Quando resolvi ser livre eu entendi finalmente o que é estar leve, solta como uma pipa aos sabores do vento, mas forte o suficiente para aguentar as tormentas. Leve para entender que o que me faz mal não me cabe, mesmo que esse mal seja conhecido como amor. Não que eu esteja depreciando a palavra, mas já se sabe que se te faz mal, você está supervalorizando o sentimento errado achando que é amor. O amor tem que ser leve, sem te pesar nos ombros te fazendo entristecer e nem doer no peito, te deixando amarga.
Resolvi ser livre e assim comecei a entender que isso não quer dizer estar sozinha, quer dizer apenas que não dependo de outro alguém para ditar como o meu emocional deve reagir, como o meu humor deve se portar diante de atitudes que não competem a mim mudar porque não dependo de nenhuma aprovação para ser quem sou, eu apenas sou.
Resolvi ser livre e aprendi a dar valor ao fato de estar solta, de não ter que dar satisfações do meu dia a dia, do tamanho da minha roupa, da demora em atender um telefone, do olho torto aos meus amigos, do comodismo em se acomodar na vida e na relação, achando que amores sobrevivem do “mais do mesmo” diário.
Eu aprendi que me libertar não é sofrer, nem mesmo chorar, não é me sentir incompleta por não ter alguém para me beijar nas noites frias, para me dar carinho nos dias difíceis… Na verdade, me libertar é saber que posso chorar e sofrer quando quiser, mas também é valorizar quem eu sou, emancipando a mim mesma, me conhecer mais do que ninguém, reconhecer a minha força interior e entender que não preciso estar dependente de ninguém para sorrir.
Hoje eu sei que minha liberdade vale muito mais do que um status de relacionamento que muitas vezes nem me faria feliz, só me faria menos “falida” para a sociedade. Aprendi que a sociedade pouco importa na minha vida, pois nunca me importei com os seus valores. Quando somos livres, nos livramos de tudo o que nos prende, de tudo o que nos deixa estagnadas e nos impede de avançar, arcamos com nossas atitudes, consequências e incertezas sem pestanejar, porque sabemos que até isso nos levará a algum lugar.
Convidada: Marcia Rocha (seguidora)
Sou a busca de algo que não se explica
Sou o encontro da pessoa amada
Sou o erro que a vida complica
Sou o acerto da mulher apaixonada
Nesta busca descobri que sou deserta
Neste encontro vi que não estou sozinha
Neste erro aprendi a ser mais correta
Neste acerto percebi tudo que tinha
Depois da busca abri fronteira
Depois do encontro tenho raiz
Depois do erro sou solteira
Depois do acerto sou mais feliz
Outro dia, saindo do mercado, deparei-me exatamente com um papel contendo, em letras garrafais, a frase ”Gaiola para pássaros livres”. É claro que não se tratava de nenhuma situação absurda, ela estava na parede de uma loja de acessórios para criação e manutenção de pássaros, super normal!
O fato é que eu não sou, exatamente, um modelo de pessoa normal e, portanto, me incomodou muito ter que conviver com aquela frase violentando a minha leitura do ambiente. Isso, não só porque eu não gosto que aprisionem os pássaros, mas principalmente, porque eu não gosto de prisões.
O paradoxo embutido e traduzido naquelas letras em negrito, quase anula o encarceramento que, na prática, ocorrerá a qualquer coisa que se aloje por trás de grades e, na contramão do que podemos prever, uns tantos pássaros ainda se denominariam livres, mesmo sob a custódia de um ambiente reduzido.
Não digo isso por ter algum conhecimento sobre a comunicação dessas aves; e sim, digo porque não me refiro somente à ordem dos passeriformes¹, mas também a pessoas, que na condição de pássaros, por vezes se deixam encantar pela gaiola de suas relações, sem a menor suspeita de estarem num cativeiro.
E, quantos relacionamentos, levianamente, nos diminuem a meros espectadores de nossa própria prisão? A incoerência de uma gaiola para pássaros livres é que ela jamais perderá seu efeito redutor e um genuíno pássaro livre não retorna à gaiola, porque se, se desfaz de seu viés, aceita o óbito de si mesmo.
Perdemos nossas asas quando nos limitamos a voos rasos, acreditando ser o máximo que podemos alçar. Assim, sem perceber, logo mais elas já estarão atrofiadas.
¹ Passeriformes é uma ordem da classe Aves, conhecidos popularmente como pássaros ou passarinhos. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Passeriformes)
Sinceramente, não costumo reparar na roupa das pessoas, mas outro dia encontrei no banheiro uma mulher que passava dos seus 50 anos e, impulsivamente, foi aberta uma exceção. Ela usava um vestido sexy, não muito curto, mas agarrado ao corpo o suficiente para evidenciar todas as suas curvas e saliências.
Essa inocente personagem do meu dia não era dona de um corpo escultural, em seu conjunto de saliências somavam-se também aquelas desagradáveis que se aglutinam em nosso abdômen e em nossas coxas.
O que me chamou atenção para a cena é que não era alguém explorando seu poder de sedução. A sensação que tive foi a de ver um corpo enrolado em um pano e só, de forma que ela, simplesmente, já havia descartado todos os padrões pré-estabelecidos (por terceiros) para ter o direito de estar naquela peça.
Posteriormente, ouvi comentários clichês sobre o ridículo da combinação (vestido mais corpo), mas a minha leitura do fato é de que se trata muito mais de um ato de coragem do que qualquer outro exercício de exibicionismo gratuito. Vi aquele ser como a inspiração de algo que poucas pessoas fazem: vestir as peças escondidas no armário e sentir-se livre na convivência com seu próprio ridículo.