InícioOpiniõesSaí com um canalha – a ressaca

Saí com um canalha – a ressaca

– Glória, está em casa?

– Sim, está tudo bem?

– Toma uma cerveja comigo?

– Claro!

E pelo pedido, é claro que não está bem…

 

“Amiga, estou com a autoestima arrasada. Sinto-me culpada e diminuída por ter caído em mais um golpe – o golpe da paixão. Ele é jovem, eu deveria ter suspeitado, deveria ter evitado a relação. A noite foi incrível, me entreguei num impulso adolescente. Que ridículo! Agora, fui surpreendida com um cenário de mentiras e descaso. Esperei uma ligação. Uma explicação. Uma explicação que, eu já sei, não existe. Sinto-me usada e a culpa me consome. Como saber de antemão que se está de posse de uma nota de 3 reais? Como? Ele é um ludibriador, eu deveria ter percebido, eu deveria saber. Estou arrasada, Glória. Envergonhada. Essa é a minha ressaca após a esbórnia da última noite. Caí no conto do canalha. Devo ser a única com tamanha cegueira.”

Fiquei em silêncio durante os intensos 120 minutos desse monólogo. Só me movi para pedir mais cerveja e pagar a conta.

Levei a minha amiga para sua casa e antes de partir a olhei: embriagada, sentimentalmente ferida e absorta num sono pesado. Ao observá-la lamentei, mais que tudo, a sua última frase. A verdade é que ela não é a única a acometer-se dessa cegueira. E, provavelmente, essa talvez não seja a sua última ressaca.

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Glória Feler
Glória Feler
Paulistana, 39 anos, psiquiatra – e escritora em colapso. Concubina de bons tragos, bons livros e homens (de todos os tipos). Não aprecia turismos, quando visita absorve. Paixões: cinema, jazz e mulheres. Escreve pelo contato. Ora para abraçar. Ora pra corromper.
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