Apaixonar-se é perda de tempo
Quando a presença de alguém dispara a revoada gelada de borboletas em seu estômago, já profetizavam alguns sábios gregos há milênios: você foi amaldiçoada!
Especialmente para pessoas como eu, uma das maiores catástrofes nesta vida é ser alvo da tirania de uma paixão romântica.
Explico: egoístas libertárias e libertinas logo se sentem aprisionadas e mortas em vida ao cair nas armadilhas limitantes da paixão, já que a verdadeira paixão é exageradamente aniquiladora de sua independência e de suas múltiplas potências vitais. E nem só o amor romântico alimenta o espírito humano…
Muitos até anunciam que em seus relacionamentos há espaço para a liberdade. Para mim, essas pessoas não têm nem uma coisa, nem outra. Vivem pela metade. E talvez por isso precisem da “cara metade”.
Todos os amantes apaixonados em certa medida sufocam o “objeto” da paixão. Ou, então, não se trata de paixão, mas de companheirismo, variações distintas de amor, respeito ou qualquer outra coisa.
Ora, se você não tem a mínima aptidão para a escravidão voluntária e nada em sua natureza subversiva pode fazê-la suportar o cárcere de uma paixão, é simples: não se apaixone. Afinal, separar-se do ser amado será inevitável e doloroso.
Em alguns casos, doloroso a ponto de suprimir seu vigor para descobrir o novo, neutralizar seu ânimo para estar com os amigos, dizimar sua força e capacidade produtiva, assassinar seu prazer pelo sexo casual e até mesmo refrear sua evolução como ser humano por meses.
Para desajustadas como eu, uma paixão resume-se a poucas semanas de deliciosa embriaguez interrompidas pelo pânico com a consciência da masmorra emocional e seguidas de meses amargos de abstinência e recuperação… Enfim, pura perda de tempo!
E tanto pior se alguém apaixonar-se por você. Como o vírus da paixonite aguda normalmente precisa de um tempo de incubação, é bem provável que a vítima possa ser seu(ua) amigo(a). Péssima notícia: é enorme a chance de que essa amizade seja destruída irreparavelmente.
E, como não controlamos a neuroquímica que governa nossos impulsos, a maldição até poderá ocorrer acidentalmente. Talvez quando um ser sedutor a fizer rir como ninguém. Ou quando tiver a misteriosa capacidade de desvendar sua intimidade. Sabe-se lá… Neste caso, apenas renda-se por um instante! Para tudo há uma primeira vez.
Sabemos que a submissão ao amante não resistirá muito à sua voraz índole libertária, mas degustar as drogas mais mortais também é um exercício de liberdade, desde que o uso prolongado não a faça sucumbir.
Há quem acredite que a dor provocada pelo fim de uma grande paixão é um prato cheio para a criação de obras artísticas memoráveis. Se for o caso, aproveite a chance, mas lembre-se que o sonho de liberdade foi a mais formidável matéria prima das obras-primas. Assim, qual delas – liberdade ou paixão – mais contenta o espírito humano?
Bem, se você lê meus delírios, deve pertencer à mesma linhagem de loucas varridas, as que abdicaram do cabresto de uma vida desesperada à procura de paixões avassaladoras. É bem provável que você, como eu, simplesmente não conceba a idéia de abandonar a liberdade depois de milênios de luta para conquistá-la. E, como a paixão e a liberdade desmedidas são inconciliáveis,
você escolheu a segunda.
Você provavelmente também não se intimida quando jogam na sua cara que a liberdade não assegura a felicidade. Você sabe que, se isso for verdade, nada poderia assegurar. Muito menos o amor romântico…
De qualquer modo, se você for vítima dessa droga, trate de livrar-se dela assim que voltar do entorpecimento (e você voltará). Insistir em utilizá-la a transformará em uma zumbi inútil e desprovida de amor próprio.
E, se você chegar ao fundo do poço, não desista! Encontre uma nova e desafiadora montanha para escalar, ingresse em um novo projeto, ultrapasse seus limites, preencha sua biografia e comemore cada conquista antes que seja tarde!
Na migalha de vida que lhe resta, melhor apaixonar-se cada vez mais pela maior heroína de sua vida: você mesma!












