InícioInspiraçãoMeu plano para 2016

Meu plano para 2016

Olho para a mesa ao lado da cama e vejo uma pilha de livros não lidos. Entre os perfumes, ainda faltam essências que pensei em comprar, mas esqueci com a correria do dia a dia. Na sala, a escassez de tempo deixou meia dúzia de lindas prateleiras, por um ano, decorando o ambiente do interior da caixa. A cozinha limpa guarda, além das panelas intactas, a lembrança de comemorações caseiras que prometi a vários amigos, mas não fiz.

Trabalhei mais do que eu precisava, namorei menos do que eu gostaria e prometi mais do que imaginava. Em uma relação de total transparência comigo mesma, enxergo que esse recorte do meu universo reflete quanta coisa deixei passar nesse ínterim – sem perceber. Foram mais do que capas empoeiradas ou frascos de perfumes inacabados, são histórias que não senti, são remendos que não me atentei em consertar.

– Bobagem, é só mais um ano.

E foi essa frase que me fez entender como surge a dor do arrependimento: um acúmulo sequencial desses 365 dias, que às vezes são 364, mas nunca 370 ou 380, considerando banais as sutilezas do nosso costumeiro passar das horas. Esse fracionamento temporal é chave que nos permite obter os resultados parciais do que simboliza o ponto de partida e o ponto de chegada de fases da vida.

Quantas meias-desculpas ou meias-refeições ficaram pelo caminho? Quantas meias visitas ou inteiras-promessas? Doeu-me, hoje, perceber que muitas das coisas consideradas tolas e, que deixo rotineiramente de lado, compõem boa parte das minhas idealizações.

E como é que a lucidez da simplicidade nos escapa todos os dias do ano?

As bem feituras se apequenam nesta hora, pois a consciência de nossas lacunas, nos aproximam mais do crescimento do que as futilidades cumpridas. Haverá mais dias pela frente, talvez não seja necessário esperar por 300 para notar e corrigir algo que não vai bem, afinal, o próximo 1 dia e os próximos 500 significam a mesma coisa: o amanhã.

Assim, todo dia é Ano-Novo e espero que possamos reservar para ele um único plano: fazer valer a pena, a simplicidade plena.

 

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Glória Feler
Glória Feler
Paulistana, 39 anos, psiquiatra – e escritora em colapso. Concubina de bons tragos, bons livros e homens (de todos os tipos). Não aprecia turismos, quando visita absorve. Paixões: cinema, jazz e mulheres. Escreve pelo contato. Ora para abraçar. Ora pra corromper.
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