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Em meu microcosmo familiar, as mulheres são as estrelas. Superam os homens em número e importância. Além das extraordinárias matriarcas (minha avó, mãe e tias), tenho diversas irmãs, primas e, agora, sobrinhas. Há homens, mas os coitados figuram como reles asteróides imperceptíveis. Alguns até foram promovidos a cometas por brilharem eventualmente, quando acertam a mão na condução da churrasqueira ou quando acertam a piada. Na prática, não sei o que elas viram neles. Quase nenhum se salva.
Elas, cada uma à sua maneira, são formidáveis: brilhantes, bem-sucedidas, dedicadas, generosas e, como se tudo isso não bastasse, são belas. Há empresárias, professoras, diretoras executivas, médicas… Quase todas são mães.
Aparentemente não falamos a mesma língua, mas admiro-as incondicionalmente.
Evidentemente sou neste universo um corpo estranho incapaz de se enquadrar na inofensiva casta de “matéria escura”. O meu estilo “ovelha negra” é algo mais bestial, com potencial perturbador suficiente para me alçar à condição de “buraco negro”, uma vez que minha simples presença coloca em risco a paz dos encontros familiares. Algo próximo ao que seria a chegada de Darth Vader nas reuniões comemorativas do Império.
Claro que a aparente harmonia destes eventos engana apenas os observadores com capacidade de investigação limitada. E eu, simplesmente por existir, tenho o poder sobrenatural de escancarar tais fissuras e testemunhar de camarote as turbulências resultantes…
Assim que chego à casa da minha mãe, minhas (des)aventuras pelo mundo e minha independência incômoda ameaçam os espíritos mais conservadores. E nem preciso abrir a boca… O legado de ousadias que transporto causa repulsa aos maridos descartáveis, que, por puro instinto de sobrevivência, entram em modo de alerta para preservar seus casamentos e também o direito de ficar com a bunda na cadeira enquanto a mulherada faz todo o trabalho.
Não pensem que chego arregaçando os fracos e oprimidos “cromossomos capengas”. Confesso já ter praticado tal passatempo, mas minha mãe e minha avó, as únicas pessoas capazes de controlar meus arrojos indômitos, já “convenceram-me” a bancar a boa menina nestas ocasiões.
A gota d’água para elas foi quando um dos meus mais detestáveis cunhados ousou dizer que não suportava pessoas pobres e feias (aparentemente ele se referia a mim). Minha resposta foi rápida: “Nossa! Eu não ligo de ser pobre e feia. Já no seu caso deve ser intolerável olhar para o espelho todos os dias e ver o quanto você é horroroso, mal-sucedido e insignificante. Se eu fosse você, me mataria. Se quiser, tenho algumas idéias criativas para você finalmente fazer algum bem à humanidade”. Obviamente, esse diálogo despretensioso acabou com a festa daquele dia.
E, depois da bronca das matriarcas, venho controlando com louvor minha irrefreável hipersensibilidade à mediocridade.
Há, contudo, alguns vícios que os mais hercúleos esforços não são capazes de reprimir, em especial minha “cara de cu” quando começam as piadinhas sexistas, os discursos moralistas contra as solteiras “imaturas” ou as discussões políticas reacionárias (sim, alguns desses maridos admiram os políticos que mais investem contra casamento gay e direitos das minorias).
E, recentemente, todo meu esforço em bloquear meus ímpetos homicidas foi mais uma vez colocado à prova.
Na última guerra das estrelas familiar, um dos maridos começou a relatar como seu casamento era maravilhoso por ter uma “companheira inseparável” ao seu lado. “Por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher o apoiando”, ressaltou. Para piorar, ele concluiu dizendo que minha irmã deixaria a sua carreira para ajudá-lo e ter mais tempo para cuidar dos filhos.
Aqui vale fazer uma pausa para elucidar um fato da vida: mulheres que fazem valer suas vontades acabam, inevitavelmente, fragilizando seus casamentos. Pelo menos na minha família tal infelicidade é 100% comprovada: os casamentos que persistem e visivelmente são mais “pacíficos” e “apaixonados” são aqueles em que as mulheres abrem mão de grande parte de seus sonhos e ainda evitam arranjar brigas a qualquer custo. Não há nenhuma relação com o nível alucinante de paixão no início do relacionamento.
Bem, nunca entenderei as mulheres que aceitam sacrificar sua satisfação pessoal. Talvez o amor pelos filhos (e até pelo marido?) justifique. Talvez. No meu caso, seria motivo para suicídio.
De qualquer forma, voltando ao fatídico episódio, confesso: não pude conter o lado mais negro da minha força: “E você, irmãzinha, quer realmente trocar a sua carreira promissora para ser uma assistente no negócio dele? Quero ouvir o que VOCÊ tem a dizer antes que seu digníssimo continue o monólogo…”
Neste exato momento, os olhos da minha mãe começaram a propagar raios gama poderosos que penetraram em minhas cordas vocais, impedindo a emissão de qualquer onda sonora adicional relacionada ao tema. O campo de força de proteção à família fora acionado. Com certeza, minha mãe já havia feito essa pergunta à minha irmã, mas não o fez na frente de todos. Ela tem mais estilo que eu, mas, pelo visto, mesmo suas incursões discretas não adiantaram.
