essa tradição, ao meu ver puramente machista: “um homem poderá morrer se o seu pênis tocar no clítoris de uma mulher, por isso é necessário retirá-lo da mulher; “um bebê morrerá se, ao nascer, a sua cabeça tocar no clítoris ou que o leite materno acaba por ficar envenenado”; “mulheres não excisadas poderão nem sequer conceber filhos mais tarde”.
Estamos em 2016 e, ainda assim, convivemos com essa prática realizada em sociedades fortemente patriarcais, onde a virgindade é supervalorizada. Nesses lugares , a mutilação genital das mulheres acaba por ser um selo de garantia para os homens. E eles só casam com mulheres mutiladas, o que lhes assegura que se está diante de uma virgem.
Ainda que muito discutida e controversa, não há como não defender que essa prática é sem dúvida uma violação dos direitos humanos. Aliás, vou além. Isso é discriminação e violência contra a mulher, fere os direitos da criança, vai contra a redução da mortalidade infantil e a melhoria nas condições da saúde pública.
* Depoimento de Inab Abduliah, de 19 anos, nascida em Ali Sabieh, Djibouti, na África.












