Gaiola para pássaros livres
Outro dia, saindo do mercado, deparei-me exatamente com um papel contendo, em letras garrafais, a frase ”Gaiola para pássaros livres”. É claro que não se tratava de nenhuma situação absurda, ela estava na parede de uma loja de acessórios para criação e manutenção de pássaros, super normal!
O fato é que eu não sou, exatamente, um modelo de pessoa normal e, portanto, me incomodou muito ter que conviver com aquela frase violentando a minha leitura do ambiente. Isso, não só porque eu não gosto que aprisionem os pássaros, mas principalmente, porque eu não gosto de prisões.
O paradoxo embutido e traduzido naquelas letras em negrito, quase anula o encarceramento que, na prática, ocorrerá a qualquer coisa que se aloje por trás de grades e, na contramão do que podemos prever, uns tantos pássaros ainda se denominariam livres, mesmo sob a custódia de um ambiente reduzido.
Não digo isso por ter algum conhecimento sobre a comunicação dessas aves; e sim, digo porque não me refiro somente à ordem dos passeriformes¹, mas também a pessoas, que na condição de pássaros, por vezes se deixam encantar pela gaiola de suas relações, sem a menor suspeita de estarem num cativeiro.
E, quantos relacionamentos, levianamente, nos diminuem a meros espectadores de nossa própria prisão? A incoerência de uma gaiola para pássaros livres é que ela jamais perderá seu efeito redutor e um genuíno pássaro livre não retorna à gaiola, porque se, se desfaz de seu viés, aceita o óbito de si mesmo.
Perdemos nossas asas quando nos limitamos a voos rasos, acreditando ser o máximo que podemos alçar. Assim, sem perceber, logo mais elas já estarão atrofiadas.
¹ Passeriformes é uma ordem da classe Aves, conhecidos popularmente como pássaros ou passarinhos. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Passeriformes)












