A artista canadense Dina Goldstein produziu um trabalho fotográfico em que expõe seu sentir de como seria a vida das princesas depois do “felizes para sempre”.
http://www.fallenprincesses.com/photos/
Confesso que ver esse trabalho publicado foi a minha singela e discreta vingancinha a todas as princesas que nos bombardearam a infância com a ideia de que um dia chegaria um Príncipe, cheio de encantos, com o pacote completo da nossa felicidade, pendurado no cavalo branco. E pior, só se a gente sofresse muito antes; e ainda essa seria a única fórmula conhecida do “felizes para sempre”.
Eu, de minha parte, preferia as super-heroínas, como a Mônica, dentuça e sabichona, e a Sissi (aquela imperatriz austríaca, que odiava ser princesa e a hipocrisia da corte, e que eu conheci assistindo num só dia a trilogia dos filmes de sua vida, depois do meu primeiro pé na bunda do “grande e eterno amor da minha vida toda aos 16”). Mas, com o bombardeio de cinderelas em nossa cultura, as princesas e príncipes encantados não passam despercebidos por ninguém.k
Só muitas sessões de terapia depois é que compreendi a importância que tiveram na formação do meu caráter. Eram “o meu inimigo necessário” . Elas representavam tudo que eu não queria pra mim e que Dina expõe muito bem em suas fotos. O que vem depois do “felizes para sempre?”.
Eu quero ser titular exclusiva dos contornos dos caminhos da minha vida. A minha felicidade está exclusivamente em minhas mãos; me orgulho imensamente das minhas conquistas pessoais e profissionais e, por isso, não aceito pacotes prontos e fechados de “felizes para sempre”. Abracei a ideia do “antes só, do que mal casada”. E o meu príncipe, apesar de também ter sido criado por princesas encantadas e assistindo Superman, também já questionou tudo isso e quer uma relação que some (pois não está atrás da “outra metade”; ele é inteiro também). Estamos construindo juntos as regras da nossa casa financiada, porque as dos nossos pais não nos servem mais, pois como disse Fernando Pessoa, “para viver a dois antes é necessário ser um”.
Convidada: Carina Bicalho
Sara reúne, aparentemente, grande parte dos atributos que a enquadrariam na “categoria” de “mulher bem sucedida”: é charmosa, independente e tem uma carreira apreciável. Contudo, por trás da camuflagem de sucesso, revela-se a tragédia capital: ela não é casada. Logo, sua única esperança é renunciar todas as suas mais desprezíveis ambições pessoais e profissionais para tornar-se merecedora do único “final feliz” existente: encontrar seu “grande amor”. Ao longo da trama, a protagonista ainda enfrentará a fúria de rivais infatigáveis (mulheres, evidentemente), descobrirá seu lado doce, feminino e atrapalhado e, finalmente, conseguirá se casar… E um casamento em alto estilo, com direito a festa inesquecível e convidados chorando copiosamente por todos os cantos. Afinal, o casal será abençoado com a profecia divina de “felizes para sempre”.
Esse é, para a agonia da sétima arte, um dos mais desgastados roteiros hollywoodianos da atualidade, com pequenas variações aqui e ali…
Se encarássemos esse festival de infantilidade (até “Cinderela” da Disney me empolga mais), estupidez e moralismo barato poucas vezes, até seria divertido. O problema é que transformaram essa fórmula “universal de sucesso de bilheteria” em religião. De distração medíocre a padrão esperado de conduta feminina… Tudo isso só para justificar o não esgotamento comercial dessas tramas acéfalas. E uma mentira repetida à exaustão acaba virando verdade… Com muitas vítimas pelo caminho…
Como se todas as expectativas romantizadas e as ambivalências irreconciliáveis do “homo insatisfeito” pudessem ser amenizadas pelo cotidiano do matrimônio…
Como se as mulheres só se provassem admiráveis ao abdicar de seus sonhos para assumir seu papel como fêmea companheira e procriadora…
Como se o sacrifício da liberdade individual em prol do convívio entre dois mendigos por emoção pudesse dar significado à nossa existência miserável…
Como se a única virtude dos homens e, principalmente, das mulheres fosse encontrar um amor…
Como se o amor fosse imune à decomposição…
Como se o animal humano, justo ele, fosse inevitavelmente condenado a “ser feliz”…
Claro que as mulheres não são o único alvo desse moralismo indecente, mas são, certamente, o principal. Pelo menos as histórias dos heróis masculinos costumam ser mais criativas e tratar dilemas existenciais bem mais verossímeis e envolventes…
Não, obrigada!
Prefiro buscar o êxtase em aventuras repletas de adrenalina e em projetos mirabolantes. E sem a carga de responsabilidade pela vida alheia caso alguma das minhas loucuras dê muito errado.
Não me importo em desafiar a ojeriza da legião de zumbis que acredita nas histórias de carochinha de Hollywood. Declaro minha ambição em alto e bom som: pretendo acumular um repertório de feitos pessoais (alguns acertos e vários erros) que pode, eventualmente, me trazer satisfação no leito de morte. Também confesso minha completa incapacidade em me contentar com um relacionamento… Até porque meu combustível para enfrentar o exercício intenso da liberdade é justamente a paz em ficar sozinha.
Enfim, esse modelinho patético de pseudo-felicidade definitivamente não serve para aliviar o esvaziamento de sentido da minha existência… E, portanto, esses filminhos não me encorajam a desperdiçar nem cinco segundos do tempo que me resta. Se só tiver a TV como fonte de diversão e eles forem as únicas opções disponíveis nos canais de cinema, troco para o canal de esportes.
Se alguém insiste em contar alguns trechos desses blockbusters sobre a “alma feminina”, logo que chego em casa recorro aos clássicos (como o espetacular “Thelma e Louise”) ou a Almodóvar (especialmente “Volver”). Só para me desintoxicar…
E torço justamente para que a nova “geração” de heroínas valentes, poderosas e amantes da liberdade da Disney, algoz da desvalorização feminina por décadas, contribua para sepultar de vez todas as “Saras” (Cinderelas “atualizadas”) e essa brochante pasmaceira cinematográfica.
Como já disse minha amiga Eva em “Castelo de Sonhos”, “Let it go…”
PS: Para quem que se infectou com a lembrança das piores comédias românticas, aqui vão algumas imagens para que você volte a acreditar que o cinema tem salvação…