Só me restou uma saída honrosa: “Acho que vou comprar mais bebida.”
Apesar da geladeira ainda lotada, ninguém se opôs. Apenas minha sobrinha se manifestou dizendo que queria ir comigo. Antes de responder, minha irmã já havia começado a vomitar a lista de advertências: “Nem se atreva a falar palavrões ou a ficar enaltecendo suas loucuras suicidas. Ela tem apenas 7 anos…”
Nem respondi… No caminho, o milagre que valeu todo o sacrifício: “Tia Freda, quero ser igual a você quando crescer. Quero ser dona da minha vida, não quero casar, quero fazer mil coisas emocionantes e ter uma tatuagem irada de dragão como a sua. É verdade que você mesma desenhou?”
Nem me lamentei pela bronca que minha irmã certamente daria por minha influência nociva… Naquela hora, uma enxurrada de felicidade e orgulho da minha sobrinha Jedi tomou conta de todas as veias do meu corpo. A nova geração de mulheres da família estaria, finalmente, livre, leve e… salva!
* Ilustração: agradecimentos a “Alô, alô marciano”.
Sou a busca de algo que não se explica
Sou o encontro da pessoa amada
Sou o erro que a vida complica
Sou o acerto da mulher apaixonada
Nesta busca descobri que sou deserta
Neste encontro vi que não estou sozinha
Neste erro aprendi a ser mais correta
Neste acerto percebi tudo que tinha
Depois da busca abri fronteira
Depois do encontro tenho raiz
Depois do erro sou solteira
Depois do acerto sou mais feliz
Engraçado o poder que a frase “estou solteira” surte em uma mesa de bar. De repente surgem milhões de cupidos desesperados querendo cumprir a missão de lhe arrumar um grande amor ou simplesmente um outro alguém.
Encontro de amigas em um domingo comum.
Amiga 1 – Meninas, terminei com o Ricardo, não dava mais certo, 2 anos jogados no lixo.
Amiga 2 – Nossa amiga, que triste! Mas não fica assim, tenho um amigo ideal para te apresentar, super bom moço, vocês vão se dar muito bem, eu tenho certeza!
Amiga 1 – Acho que vou passar, estou precisando curtir um pouco mais a vida, sabe?
Amiga 2 – Oba! Vamos curtir e já chamamos o Leo para sair com a gente, ele não quer nada com nada, mas é um gato, isso sim é aproveitar a vida. Mas tenho o Cris, o Jonas, o …
Amiga 1 – Meu Deus! De onde saiu tanto amigo?
Sempre que saio com “elas”, imagino aquelas revendedoras de cosméticos que logo tiram da bolsa o catálogo (também conhecido como Facebook) e destampam a contar todos os defeitos e qualidades do “produto” da vez. Confesso que já caí em algumas compras às cegas, mas tenho experiências não muito boas que prefiro dividir com vocês em outra ocasião (aguardem).
Mas não são só amigas que estão no plano “desencalhamento” do mundo. Temos as tias, os tios, primos, amiga da prima, filho da vizinha, a vizinha, a concunhada da tia-avó do dono da padaria da esquina e nem estou contando sua mãe porque ela já virou “café-com-leite”. Ufa!
Posso ficar solteira, por favor?
Fui ao consultório médico. A recepcionista começou com as perguntas de praxe para fazer a ficha: nome, endereço, data de nascimento, estado civil… estado civil??? Como assim? Que diferença faz o estado civil na consulta médica? Foi a primeira vez que me deparei com essa pergunta após ter me divorciado. Fiquei um tempo paralisada sem saber e, de repente, caí na gargalhada e respondi: aliviada. Sim, estado civil aliviada, me recusava a falar divorciada.
Na minha opinião, se declarar divorciada traz uma carga enorme, desperta uma sensação de fracasso na missão “felizes para sempre”, uma sensação de “não consegui”. Imagino que para as viúvas, a declaração do estado civil traga um sentimento até pior.
Gostaria que pessoas que já tiveram relacionamentos e que não têm mais, não importa o motivo, tivessem a chance de um recomeço. Que pudessem ser chamadas de solteiras. Seria interessante que a lei permitisse isso. Me sentiria mais feliz. Sentiria que tenho chance de recomeçar de novo sem carregar esse estigma.
Pensando nisso criei meu próprio estado civil: solteira aliviada. Uma solução divertida para quando me perguntam meu estado civil. E você, também é a favor de voltar a ser solteira?
Minhas primeiras lembranças de infância remetem a ocasiões de fascínio desenhando e ouvindo minhas músicas prediletas… Sozinha no meu canto, claro…
Difícil imaginar quantos esboços cheguei a fazer já sonhando com as futuras tattoos e quantas horas passei isolada do mundo criando histórias em quadrinhos com personagens esquisitos.
Lembro-me perfeitamente como o espírito demoníaco tomava conta da minha versão garotinha desengonçada quando qualquer ser ousasse interromper meu sagrado templo de introspecção. A reação era um olhar tão ou mais assustador do que o da menina satânica do filme “O Chamado”. E essa acolhida calorosa produzia resultados consideráveis: poucos se obstinavam a me resgatar da imersão absoluta… O verdadeiro éden terreno que durava até ser interrompida pelos irmãos e primos, que pagavam caro por isso.
E nada mudou até hoje. Mas tranquilizem-se: atualmente moro sozinha. O perigo a terceiros intrometidos está sob controle. Também nunca abro mão de amparar os loucos minguados que desejam passar a noite comigo: eles são sumariamente ejetados do apartamento muito antes de correrem o risco mortal de me acordar ou de estar ao meu lado assim que o despertador tocar.
Viagens? Sempre que insisto no fatídico erro de tentar uma nova alternativa ou uma nova companhia, imediatamente prometo que da próxima vez será como sempre deveria ter sido: sozinha. Não há nada melhor do que uma viagem solo, inclusive para conhecer pessoas e aproveitar até o ponto em que isso é divertido.
Trabalho? A pataquada do “trabalho em equipe” é puro engodo de espertinhos “braços curtos” querendo distribuir (ou melhor: transferir) a responsabilidade para os que “se concentram”.
Esporte? Tudo bem, jogar e assistir futebol é um tesão em qualquer circunstância. Mas os individuais também não deixam a desejar…
As exceções: Os minutos de adrenalina coletiva e, principalmente, os encontros com as grandes amigas e amigos. Esses têm direito de me interromper sempre. Especialmente porque eles me conhecem e sabem que não posso abster-me por muito tempo do isolamento.
Só os evito nos eventos com vários casais, festivais da dissimulação em que não se ouve uma frase sequer conectada com o que é dito pelas(os) amigas(os) quando desacompanhadas(os) dos respectivos cônjuges. Odeio participar de processos seletivos para escolher o melhor casal representante dos comerciais de margarina, o marido mais “macho” e a mulher mais zelosa. Ineditismos são raros, inclusive quando surge alguma briga que, aliás, também segue rigidamente os roteiros permitidos: futebol e política para homens, maridos descuidados, ciúmes bobos e as dificuldades em lidar com os pimpolhos para as mulheres. Evito essas interações para manter a pressão arterial em seu devido lugar e o fígado pronto para os encontros que valem a pena.
Medo de ficar sozinha? Nem um pouco. A propósito, nem temo os fantasmas que, apesar de não serem camaradas, nunca tiraram meu sono.
E morrer sozinha, como fica? Na prática, se você não “bater as botas” sozinha, muito provavelmente morrerá numa catástrofe. Em situações normais de temperatura e pressão, estaremos sozinhos no instante do último suspiro. Em muitos casos até incomunicáveis. Por outro lado, considerando a perspectiva “cuidados na decrepitude”, mesmo que você esteja casada hoje, até seus momentos derradeiros você poderá estar divorciada ou viúva (aliás, o cenário mais provável para as mulheres, que “duram” um pouco mais do que os homens)… E, mesmo com filhos, nada garantirá que eles cuidarão de você ou que você aceitará se transformar numa tortura para eles. Enfim, não há muito por onde se safar…
Para mim, pior do que a morte é me tornar uma incapaz e não mais conseguir “ficar sozinha”. Esse sim é o meu maior pesadelo. Prefiro mil vezes estar a sete palmos do chão…
E, finalmente, antes que vocês me perguntem, lá vai: nem quando o vírus da demência me infectou resisti ao isolamento por muito tempo. Solidão, vício incurável…
Afinal, eu só quero e eu só penso em Solteirar…
Qual a graça de ser solteira se não puder aprontar algumas travessuras, sem se importar em magoar ninguém?
Sou solteira convicta, mas os homens são sempre ótimos personagens para completar minhas aventuras e travessuras, e de fato, eles não se ofendem com isso.
Até mesmo no trabalho, eles me provocam, me instigam, estando eles intencionados ou não.
Na verdade, gosto de conviver e principalmente de me divertir com eles.
Um dia desses, estava eu saindo de um bar quando me deparei com dois exemplares masculinos espetaculares. Um deles disse: “Oooooi”.
Bastou para que eu respondesse com um sorriso provocador: “Oiiiiiii”.
O cara chegou junto, não se apresentou, tentou me beijar, sem encontrar nenhuma resistência. Ao recuperar o fôlego, virou para o amigo e disse: “Que mulher gostosa!”
Meu diabinho interior, neste momento, deu pulos de alegria e sussurrou: “Que delícia! Você é foda mesmo.”
O amigo se aproximou e disse: “Beija eu também…”
Sem relutar, fiz um exercício de revezamento espetacular, enquanto beijava um, o outro passava as mãos pelo meu corpo de forma provocante e divertidíssima.
Obviamente, não aceitei o convite de segui-los para outro lugar, afinal sou travessa, mas correr riscos desnecessários não é o meu forte.
Voltei para casa gargalhando sozinha no carro e o efeito da travessura se refletiu no meu rosto por uma semana.